O Brasil e a maldição do quinto jogo
Da Itália de Paolo Rossi à Noruega de Haaland, o Brasil voltou a cair justamente na partida mais fatídica de sua história recente nas Copas
- Brasil
Julho 6, 2026
Os adversários mudam, os países também, os craques se renovam e os treinadores passam. Mas há uma situação que insiste em se repetir na história recente da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo: o fatídico quinto jogo.
A derrota ontem por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final desta Copa do Mundo, não foi apenas mais uma eliminação brasileira. Foi a confirmação de uma coincidência que, de tanto se repetir, já ganhou ares de maldição. Desde 1982, é justamente a quinta partida que mais interrompe os sonhos brasileiros em Mundiais.
O novo formato da Copa, com 48 seleções, apenas antecipou esse encontro. Antes, o quinto jogo costumava ser uma quarta de final. Com a ampliação do número de seleções, passou a ser disputado nas oitavas. Mudou o regulamento. Mas o trágico roteiro se manteve.
O curioso é que o Brasil quase sempre chega bem até essa fase da disputa. Raramente faz campanhas desastrosas ou cai precocemente. Pelo contrário. Normalmente confirma o favoritismo na fase inicial e na primeira eliminatória. Mas aí surge ela: a temível quinta partida.
Foi assim em 1982. Bastava um empate diante da Itália para a seleção de Telê Santana, considerada por muitos a melhor equipe brasileira que nunca conquistou uma Copa, se classificar às semifinais na Espanha, onde enfrentaria a Polônia. Mas o improvável aconteceu e Paolo Rossi marcou três vezes, transformando o Sarriá em um dos maiores traumas da história do futebol brasileiro, 90 minutos que nos assombram até hoje.
Em 1986, no México, outra grande decepção, dessa vez contra a França de Platini. Depois de um empate eletrizante, com direito a um pênalti perdido por Zico, o maior craque daquela geração, a eliminação veio nos pênaltis, em uma das partidas mais dramáticas da história dos Mundiais. E a “coincidência” é que o técnico era o mesmo de 82: Telê Santana.
Vinte anos depois, em 2006, Zidane, outro gênio francês, deu uma master class de futebol em Frankfurt. A geração de Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Adriano, a última grande do nosso futebol e apontada como favorita ao título, foi dominada por um craque que fazia sua última dança em Copas.
Na África do Sul, em 2010, a eterna vice-campeã Holanda virou um jogo que parecia controlado. Em 2018, a Bélgica e sua geração eterna promessa mostraram toda sua eficiência e eliminaram o Brasil nas quartas de final. Em 2022, a Croácia empatou uma partida praticamente perdida e depois venceu nos pênaltis sem que Neymar, nosso último grande craque, tivesse a chance de fazer a sua cobrança.
E ontem chegou a vez da Noruega do gigante viking Erling Haaland.
Uma eliminação que aconteceu quando a Seleção começava a ganhar corpo e animar a massa, mas que sucumbiu à maior organização, disciplina e à eficiência de um artilheiro mortal na área.
Foi o fim de uma jornada que começou errática e terminou catastrófica. E o adeus de jogadores que em poucos anos ficarão tão esquecidos quanto a dança do Créu que a torcida criou para se contrapor à sensacional remada norueguesa. Mas quem remou de volta para casa foi o Brasil. Em 2030, o escrete canarinho entrará em campo igualando seu maior jejum de títulos na história dos Mundiais: os 28 anos entre a Copa do Uruguai, em 1930, e a Suécia, em 1958.
Toda geração brasileira cresce acreditando que a próxima Copa será a do Hexa. Mas, antes de pensar na final, a Seleção precisará exorcizar a maldição do quinto jogo, um fantasma que teima em assombrar o sonho da sexta estrela.