Entrevista

Neguinho da Beija-Flor fala sobre nova roda de samba em Lisboa e avalia os 50 anos de carreira

Em entrevista exclusiva à EntreRios, o cantor diz que projeto também passará por outros países da Europa

Abril 11, 2026

Neguinho da Beija-Flor. Crédito: Cícero Rodrigues
Neguinho da Beija-Flor. Crédito: Cícero Rodrigues

Poucas vozes são capazes de atravessar gerações e serem imediatamente identificadas. O sambista Neguinho da Beija-Flor, um dos símbolos culturais mais fortes da música popular brasileira, é um desses cantores. Basta um verso entoado para que milhões de pessoas reconheçam quem está atrás do microfone. Parte da memória afetiva do carnaval carioca, onde permaneceu por 50 anos na escola que lhe deu o apelido, ele agora inicia um outro ciclo. Em entrevista exclusiva à EntreRios, dá detalhes da Roda de samba Neguinho da Beija-Flor e convidados, que estreou no início de março no Lisboa Ao Vivo (LAV), projeto que levará a outros países da Europa.

“O foco, agora, é Portugal”, avisa o cantor que receberá diferentes artistas, mensalmente. O primeiro foi Moacyr Luz,sambista do primeiro time brasileiro, com participação especial de Vando Oliveira, sobrinho de Neguinho que mora há 26 anos na Alemanha. “Minha passagem de microfone para a nova geração é, também, para ver se ainda há tempo de realizar outro sonho: levar o samba para outros países”, diz, na flor dos 76 anos bem vividos.

O cantor adianta para a EntreRios alguns nomes que estarão no LAV nos próximos meses: Quinzinho, a voz do histórico samba-enredo Bumbum paticumbum prugurundum, Wantuir (de Oliveira Tavares), Nêgo (Edson Feliciano Marcondes, irmão de Neguinho) e Bruno Ribas. “Vou levar, primeiro, os grandes intérpretes da velha guarda, os da minha época”, revela.

O evento reúne os principais sucessos do sambista, autor de 36 álbuns musicais, além de canções de seu recente projeto, Empretecendo, primeira produção musical de Xande de Pilares. A Roda marca um novo momento na trajetória dele e consolida Lisboa como palco do encontro entre o samba brasileiro e o público europeu.

Neguinho da Beija-Flor. Crédito: Cícero Rodrigues
Neguinho da Beija-Flor. Crédito: Cícero Rodrigues

A ligação com Portugal inclui uma residência em Vila Nova de Gaia e muitos fãs. “Certa vez, um casal de portugueses me parou na rua, pediu para fazer uma foto e mostrou que conhecia minhas músicas. Perguntei quantas vezes eles tinham ido ao Brasil. Responderam: nenhuma”, conta, positivamente surpreso. “Lisboa sempre me recebeu com muito carinho, então, transformar isso em um encontro mensal é uma alegria enorme”.

O início

Neguinho da Beija-Flor nasceu Luiz Antônio Feliciano Marcondes e cresceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Filho de Benedito, padeiro, e de Benedita, diarista, ele ganhou o apelido de Neguinho da Vala, ainda criança, porque caçava rãs e peixes pequenos em um brejo perto de casa. A situação melhorou quando, aos 16 anos, conseguiu um emprego de bombeiro na Aeronáutica e passou a ajudar no orçamento doméstico.

Dois anos depois, entretanto, deu baixa na carteira de trabalho para tentar sobreviver como cantor. Quando o senhor Benedito soube, ficou furioso, brigaram, e ele saiu de casa em busca de outra moradia. Como a grana era curta, muito curta, curtíssima, só conseguiu alugar um chiqueiro de porco. Isso mesmo: o animal iria passar dessa para uma farta feijoada, e o jovem sem teto ocupou o lugar, que chamaria de ‘minha casa’ pelos três anos seguintes (leia mais abaixo).

Neguinho no início da carreira. Crédito: Acervo pessoal
Neguinho no início da carreira. Crédito: Acervo pessoal

Com o apelido de Neguinho da Vala e morando em um chiqueiro, os prognósticos futuros não pareciam nada bons. Mas aconteceu o contrário. Foi nesse precário endereço que escreveu o samba-enredo Sonhar com rei dá leão, com o qual estreou no Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis e levou a agremiação à sua primeira vitória no carnaval carioca, em 1975. Em meio século de Beija-Flor, venceu 15 campeonatos, foi vice em 13, terceiro colocado em seis e recebeu 32 prêmios.

