O autocarro, ou busão lisboeta, é melhor
No Brasil, é sinônimo de desconforto e perigo. Em Portugal, é de de paz, livre de riscos de assalto e dos altos decibéis de pregações
- Lisboa
Abril 3, 2026
Você sabe que está virando um lisboeta ‘da gema’ quando, em vez do metrô — ou metro, como se diz aqui —, acaba por eleger o ônibus como opção de transporte público para o vaivém no dia a dia. Na versão do português lusitano, ônibus é sinônimo de autocarro. No Brasil, é sinônimo de desconforto e perigo.
O busão de Portugal é de paz, livre de riscos de assalto e dos altos decibéis de pregações. Raramente anda lotado, e dá para ir sentado e quietinho na maioria das vezes, o que leva a pensar que, se dependesse da expertise em espremer algo num recipiente, quem deveria mesmo ter inventado a sardinha em lata era o brasileiro.
Graças à intervenção de um santo qualquer, costuma ser pontual, independentemente do tráfego. Por um aplicativo, é possível saber a hora exata em que vai passar na parada — ou paragem. O autocarro também é a melhor maneira de aprender como andar pela cidade, e por um motivo bem simples: segue pela superfície, fazendo a cidade surgir diante dos seus olhos. E, como o metrô viaja embaixo da terra, o ônibus te leva a perceber que aquela distância entre duas ou três paradas de trem é bem mais próxima do que se imagina, e poderia muito bem ser cumprida até a pé e de graça.
Ou que o mirabolante sobe e desce de escadas ao trocar de linhas era perfeitamente dispensável se tivesse optado por uma pacífica viagem direta de ônibus. Também é o lugar ideal para testemunhar um dos esportes preferidos do português: a discussão interminável. Basta perguntar: “Senhor, esta é a parada de Saldanha?”, para dois ou três passageiros entrarem na conversa sem serem chamados, e aí começar um debate acalorado sobre “sim, é Saldanha”, “não, é Estefânia”, “que Estefânia que nada, é Anjos”.
Você desce sem saber onde, afinal, está, e o ônibus segue com os três batendo boca até a Torre de Belém. Dizem que o ônibus também é bom para a paquera, embora eu ainda não tenha tido a sorte de embarcar num deles com essa vocação. O mais perto que cheguei foi, um dia, uma rapariga me encarar descaradamente. A moça acenou com a mão e pensei: finalmente me dei bem. Mas que nada: o que ela queria mesmo era, educadamente, oferecer o assento que eu me sentasse.
A idade não perdoa, mesmo. Tanto que aceitei.
Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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