O que acontece com o corpo ao imigrar? Brasileiros em Portugal relatam mudanças na rotina, sono e saúde
Os impactos (quase) invisíveis da imigração e as estratégias para reconstruir o equilíbrio longe de casa
- Porto
Maio 19, 2026
O coração dispara, a respiração se acelera, os músculos se tensionam. Picos de adrenalina e cortisol ocorrem sem significar perigo real. É apenas a reação do corpo ao se ver em uma cidade estranha, com horários desconhecidos e rotina totalmente diferente. É assim que imigrantes se sentem quando mudam para outro país. O que o corpo faz enquanto a mente ainda tenta se organizar? Nesta reportagem, a EntreRios analisa essa mudanças corporais, praticamente invisíveis a experiência.
A psicóloga clínica Daniella Sotero, especialista em Saúde Mental, Álcool e Drogas pela Universidade Católica de Pernambuco, diz que o processo de adaptação física começa nos hábitos básicos. Segundo ela, o corpo é um instrumento de relação com o mundo, claro, e é preciso gerir novas formas de lidar com isso. “Criar rotinas de sono, alimentação e movimento ajuda a controlar a ansiedade e permite se reconhecer”, diz.
É o que também afirma a Organização Mundial da Saúde (OMS): manter uma prática de sono regular pode reduzir o risco de ansiedade e depressão em até 20%.
Paula Carolina, 29 anos, médica e mestranda da Universidade do Porto, conta que trabalhar remotamente para o Brasil deslocou seus ritmos. Reuniões que começam tarde da noite — para quem migrou de um país tropical para um europeu — empurraram seu ciclo de sono e alimentação para horários incomuns. “Durmo e acordo tarde. Tomo café às 10h e almoço depois das 14h”, relata.
O inverno prolongado e a luminosidade reduzida ampliam as dificuldades. Para contrabalançar, Paula e o marido, o engenheiro Maurício Costa, 30 anos, encontraram uma forma inusitada de desestressar o corpo, além da mente, enquanto se acostumam com as novas regras: incluíram o forró na rotina.
Se o frio tornou as atividades ao ar livre mais desafiadoras, o forró, uma dança que exige contato corporal, ritmo acelerado e pode ser praticada em espaço fechado, surgiu como forma de experimentar a vida fora de casa e criar novas relações com os espaços da cidade.

Costa também notou um leve aumento no consumo de álcool, incorporado à rotina social portuguesa, sem comprometer a saúde. Nem todos, porém, conseguem esse equilíbrio de imediato. Entre os brasileiros em Portugal, 35% relatam crescimento do consumo de álcool após a imigração, segundo estudo da Universidade do Porto.
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Rafael Nogueira, 43 anos, vivenciou isso: consumir mais álcool e, também, tabaco — chegou a 40 cigarros por dia — foi um ciclo que ele percebeu a tempo, e decidiu interromper. Era o primeiro sinal de que os limites estavam sendo ultrapassados, quase uma muleta para a pouca socialização típica de recomeços em países, línguas e hábitos diferentes.
Enquanto Nogueira teve de reconhecer os sinais de alerta no próprio corpo, Aline Cheong, 25 anos, mestre em Farmácia, encontrou nas corridas no Parque das Nações, em Lisboa, uma maneira de organizar o dia e sincronizar o seu ritmo corporal com o da cidade. Natural de São Paulo, ela ajustou os horários: o jantar, que no Brasil acontecia mais cedo, às 18h, passou a ser servido entre 20h e 21h, seguindo os costumes portugueses e o fluxo de trabalho.

Essa reorganização pode ser facilitada com opções de práticas coletivas, como explica a psicóloga Miriam Bernardino, doutoranda em psicologia clínica pela Universidade de Coimbra. “Dança, esportes, participar de um grupo religioso, literário , ou seja ele qual for”, explica ela.
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Paula e Costa experimentam isso nos passos do forró; Rafael, na percepção dos limites do organismo; e Aline, na prática de corrida.
Aos poucos, o cortisol e a adrenalina dão espaço à endorfina, o hormônio do prazer, e o corpo aprende a sincronizar treinos, encontros e refeições, além de evitar a acentuação de vícios prejudiciais, transformando a rotina em território familiar.
flavio@revistaentrerios.pt