Comportamento

Natal longe de casa: como imigrantes criam novas famílias em Portugal

Natal é recriado em Lisboa para transformar saudade em animadas celebrações

Dezembro 25, 2025

Ceia do Abraço: amigos se juntaram para celebrar a data natalina na casa de Larissa (de blusa verde, na fileira detrás). Crédito: Acervo pessoal.

O mês de dezembro pode causar uma inquietação em quem é imigrante sem família. O que fazer no Natal? Onde ir? Como superar a saudade de quem está em outro país? Muitos já encontraram um jeito afetuoso de mitigar a solidão: reunir-se com amigos que são quase uma nova família. É a “Ceia do Abraço”, como conta a consultora de TI Larissa Souza. Desde que se mudou para a Europa, em 2022, ela, hoje residente em Lisboa, transformou a data natalina em momento de afeto coletivo.

Dar e receber abraços é o melhor da festa. Os amigos se reúnem na casa dela na véspera do dia 25. Tudo é organizado em um grupo de WhatsApp, onde combinam o cardápio e o que cada um deverá levar. “Os amigos passam a ocupar o lugar dos parentes, a gente vira uma grande família improvisada. Somos animados, ficamos rindo, conversando e cantando até tarde”, conta.

Entre as iguarias, um item é obrigatório: “O pudim do amigo Juninho já virou símbolo das festas. Ninguém permite que falte”, brinca. O Natal passado foi especialmente marcante. Durante a ceia, Larissa e o marido contaram que esperavam um bebê. “Foi emocionante”, diz ela, com Stella nos braços.

A dentista carioca Loana Rondinelli também adere a esse tipo de encontro com pessoas de nacionalidades diferentes. Em setembro, ela já começa a escolher os enfeites e a planejar cada detalhe da ceia.

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Em seu apartamento, no Estoril, recebe os pais e amigos que encontram ali o aconchego e o espírito familiar. O acolhimento ajuda a diminuir a saudade de casa, mais forte no fim do ano.

A dentista carioca Loana Rondinelli (ao centro, com a taça), os pais e amigos que encontram ali o aconchego e o espírito familiar. Crédito: Acervo pessoal.

“A ceia é bem tradicional, como as que fazíamos no Brasil, e cada um traz uma especialidade da sua família. Uma amiga preparou o tender da receita do pai e a farofa que a avó fazia, outro trouxe o bacalhau que costumava cozinhar. Cada prato carrega uma lembrança, e todo mundo sente um pouquinho o sabor de casa”, conta Loana, que reúne de oito a dez convidados para os brindes de Natal.

Entre os que já fazem parte da tradição está o pizzaiolo e DJ carioca Edgar Dieckmann, que participa da ceia da “família” há dois anos.

“Ela é minha amiga de infância, mas acolhe também os amigos que a gente faz aqui em Portugal. O Natal na casa dela já virou um ritual. A gente percebe que pode até estar longe, mas não está sozinho”, reflete.

O real espírito natalino

Há confraternizações nas quais o espírito natalino é especialmente forte — como aconteceu na ceia do empresário carioca Vandré Silva, em Cascais, no ano passado.

Um dos amigos, Felipe, tivera a moto furtada no bairro do Rosário, em frente de casa. Foi então que o grupo decidiu fazer uma surpresa: uma vaquinha disfarçada de brincadeira.

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“Fizemos uma caixinha com a proposta de o melhor karaokê ganhar o prêmio. Mas já estava tudo combinado. Todos votaram no Felipe, e, quando ele percebeu o que estava acontecendo, ficou muito emocionado”, recorda Vandré, um dos sócios do Mistura Gastrobar, em Tires.

Karaokê: momento de acolhimento na casa do empresário Vandré Silva (a esqueda). Crédito: Acervo pessoal.

Aquela noite foi também um momento de acolhimento para ele e a esposa, Michele, que passariam o primeiro Natal sem o pai dela, falecido. “Seria uma data muito triste, mas a casa cheia ajudou a aliviar a dor”, conta Vandré.

O empresário também convidou funcionários de um bar que costumava frequentar, sabendo que passariam a noite sozinhos. “Eles precisavam de companhia, de afeto. E nós também. Foi uma grande celebração, com muitos brasileiros que antes eram apenas conhecidos e, naquela noite, viraram amigos e família. Criamos laços que ficaram. E este ano, com certeza, tem mais”.

Essa reportagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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Fernanda Baldioti
fernanda@revistaentrerios.pt
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