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A maior consagração talvez tenha sido o bordão que resiste ao tempo: “Olha a Beija-Flor aí, geeeeente!”. O que poucos sabem é que esse grito de guerra nasceu de um equívoco. “Eu tinha um pagode com uma música cujo refrão era: ‘Olha o camburão aí, gente!’. Certa vez, estávamos no estúdio para gravar um samba-enredo quando o Lourival Reis, produtor e compositor, me anunciou assim: ‘Olha o Beija-Flor aí, gente!’. A brincadeira acabou entrando na gravação do LP (Long Play de vinil) por engano, e não foi possível recolher os discos”. Assim nasceu o grito de guerra famoso no mundo.

A outra marca de Neguinho é o sorriso — que chegou a virar cláusula de um contrato assinado com a gravadora CBS Records. O CEO Tomás Munhoz disse que, se o artista desse entrevista e aparecesse em fotos sem sorrir, o acordo seria automaticamente desfeito. E explicou: “Quem está te contratando como cantor é o diretor da gravadora; eu estou contratando o seu sorriso” (leia box).

Não por isso, garante Neguinho, é praticamente impossível encontrar uma imagem dele na qual não esteja sorrindo. “Vou ao dentista de dois em dois meses”. A dentição perfeita se mantém pronta para ser mostrada no largo sorriso. Largo, quanto? Ele não sabia. EntreRios pediu permissão para medir o arco da boca e saber o quão próximo o cantor está da popular expressão ‘sorriso de orelha a orelha’, que indica extrema alegria.

Neguinho e Elaine Reis, casados desde 2029. Crédito: Arquivo pessoal
Neguinho e Elaine Reis, casados desde 2029. Crédito: Arquivo pessoal

Ele não só concordou como adorou a ideia e deu uma sonora gargalhada. “Tenho 76 anos e nunca alguém teve essa ideia, meu Deus do céu! Muito interessante!”. Chamou a mulher, Elaine Reis, e disse: “Sabe o que a jornalista fez? Trouxe uma fita métrica e álcool em gel para higienizar a fita e medir o tamanho do meu sorriso! Nunca imaginei isso, geeeente!”.

Elaine aceitou o convite para ser a avaliadora oficial, estendeu a fita sobre todo o arco do sorriso e mostrou o resultado: 13 centímetros. Neguinho, eufórico, comemorou o que chamou de novidadíssima e pediu os registros para documentar em seus arquivos.

O sorriso não desapareceu do semblante nem quando ele enfrentou um grave câncer de intestino, a partir de 2008. Eram dois tumores “no estágio 3 entrando no 4”, o indicativo de metástase — que ele não chegou a ter. “Um tinha o tamanho de uma moela de galinha e, o outro, o de uma azeitona”, comparou.

Após fazer 56 sessões de radioterapia, 12 de quimioterapia e uma cirurgia que retirou 70 centímetros do intestino, ele começou a acreditar que os planos de Deus para sua vida não terminariam ali. Como explicar a cura em um quadro desses? “Fé”, garante ele. “Tinha dias aqui em casa que saía o pai de santo e chegava a igreja evangélica, saía um budista e entrava a igreja católica. Nossa Senhora da Aparecida e São Pedro, meus santos protetores, sempre comigo”. Após a cirurgia, em 2009, o médico disse: “Se agarre na fé”.

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A dica deixou-o apavorado: “Já pensou, o médico que te operou dizer para você se agarrar na fé?”, comenta, rindo. “Naquela altura dos acontecimentos, eu era católico, macumbeiro, evangélico. Eu só não queria ir embora então”. Além de Neguinho amar a vida, havia uma motivação extra: Elaine estava grávida, e a caçula, Luiza, nasceria dois meses depois da cirurgia.

