Há quem chegue a Lisboa à procura de uma oportunidade. Há quem venha por amor. E há quem, sem perceber, acabe criando uma família do outro lado do Atlântico. O pianista Pikachu é um desses casos.
Quem cruza com ele tocando num bar, numa jam session ou acompanhando outros músicos talvez nem imagine que o apelido nasceu muito antes de Portugal. O cabelo descolorido, amarelo como o famoso personagem dos desenhos, virou marca registrada ainda no Brasil, na época em que Pokémon GO tomava conta das ruas. O nome pegou tanto que hoje pouca gente sabe o seu verdadeiro nome — e, para ser sincero, ele prefere que continue assim.
“Entre o meu nome e Pikachu, eu prefiro Pikachu”, diz, aos risos.
Mas o apelido é apenas a porta de entrada para uma história que começou muito antes dos palcos lisboetas.
Música de família
Filho de uma família onde a música sempre foi parte da rotina, Pikachu cresceu cercado por instrumentos. O avô toca sanfona, a tia é pianista, outros parentes cantam ou arriscam um violão. Era quase inevitável que o piano também fizesse parte da sua vida.
Ainda no Brasil, tocou de tudo um pouco: casamentos, aniversários, eventos religiosos e até velórios. “Não recomendo. É um clima péssimo”, brinca, sem perder o bom humor que parece acompanhá-lo em qualquer conversa.
Hoje, prestes a completar uma década em Portugal, ele olha para trás e percebe que a música o trouxe até aqui — e que foi ela também quem lhe ajudou a construir um novo lar. A jam session como ponto de encontro.

Quem conhece Pikachu sabe que dificilmente ele está sozinho. As jam sessions que organiza se tornaram um espaço onde músicos se encontram, experimentam, aprendem uns com os outros e, sobretudo, criam laços.
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Não foi um projeto pensado apenas para tocar. Foi uma forma de matar a saudade de casa. “Eu cresci numa família que todo domingo reunia muita gente. Amigos, músicos, conhecidos… sempre tinha gente em casa. Eu queria sentir isso outra vez.”
Talvez seja por isso que tanta gente passe por suas rodas musicais e acabe voltando. A música é a desculpa; o encontro é o verdadeiro motivo.
A música que ecoa em Lisboa
Nesta série da EntreRios, fazemos sempre a mesma pergunta: afinal, qual é a música que ecoa em Lisboa? A resposta veio sem hesitação. “A música brasileira.”
Não por patriotismo, faz questão de explicar, mas porque ela ocupa as ruas, os bares e os encontros da cidade com uma naturalidade difícil de ignorar.
Para quem vive entre artistas de diferentes nacionalidades, Pikachu acredita que a música brasileira encontrou em Lisboa um público disposto a cantar junto.
Os desafios de viver da arte
A conversa também passa pelos bastidores da profissão. A vida de músico, seja no Brasil ou em Portugal, continua sendo feita de incertezas. Não há carteira assinada, não existe garantia de rendimento quando a saúde falha e, muitas vezes, é preciso aprender a administrar o próprio futuro. “Se você não souber economizar e investir, é você por você mesmo.” Ainda assim, ele segue escolhendo a música todos os dias.
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O pai e o músico
Longe dos palcos, Pikachu troca o piano pelo papel mais importante da vida: o de pai. Pai de dois filhos, ele garante que não existe uma grande diferença entre o artista e o homem dentro de casa. “O Pikachu é amigo de todo mundo. Em casa, eu sou pai. Mas continuo brincalhão.” Talvez essa seja justamente a característica que faz tanta gente se aproximar dele.
Deixa a vida levar
Ao final da conversa, pedimos que escolhesse uma música que representasse o momento atual da sua vida. A resposta veio quase como um lema. “Deixa a vida me levar”, de Zeca Pagodinho.
Depois de quase dez anos em Lisboa, dois filhos, incontáveis apresentações e uma comunidade construída através da música, parece que Pikachu continua seguindo exatamente esse refrão: deixando a vida conduzir o caminho, sem perder o sorriso nem a vontade de reunir pessoas ao redor de um piano.
Assista à entrevista completa com Pikachu no canal da EntreRios no YouTube e conheça mais histórias de quem faz a música ecoar pelas ruas de Lisboa.