No Brasil, extremos só na política
Seleção que já teve laterais capitães e campeões do mundo chega à Copa improvisando justamente em uma de suas posições mais simbólicas
- Brasil
Junho 9, 2026
Na política, o Brasil passou os últimos anos discutindo os extremos. Direita e esquerda ocuparam o centro do debate público e transformaram a polarização em uma das marcas recentes do País desde a eleição de Bolsonaro em 2018. No futebol, porém, aconteceu o inverso. Enquanto o País foi para os extremos ideológicos, a Seleção Brasileira há tempos deixou de ter seus extremos em qualidade e quantidade.
Poucas posições simbolizam tanto a identidade do futebol brasileiro quanto as laterais. Durante décadas, o Brasil ensinou ao mundo que um lateral não precisava apenas marcar. Precisava jogar. Atacar. Criar. Decidir partidas.
Não por acaso, tivemos dois laterais levantando a taça da Copa do Mundo como capitães. Primeiro, Carlos Alberto Torres, em 1970. Depois, Cafu, em 2002. Dois jogadores que não apenas ocupavam a posição, mas ajudavam a definir a forma como a Seleção jogava. Antes deles, tivemos dois ícones que estavam entre os melhores do mundo em qualquer posição: Djalma Santos e o gênio Nílton Santos.
E a função ainda contou com dignos representantes como Marinho Chagas, Leandro, Júnior, Branco, Jorginho, Leonardo, Roberto Carlos, Daniel Alves e Marcelo. Hoje, a realidade é outra.
A convocação para a Copa do Mundo de 2026 escancarou um problema que se agravou na última década. O Brasil simplesmente deixou de revelar laterais de nível internacional como produzia no passado.
O último grande lateral brasileiro capaz de influenciar partidas ofensivamente foi Marcelo. Desde então, a posição, seja na esquerda ou na direita, virou um exercício permanente de adaptação.
A situação chegou a um ponto crítico neste Mundial. Os dois laterais com que Carlo Ancelotti esperava contar acabaram fora da Copa. Wesley, que vivia o melhor momento da carreira, foi cortado da Seleção após a lesão sofrida no último sábado, no amistoso contra o Egito. Éder Militão, que vinha se firmando na função, se lesionou atuando pelo Real Madrid e sequer foi convocado. O resultado foi uma sucessão de improvisos que ajuda a explicar o tamanho do problema.
Veterano com duas Copas nas costas, Danilo voltou a ser solução emergencial. Nada contra o jogador, cuja carreira merece respeito. Mas o fato é que ele já não atua prioritariamente como lateral há bastante tempo. Nos últimos anos, passou a jogar frequentemente como zagueiro, tanto em clubes quanto na própria Seleção. Ainda assim, precisou ser resgatado para uma função que o futebol brasileiro já produziu em abundância.
Como se não bastasse, a nova emergência levou Ancelotti a recorrer a Ibañez para a lateral. Um zagueiro de origem ocupando um setor que, durante décadas, foi uma das maiores fontes de talento do futebol brasileiro.
A imagem é quase perfeita para ilustrar o momento atual. Um País que revelou tantos talentos nas laterais chega a uma Copa do Mundo sem conseguir encontrar um de confiança nos extremos do campo.
As razões são muitas. O futebol mudou. Os sistemas táticos mudaram. Os laterais passaram a ter exigências físicas cada vez maiores. As categorias de base passaram a priorizar formar outros perfis e posições. Mas nenhuma dessas explicações elimina o fato central. O Brasil deixou de ser referência mundial em uma posição que ajudou a construir sua própria identidade futebolística.
Talvez o problema das laterais não decida sozinho uma Copa do Mundo. Mas ele é um retrato inquietante do momento da Seleção e do próprio futebol brasileiro. Ainda produzimos grandes atacantes. Ainda revelamos bons zagueiros e meio-campistas. Mas algumas tradições foram ficando pelo caminho. Enquanto o País foi para os extremos na política, o futebol brasileiro ficou capenga pelos lados.