O algoritmo controla você? Teatro imersivo provoca o público
Miguel Thiré estreia em Lisboa um espetáculo imersivo que convida o público a desligar o telemóvel
- Lisboa
Janeiro 20, 2026
Transformar algo abstrato como os algoritmos numa experiência teatral foi, segundo Miguel Thiré, um desafio que nasceu da sua própria pesquisa artística. “Eu trabalho já há alguns anos com a técnica dos Jogos de Escuta, que são uma dinâmica de improviso e de troca muito potente, não só para criar dramaturgia, mas para fazer o público deixar de ser espectador e virar agente”, explica o encenador e dramaturgo. A vontade de criar mais um trabalho imersivo o levou a juntar forças com Michel Simeão, resultando num formato inédito que investiga a manipulação algorítmica como experiência física e espacial.
Em O Algoritmo, o público é gradualmente integrado numa lógica semelhante a dos sistemas digitais:
“Nós somos manipulados por essa máquina que escolhe por nós, que nos oferece exatamente o que queremos ver e acaba guiando-nos para caminhos que muitas vezes não controlamos”, afirma Thiré.

A experiência começa de forma aparentemente simples, quase como um talk show, até que a plateia percebe que está validando um sistema de escolhas. “Há uma surpresa num certo momento e, a partir daí, tudo muda”, adianta, sem revelar detalhes. Para viver plenamente o espetáculo, o encenador deixa um aviso claro. “É muito importante ir disposto a desligar o telemóvel e participar desse jogo”.
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A transformação que o espetáculo propõe vai além da encenação. Thiré destaca que a experiência procura confrontar o impacto real dos algoritmos no comportamento humano. “Quando o algoritmo só nos mostra o que queremos ver, o nosso universo fica mais limitado e tornamo-nos mais intolerantes ao que é diferente”, observa. Em oposição a essa lógica, O Algoritmo aposta numa vivência direta, relacional e humana:
“O que buscamos é romper com isso e apresentar outra maneira de nos comportarmos dentro de nós mesmos e com o outro”, resume.

Os Jogos de Escuta são a base dessa relação radical entre atores e público. “O público é um personagem da trama. Ele descobre que não é só sobre assistir, mas sobre participar, interagir e atravessar o que está a acontecer”, diz Thiré. A técnica afasta a ideia do espectador como voyeur e coloca-o no centro da ação. “Já tivemos situações em que uma interação em cena gerou um encontro real depois do espetáculo. Isso mostra o poder desses jogos quando as pessoas estão presentes, sem o telemóvel, olho no olho”, conta. Para o criador, é aí que o teatro imersivo atinge outra dimensão:
“Não é só estar dentro do cenário, é fazer parte viva da trama e reconstruir, juntos, um caminho de humanidade”.
O Algoritmo – Uma Experiência Teatral Imersiva tem curta temporada em Lisboa, de 22 de janeiro a 22 de fevereiro de 2026, com apresentações às quintas, sextas e sábados, às 21h, e aos domingos, às 18h no Lisboa Unicorn Factory. O espetáculo tem duração de 90 minutos, classificação etária de 16 anos. Os bilhetes custam 22 euros, com descontos disponíveis para grupos e público sênior.