Nelson Marques revela o lado invisível dos grandes cozinheiros em “Chefs Sem Reservas”
Na edição revista e ampliada, o jornalista expõe vulnerabilidades, memórias e fracassos que definem 15 nomes da alta cozinha
- Lisboa
Novembro 17, 2025
A nova edição de Chefs Sem Reservas, lançada este ano, recupera e expande o primeiro volume da coleção que se tornou referência na literatura gastronómica. Nelson Marques inclui agora cinco novos chefs, corrigindo aquilo que chama de “uma falha” da edição original: a ausência de mulheres.
O livro reúne nomes como Anthony Bourdain, Alain Ducasse, Massimo Bottura, Alex Atala, Janaína Torres, José Avillez, Nuno Mendes e outros, num retrato íntimo da alta-cozinha. “Quais as receitas do sucesso? Que obstáculos tiveram de ultrapassar? Quanto vale o talento?”, questiona o próprio autor, que mergulha nas histórias de vida por trás das estrelas Michelin.
Durante a entrevista, Marques revive um dos momentos mais marcantes da sua carreira: o dia que passou com Massimo Bottura, em Itália. A conversa começou na casa de campo do chef, renomado por duas três estrelas Michelin, e atravessou um almoço improvisado, um passeio de carro e até um episódio embaraçoso: “o telefone dele estava no meu bolso. Que vergonha. Pensei que era o meu”, lembra.
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Mas foi ali que percebeu a essência de Bottura: “O homem que telefona ao Obama (Barack) e ao Papa nunca deixa de ser o pai do Charlie”.
Para Marques, foi este lado profundamente humano que inspira projetos como a escola criada por Bottura para crianças com dificuldades cognitivas que o convenceu de que as grandes histórias da gastronomia acontecem fora das cozinhas.

O escritor, que construiu uma carreira internacional e entrevistou figuras como Al Gore, Anthony Bourdain e Katy Perry, confirma que a coleção Chefs Sem Reservas ainda tem muito para crescer: “Acho que vai haver um quarto livro. Haja saúde”.
E explica que sempre tentou alternar temas para não ficar “preso na caixinha da gastronomia”, publicando obras sobre masculinidade, liderança ou grandes empresários. Porém, admite que continua fascinado pelas histórias de vulnerabilidade, queda e superação que encontra entre chefs portugueses e internacionais.
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Em tom franco, Marques também reflete sobre a própria vida pessoal, a relação com a ideia de paternidade, a dificuldade contemporânea em construir vínculos e o que chama de “paradoxo da abundância” das apps de relacionamento:
“As pessoas hoje investem muito menos numa relação do que antes”, afirma.
Entre humor e honestidade, assume que ainda procura compreender o que realmente deseja: “Às vezes a minha psicóloga pergunta se eu quero ter uma relação. Eu não sei responder”. Depois sorri, consciente de que a busca por autenticidade — nos chefs, nos livros ou no amor — talvez seja o fio que une todas as histórias que decide contar.