Para quem já tinha perdido um neto, Gabriel, aos 20 anos, vítima de bala perdida em Nova Iguaçu, e teve um filho baleado em frente à Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, onde estudava Odontologia, imbuir-se de força para superar as rasteiras da vida já era uma obrigação. Felizmente, Luiz Antônio Marcondes Junior — um dos cinco filhos, então com 19 anos — recuperou-se bem. O tiroteio era mais um confronto entre a polícia e bandidos, infelizmente tão comum no Rio.

Neguinho da Beija-Flor é superação, alegria, ícone de celebrações populares, além de embaixador informal da cultura brasileira. Não importa o que aconteça, ele sempre volta à tona com sua inconfundível voz e o sorriso, marcas que se tornaram anúncio de festa, resistência e exemplo de como a vida pode ser divertida, apesar dos percalços.

De Neguinho da Vala a Neguinho da Beija-Flor

Ainda menino, a diversão “da molecada do bairro sem luz e saneamento” era um brejo, em Nova Iguaçu. “Um dia, começou a chover muito forte e a vizinha, Dona Tonaia, mandou a gente sair dali porque a água atrai raios. Todos foram, menos eu. Ela não sabia meu nome e gritou: “Sai daí, neguinho, da vala!”. Não gostei do apelido, mas vocês sabem, né? Quando a gente não gosta é que pega”. Porém, aos 25 anos, após a estreia na Beija-Flor de Nilópolis, um dos doadores da escola e fiscal de renda, Mirinho, chamou a atenção para o apelido: “Poxa, o garoto que fez o samba que levou a escola a ser campeã com o nome de Neguinho da Vala? Não dá, né? Vamos tirar esse “da Vala” e botar “da Beija-Flor”? Todos concordaram. Ninguém sabia, ainda, que o novo apelido seria adotado oficialmente no nome do cantor, cuja certidão de nascimento passou a registrar Luiz Antônio Feliciano Neguinho da Beija-Flor Marcondes.

Um chiqueiro de porco como casa

“Depois da briga com meu pai, saí de casa, e meu irmão, Nêgo, foi junto. Mas não encontrávamos um lugar barato para morar. Indicaram me uma senhora chamada Joana, dona de uma tendinha de candomblé. Ela me falou: “Olha, tô criando um porco num cômodo e vou matá-lo no domingo. Se quiser ficar lá, pode vir. Vê aí quanto pode me dar de aluguel”.

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Às 6h, Neguinho e Nêgo já estavam no endereço, munidos “com creolina, desinfetando tudo”. Não tinha janela, mas a proprietária deixou abrir um basculante. “Um dia, o divulgador da Beija-Flor me deu uma carona de carro e ficou chocado ao ver que eu morava num chiqueiro. Falou: ‘Junta tudo, pois amanhã vou mandar um carro te buscar’. Eu só tinha uma esteira e um fogão jacaré (fogareiro portátil a querosene). Ele me levou para um apartamento com quarto, sala, cozinha e banheiro em Nilópolis. Um palacete! Morei lá por 13 anos”.

O tamanho do sorriso

Elaine, mulher de Neguinho, aceitou o convite da EntreRios para ser a avaliadora oficial, estendeu a fita sobre todo o arco do sorriso e mostrou o resultado: 13 centímetros. Neguinho, eufórico, comemorou o que chamou de novidadíssima e pediu os registros para documentar em seus arquivos. A régua acima reproduz o tamanho real do sorriso de Neguinho.

Neguinho. Crédito: Cícero Rodrigues
Neguinho tem 13cm de sorriso. Crédito: Cícero Rodrigues

A cláusula do sorriso

“Houve interesse da gravadora CBS em me contratar. Fui assinar o contrato, e o CEO, Tomás Munhoz, disse que não havia tido tempo de conhecer a minha voz e as composições, mas tinha uma proposta. ‘É o seguinte: só vou permitir o contrato se incluir uma cláusula dizendo que no dia em que você for a um programa de TV, dar entrevista ou posar para foto sem sorrir, o contrato estará desfeito’. Quem está te contratando como cantor é o diretor; eu estou contratando o seu sorriso”.

Neguinho em números

  • 50 anos como cantor, compositor e puxador de samba da Beija-Flor
  • Venceu 15 campeonatos
  • Foi vice-campeão em 13
  • Ganhou 32 prêmios 
  • Foi a voz principal em 40 desfiles
  • Tem 36 álbuns gravados

eliane@revistaentrerios.pt

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