Esporte

O chilique de João Fonseca e a falta de educação da torcida brasileira

Baderna do torcedor atrapalha o jovem tenista do Brasil, que anda irritado com sua própria instabilidade

Maio 14, 2026

João Fonseca. Crédito: Reprodução Instagram
João Fonseca. Crédito: Reprodução Instagram

Aos 19 anos, João Fonseca, um dos principais nomes da nova geração do tênis mundial, já ganhou elogios de Djokovic, Federer e Nadal. O sucesso do carioca subiu à cabeça da torcida brasileira, que levou para o Masters 1000 de Roma, no último dia 9, tudo o que aprendeu nos estádios de futebol: barulho, xingamento, provocação – um conjunto que dá a dimensão do despreparo de um povo não talhado para o tênis, esporte com raízes na França medieval, praticado pelos nobres europeus e lapidado pelos ingleses. Foi tão feio que até João Fonseca criticou os baderneiros, em entrevista de repercussão internacional.

Mas também não foi bonito ver o tenista brasileiro reclamando veementemente com o árbitro da partida. Assim como não foi bonito vê-lo, duas semanas antes, destruir, em Madri, sua raquete vermelha Yonex VCORE 98, que, por sinal, custa uns 500 euros no varejo. Após um erro, usou-a para golpear três vezes, violentamente, o saibro da quadra. Arrancou risinhos de quem torcia contra – uma plateia mais educada do que a brasileira, mas cruel como qualquer outra.  João não se encontrou mais no jogo. “Bem feito”, lhe diria, se possível, a raquete, deformada e abandonada no chão. Como não sou especialista em tênis nem em psicologia, provoquei um amigo, o jornalista Renato Maurício Prado, conhecedor e praticante do esporte: “O que está acontecendo com João Fonseca? E com a torcida brasileira?”

A resposta, de certa forma, acalma o coração: “O João está numa fase de transição. Ele apareceu e encantou o mundo todo do tênis”, lembra Renato, acrescentando: “O forehand dele, uma das maiores velocidades do circuito, era devastador. Só que, por exagerar nesse golpe, ele começou a perder alguns jogos, passou a errar muitas bolas. Então, ele passou a trocar mais bola. Mas essa característica de trocar mais bola fez seu jogo perder o encanto. Por isso, a irritação. O único tenista que eu nunca vi quebrar uma raquete foi o Rafael Nadal. O próprio Federer, no início, quebrava a raquete também”. Renato poupa o tenista, mas demonstra preocupação com a conduta da torcida: “É um pessoal que não é acostumado ao tênis, mas que passou a ir aos jogos por causa do João Fonseca.  Os caras estão gritando em hora que não é pra gritar. A torcida brasileira está começando a ser vista como uma torcida baderneira”, completa.

Não duvido que seja mais provável João Fonseca reencontrar seu jogo do que a torcida brasileira aprender a torcer por ele de forma educada. Uma pena esse meu pessimismo em relação aos apoiadores do tenista. Essa algazarra provocada em um ambiente de concentração extrema apenas aumenta a pressão sobre o jovem que pela primeira vez na carreira será um dos 32 cabeças de chave em Roland Garros, segundo Grand Slam da temporada, a partir do próximo dia 24, em Paris. O jornalista Renato Maurício Prado recomenda muita calma com o tenista: “João vai voltar a jogar bem. Ele está fadado a ser um grande tenista. Ele é muito mais talentoso, por exemplo, do que era o Guga, na mesma idade. É preciso ter calma, mas você sabe como é o brasileiro, né?”

Devo me incluir entre os brasileiros apressados e ansiosos, mas só aceito que me comparem àqueles que torcem com educação. E retiro aqui, enfim, o julgamento que fiz quando vi João Fonseca, raivoso, destruir sua raquete. Alguém com 19 anos de idade que busca o rótulo de jovem mais promissor do tênis mundial tem o direito, sim, de perder o controle e dar um chilique na quadra. Só falta mesmo a torcida brasileira aprender que sua relevância não é medida pelo barulho que faz, mas pela elegância com que consegue desempenhar o papel de fã, sem infringir o bom senso e a ética esportiva. A partir de domingo (17/5), a bolinha felpuda “quica” na Alemanha, no ATP 500 de Hamburgo. Que João possa sentir orgulho de sua torcida. E vice-versa.

Marluci Martins. Crédito: Divulgação