ECONOMIA

O papel da força de trabalho estrangeira: sem imigrantes, pensões em Portugal ficariam em risco

O impacto silencioso dos trabalhadores estrangeiros nas contas públicas e os desafios de transformar contribuição em integração

Março 27, 2026

Brasileiros são os recordistas em contribuições à Segurança Social. Crédito: Divulgação.

Arthur Charles tinha acabado de chegar ao Porto quando percebeu que a experiência internacional que idealizara no Brasil ganharia contornos mais concretos — e mais burocráticos — do que imaginava. Aos 31 anos, o gestor de redes sociais deixou Manaus para fazer o mestrado em Ciências da Comunicação. Um mês depois, já estava empregado numa empresa portuguesa, com contrato assinado, recibo de vencimento e uma nova linha fixa no orçamento: o desconto para a Segurança Social.

Contribuindo de forma contínua desde 2023, Charles diz que a percepção sobre o sistema se tornou mais crítica com o passar do tempo. Afirma que nunca precisou recorrer a prestações como subsídio de desemprego ou de doença, mas que enfrenta dificuldades no acesso aos serviços de saúde públicos.

“Até hoje não tenho médico de família. Marcar uma consulta ou dar continuidade a um tratamento médico torna-se sempre um processo complicado. Para muitos imigrantes, essa é uma realidade constante, mesmo pagando todos os meses por esses direitos”, conta.

Arthur Charles. Crédito: Arquivo pessoal.

A sensação individual de distância entre contribuição e retorno convive, no entanto, com um quadro macroeconômico difícil de ignorar. Em 2025, os trabalhadores estrangeiros entregaram pouco mais de 4,1 bilhões de euros à entidade responsável pela previdência portuguesa.

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No mesmo período, receberam 811 milhões de euros em prestações sociais. O saldo — 3,2 bilhões de euros — foi descrito pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS) como amplamente positivo e representa um crescimento de 11% face ao ano anterior.

Em números absolutos, trata-se de uma das maiores injeções líquidas de receita no sistema previdenciário do país na última década. Em termos relativos, o contributo ajuda a amortecer uma pressão antiga: o envelhecimento acelerado da população. Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da União Europeia e apresenta uma taxa de dependência de idosos superior a 37%.

Traduzido em termos simples, significa que há cada vez menos trabalhadores no ativo para sustentar um número crescente de pensionistas. Atualmente, há cerca de 1,7 trabalhador no ativo para cada pessoa aposentada. Estudos atuariais indicam que o equilíbrio sustentável exigiria algo próximo de 2,5. A diferença pode parecer abstrata, mas é decisiva para a sustentabilidade futura das pensões.

É nesse intervalo que a imigração assume dimensão estrutural. Um estudo do Centro de Formação Prepara Portugal calcula que o país precisará de 1,2 a 1,3 milhões de novos trabalhadores líquidos até 2030 para compensar a saída de cerca de 500 mil pessoas para a aposentadoria e manter o sistema equilibrado. Pequenas variações têm impacto exponencial: cada alteração de 0,1 no rácio entre ativos e pensionistas exige algo entre 150 mil e 170 mil novos contribuintes.

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A transformação já está em curso. Entre 2010 e 2024, o número de imigrantes residentes passou de cerca de 430 mil para mais de 1,5 milhões. Aproximadamente 85% estão em idade ativa e, em 2025, a taxa de emprego dessa população atingiu 67%, aproximando-se da dos nacionais. Trata-se de uma mudança silenciosa na composição da força de trabalho portuguesa.

Edifício dos serviços da Segurança Social no Areeiro, em Lisboa. Crédito: Joana Saramago/Lusa.

Para o economista e professor sênior da Fundação Getúlio Vargas William Eid Jr., o efeito é claro. “Em Portugal há poucos idosos contribuindo para a Segurança Social. Na verdade, eles têm um contributo negativo, porque recebem pensões e não contribuem. Estamos falando de quase 10% da receita da Segurança Social vindo desse contributo positivo dos imigrantes”.

Ao mesmo tempo, a presença estrangeira vai além da dimensão previdenciária. Um estudo de 2024 feito pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto sustenta que, sem reforço migratório, o crescimento econômico permanecerá anêmico e a população continuará a encolher. Num cenário de crescimento médio anual de 1,11% até 2033, a queda populacional pode chegar a 5,8%.

Já um crescimento de 3% ao ano, acompanhado por uma taxa média de imigração de 1,321%, permitiria compensar o saldo natural negativo. A investigação também desmonta um argumento recorrente no debate público: o de que imigrantes retirariam oportunidades dos nacionais. Pelo contrário, aponta que a expansão da força de trabalho tende a alargar o mercado interno, estimular consumo, investimento e geração de novos empregos.

Na prática, essa realidade já é visível. Na agricultura, há mais contribuintes estrangeiros do que portugueses. A isso soma-se o peso do turismo — cerca de 30 milhões de visitantes por ano, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) — que sustenta hotéis, restaurantes e obras espalhadas pelo país.

“Você não tem jovens portugueses querendo trabalhar na agricultura, na construção civil, na restauração. Esses lugares são preenchidos por imigrantes”, afirma William Eid Jr. E faz um alerta que desloca o foco do debate:

“A redução do fluxo não é um grande risco porque as pessoas já estão aqui. O risco é se elas forem embora por qualquer motivo, como mudança nas regras documentais. Aí é um problema”.

Entre o cotidiano de Arthur — que contribui todos os meses enquanto tenta marcar uma consulta médica — e os números que sustentam as contas públicas, desenha-se uma narrativa complexa. De um lado, a experiência individual de quem sente o peso dos impostos. De outro, a evidência de que, sem essa contribuição, o sistema enfrentaria uma pressão ainda maior.

Talvez seja essa a imagem mais fiel do momento atual: a imigração como um pilar discreto, mas decisivo, do Estado social português. Deixa de ser estatística e ganha forma concreta nas empresas, nos campos, nos hotéis e nos bairros das cidades. Um contributo que ajuda a sustentar pensões hoje e que exigirá escolhas políticas claras amanhã.

flavio@revistaentrerios.pt

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