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O que mais adoece a saúde mental de quem imigra? Especialistas revelam soluções

Idioma, choque cultural e perda de identidade estão entre os fatores que adoecem a saúde mental de quem vive fora do Brasil; mas há caminhos de cuidado e superação

Setembro 15, 2025

Psicólogas revelam estratégias para transformar a saudade em pertencimento. Crédito: PXHere

A decisão de imigrar, embora carregada de esperança e a promessa de novas oportunidades, também traz consigo desafios que podem afetar profundamente a saúde mental.

Em Portugal, a comunidade imigrante — com destaque para os brasileiros — enfrenta barreiras culturais, sociais e emocionais que, se não forem acolhidas de forma adequada, podem levar ao adoecimento psicológico.

Especialistas que atuam diretamente com esse público apontam diversos fatores que contribuem para o sofrimento, reforçando a urgência de estratégias eficazes de enfrentamento e redes de apoio.

Impacto emocional da mudança de país

Thaís Gonzalez, psicóloga especializada em psicologia intercultural, destaca que a mudança de país é um evento que “costuma mexer com várias áreas da vida ao mesmo tempo”. O impacto, segundo ela, é multifacetado e significativo.

A dificuldade com o idioma, que vai além da comunicação básica e interfere na expressão de emoções e na construção de laços mais profundos, soma-se à falta de reconhecimento de diplomas e experiências profissionais, o que força muitos a recomeçarem do zero.

A saudade da família e dos amigos, a interrupção de rotinas de trabalho ou estudo, o “desencaixe” cultural e a pressão social para se adaptar rapidamente são elementos que contribuem para estresse, ansiedade e até para um sentimento de perda de identidade.

Barreira do idioma

Priscila Angeli, psicóloga que atende mulheres imigrantes, aprofunda essa análise. No caso de imigrantes que estão em país que não se fala a língua portuguesa, ela acredita que os desafios estão interligados e vão além da fluência no idioma.

Muitas pacientes relatam sentir-se “menos inteligentes” ou “menos engraçadas” ao se comunicar em outra língua, o que fragiliza a autoestima.

Mudança profissional

Outro ponto sensível é a identidade profissional. Deixar uma carreira consolidada no Brasil para assumir funções operacionais em outro país gera, segundo Angeli, um “luto pela identidade profissional anterior” — uma perda simbólica que nem sempre é reconhecida.

Esse luto se estende também a elementos do cotidiano, como “cheiros, sabores, rituais sociais e formas de se relacionar que fizeram parte da construção da própria identidade”. Já a reconstrução de redes de apoio é vista pela psicóloga como “talvez o mais negligenciado”. Nesse aspecto, ela é categórica: “O isolamento é um dos maiores inimigos da adaptação.”

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Choque cultural e crise de identidade

Annachiara Moretti, psicóloga intercultural, acrescenta que o choque cultural é um dos fatores mais desestabilizadores para quem vive fora do país de origem. A crise de identidade, que pode se manifestar em diferentes graus, afeta diretamente a saúde mental e dificulta a adaptação.

Segundo a especialista, a ausência de conexões significativas em um novo ambiente pesa de forma decisiva no bem-estar emocional, tornando essencial investir em estratégias ativas para construir laços sociais.

Falta do “calor humano brasileiro”

Já para Kênia Nepomuceno, psicóloga com experiência no atendimento a imigrantes, a ausência do que ela chama de “calor humano brasileiro” é um dos principais fatores de sofrimento. Muitos relatam que, mesmo cercados por novas pessoas, a solidão é persistente.

Essa falta de afeto e acolhimento, tão presente no Brasil, pode gerar um vazio difícil de lidar. Além disso, a necessidade de aceitar trabalhos braçais e distantes de suas qualificações compromete não só a saúde física, mas também a emocional, trazendo frustração e exaustão.

Outro elemento apontado por Kênia é o clima europeu, distante do tropical brasileiro. Para muitos, as temperaturas baixas aumentam a saudade da terra natal e podem despertar sentimentos de nostalgia e melancolia.

Soluções e estratégias para o bem-estar dos imigrantes

Diante dos desafios que a imigração impõe à saúde mental, as especialistas apontam caminhos para fortalecer a resiliência e promover qualidade de vida. As sugestões vão desde práticas simples do dia a dia até mudanças de perspectiva que ajudam a ressignificar a experiência de viver em outro país.

Ressignificar a saudade e criar novas memórias

Para a psicóloga Kênia Nepomuceno, a saudade não deve ser encarada como um fardo, mas como “uma forma de amar”. Ela explica que esse sentimento pode servir como estímulo para manter a comunicação com quem está longe e preservar laços afetivos.

