O país onde Papai Noel não existe
Entre trolls, gatos gigantes e rapazes travessos, o Natal islandês mistura folclore nórdico, humor sombrio, livros, comida típica e rituais ancestrais
- Lisboa
Dezembro 24, 2025
Esqueça o bom velhinho barbudo e suas “renas voadoras”. Na Islândia, outras figuras assumem o lugar dele: os Yule Lads, ou, em tradução livre, os “rapazes do Natal”. São travessos, engraçados e um tanto imprevisíveis — e substituem o tradicional Papai Noel nas celebrações.
Segundo o folclore, eles descem das montanhas geladas treze dias antes do Natal para visitar as casas das crianças. A cada noite, um novo visitante e, com ele, uma surpresa: quem se comportou bem ganha um presente dentro do sapato deixado na janela; quem não foi tão bonzinho assim acorda com… uma batata.
Na capital da Islândia, Reykjavik, as ruas aparentemente vazias podem surpreender a qualquer momento com seres mitológicos representando as tradições locais.
A história é antiga, passada de geração em geração, e os treze Yule Lads têm personalidades diferenciadas. Stekkjastaur, o primeiro a chegar, é desajeitado e tenta roubar o leite das ovelhas.
Depois vem Giljagaur, que se esconde nos currais à espera de leite fresco. Stúfur, o “baixinho”, adora surrupiar panelas de comida; Þvörusleikir lambe colheres de pau; Pottaskefill raspa o fundo das panelas; e Askasleikir se esconde debaixo das camas para pegar as tigelas esquecidas.
Há ainda Hurðaskellir, conhecido por bater portas durante a madrugada; Skyrgámur, obcecado por skyr (um tipo de iogurte); Bjúgnakrækir, o “ladrão de salsicha”; Gluggagægir e outros. No fim da festa, todos etornam para as montanhas, encerrando o ciclo no início de janeiro.

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Mas não são apenas os Yule Lads que protagonizam o Natal islandês. A mãe deles, Grýla, é uma troll temida porque captura crianças malcriadas.
E há o Jólakötturinn, o lendário “Gato de Natal”: um felino gigante que ronda a neve em busca de quem não ganhou roupas novas antes da ceia — quem fica sem presente, dizem, corre o risco de ser devorado.
É o tipo de história que mistura humor, medo e tradição, e mostra como o Natal na Islândia tem um lado sombrio e divertido ao mesmo tempo.

O país cultiva outra tradição única: o Jólabókaflóðið, que significa “inundação de livros de Natal”. A origem remonta à Segunda Guerra Mundial, quando importar presentes era difícil, e papel era um dos poucos produtos disponíveis.
Desde então, editoras lançam a maior parte dos títulos em novembro e dezembro, e os islandeses trocam livros na noite de Natal. O país tem uma das maiores taxas de leitura mundial per capita.

Na celebração à mesa, os pratos são típicos. Um dos símbolos fortes é o laufabrauð, o “pão-folha”, finíssimo e decorado com desenhos geométricos cortados à mão. A tradição é preparar o pão em família, fritá-lo e pendurá-lo nas janelas antes de servir.
Outro clássico é o hangikjöt, carne de cordeiro defumada servida com batatas, molho branco e couve roxa. Algumas famílias ainda servem rjúpa, ave selvagem tradicional nas ceias.

Em doces, o clima festivo se traduz em receitas típicas, como os smákökur, biscoitos amanteigados que ganham formas natalinas. Tudo é acompanhado, claro, de uma boa dose de chocolate quente ou de brennivín, o destilado local apelidado de “morte negra”, que ajuda a enfrentar o frio cortante.
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Dos vikings aos trolls
A Islândia foi originalmente povoada por vikings que praticavam crenças pagãs, adorando deuses como Odin, Thor, Freyr e Frigg. O paganismo ártico dominou até cerca do ano 1000, quando o parlamento islandês decidiu oficialmente adotar o cristianismo para manter a paz social e abrir vias de comércio e diplomacia.
Mesmo após a cristianização, muitos mitos, trolls, elfos e espíritos da natureza permaneceram vivos no imaginário — o que explica o vigor das lendas natalinas.

Atualmente, embora a maioria dos islandeses siga a religião luterana, há um crescimento dos que se identificam com a fé pagã moderna conhecida como Ásatrúarfélagið. Inspirada nas crenças nórdicas antigas, representa 1% da população e é a religião não cristã que mais cresce no país.
Essa reportagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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