O inesperado sucesso do repolho: da panela para a decoração
Vegetal impulsiona receitas, inspira designers e vira símbolo de uma estética mais afetiva
- Lisboa
Junho 19, 2026
Por décadas, o repolho ocupou um lugar ingrato, sendo tratado como ingrediente de segunda classe e associado a comida barata, à monotonia alimentar e até à punição. Em alguns estados norte-americanos, chegou a ser utilizado como castigo em prisões, como parte do chamado nutraloaf, uma mistura densa de alimentos conhecida pelo gosto ruim. Em 2026, esse roteiro começa a mudar.
Assim como aconteceu com a couve e o chuchu anos atrás, o repolho vive um reposicionamento de imagem significativo: sai da margem e passa a ocupar o centro da mesa e, surpreendentemente, também da estética contemporânea. Segundo o relatório Pinterest Predicts 2026, uma conceituada análise anual de tendências, entre setembro de 2024 e agosto de 2025, as buscas por receitas com o ingrediente cresceram de forma consistente: guioza de repolho teve aumento de 110%; repolho ao molho Alfredo cresceu 45%; enquanto versões fermentadas como chucrute e kimchi avançaram 35%. O relatório aponta três eixos que ajudam a explicar o interesse crescente: a busca por conforto emocional e nostalgia, a valorização da saúde e o retorno a experiências sensoriais mais autênticas e práticas. “O repolho tem molho, mesmo quando a receita não tem”, diz o documento.

“É um ingrediente que carrega memória. No Brasil, está presente desde o acompanhamento para churrasco a refogados e conservas. É um produto transversal, que atravessa regiões e contextos sociais”, afirma a chef Ana Carolina Miranda, formadora e coordenadora dos cursos de cozinha na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril. Esse olhar reflete uma transformação mais ampla na gastronomia contemporânea, com maior atenção aos vegetais, à sazonalidade e ao aproveitamento integral dos ingredientes. “Não acredito que a alta cozinha dependa de produtos raros ou caros, mas da maneira como olhamos para o que temos”, completa.
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Um dos maiores nomes da gastronomia portuguesa, Justa Nobre explica que, em Portugal, o repolho é conhecido com outro nome: couve-lombarda. E assume o protagonismo em tempos de grelos caros ou escassos. “O nosso cozido é feito com as variedades de couve que houver. O repolho nunca sai de moda”, resume.

No restaurante Wurst, no Mercado de São Bento, o repolho fermentado é parte essencial da identidade. “Na Áustria e na Alemanha, conservar o repolho por fermentação sempre foi uma maneira de atravessar o inverno”, explica Mariana Zagonel, uma das sócias da casa. O chucrute carrega memória, técnica e identidade. Para o público brasileiro, ainda há alguma resistência ao sabor fermentado. “Muitas pessoas se surpreendem positivamente quando experimentam”, conta Mariana.
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Mas a valorização do repolho não se limita à cozinha. O vegetal passou a ocupar espaço no design, na fotografia e na decoração. A estética apelidada de Cabbage Couture ou Cabbage Crush incorpora elementos naturais e retrô em objetos, louças e ambientações. Um exemplo simbólico está na Bordallo Pinheiro, cuja coleção de louças inspiradas na couve-lombarda se tornou um ícone que atravessa gerações. O próprio texto institucional da marca destaca a ironia das propostas: um elemento associado à rusticidade é elevado ao centro da mesa, ganhando novo significado.

Na Mercearia Pachecas, em Lisboa, o repolho aparece estampado na louça. Para Vera Bleck, sócia do espaço, há uma tendência clara de valorização do que é local. “Os vegetais estão muito em evidência. Existe esse desejo de resgatar referências bem portuguesas e trazer mais identidade para a mesa. Os próprios pratos passam a ter vida, a ser bonitos, a contar uma história; deixam de ser apenas peças básicas e ganham protagonismo”, explica.
O repolho que virou obra de arte

Em Taiwan, uma escultura em jadeíta em forma de repolho, com menos de 20 centímetros, atrai diariamente filas de visitantes ao Museu Nacional do Palácio, em Taipei. O objeto teria sido esculpido no final do século XIX. Hoje, além da exposição permanente, inspira réplicas e produtos comercializados como lembranças em diferentes regiões da ilha.
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