A especialista sugere também valorizar o presente: “conhecer lugares, fazer passeios, experimentar comidas diferentes e aprender algo novo no local onde se está”. Essas experiências ajudam a criar novas memórias e um senso de pertencimento.

Escrever é uma das formas de lidar melhor, apontam especialistas. Crédito: PXHere

Outra prática recomendada por Kênia é escrever — em diários, mensagens ou cartas — como uma “ótima forma de expressar sentimentos”, organizando emoções e pensamentos.

“Sempre digo aos meus pacientes que a saudade é uma forma de amar.”

Pequenas alternativas de bem-estar no cotidiano

A psicóloga Thaís Gonzalez defende uma postura de curiosidade, e não de julgamento, em relação ao novo lugar. Segundo ela, criar “pequenas alternativas de bem-estar no dia a dia” faz diferença: manter contato regular com pessoas queridas, investir em lazer, esporte ou espiritualidade são exemplos práticos.

Sua abordagem é baseada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que trabalha a flexibilidade psicológica. O objetivo é construir uma vida guiada pelos valores pessoais, mesmo diante das dificuldades da adaptação, preservando a essência do indivíduo.

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Terapia, vitórias e vínculos afetivos

Para Priscila Angeli, a terapia é um “espaço transformador” em que o imigrante pode “colocar em palavras o que está sentindo”. Ela também utiliza o diário emocional — inclusive em aplicativos — para acompanhar suas pacientes em tempo real.

A psicóloga reforça a importância de cuidar do básico: sono, alimentação e movimento, considerados “pilares” da estabilidade emocional. Além disso, defende a manutenção de vínculos com o Brasil, sem deixar de abrir espaço para novas relações no país de acolhimento.

Angeli propõe ainda as chamadas “microvitórias semanais” — como aprender uma palavra nova ou descobrir um novo canto da cidade —, pois essas pequenas conquistas “fortalecem nossa autoestima e criam um senso real de pertencimento”.

Respeitar o tempo do processo de adaptação

A psicóloga Annachiara Moretti lembra que a adaptação não é linear: é um processo dinâmico, com “altos e baixos”, que “pode levar tempo”. Ela aconselha evitar comparações com outros imigrantes que aparentam ter uma “vida perfeita”, já que cada trajetória é única.

Para facilitar a integração, Annachiara recomenda buscar atividades e grupos que favoreçam conexões sociais. Mesmo que o início seja difícil, aceitar esse desafio como parte natural da jornada ajuda a encarar a adaptação de forma mais leve.

Onde buscar apoio em Portugal

Para quem deseja iniciar acompanhamento, há diferentes caminhos:

  • Atendimento individual com psicólogos brasileiros: profissionais como Annachiara Moretti, Priscila Angeli, Thaís Gonzalez e Kênia Nepomuceno oferecem consultas online, adaptadas à realidade de imigrantes.
  • Serviços públicos: o Serviço Nacional de Saúde (SNS) disponibiliza psicólogos em alguns centros de saúde, embora a procura seja alta e o acesso possa ser demorado.
  • Associações de apoio a imigrantes: ONGs e coletivos, como associações brasileiras em Portugal, oferecem escuta e encaminhamento psicológico. A Casa do Brasil de Lisboa é uma delas:

A imigração é um processo de luto e renascimento ao mesmo tempo. Estamos deixando uma versão de nós mesmos para trás enquanto construímos uma nova. Reconhecer isso e buscar o apoio necessário não é opcional: é cuidado essencial!”, reforça a psicóloga Priscila Angeli.

Setembro Amarelo

O Setembro Amarelo é uma campanha mundial dedicada à prevenção do suicídio e à valorização da vida. Todos os anos, milhares de pessoas enfrentam situações de sofrimento que podem levá-las a pensar em tirar a própria vida, mas a atenção aos sinais de alerta, o apoio da comunidade e o acesso a cuidados adequados fazem a diferença.

A prevenção é um esforço coletivo: profissionais de saúde, familiares, amigos e redes de apoio têm papel fundamental no acolhimento e no cuidado. A saúde mental deve ser tratada com a mesma prioridade que a saúde física. Depressão, ansiedade e outros transtornos podem ser prevenidos e tratados quando há informação correta, empatia e acesso a ajuda.

Se você está passando por um momento delicado ou conhece alguém em risco, procure apoio. Há caminhos possíveis, e pedir ajuda é sempre o primeiro passo.

Deborah Lima
deborah@revistaentrerios.pt