O que ninguém te conta sobre fazer o Caminho de Santiago
Entre perdas, dor física e recomeços, jornalista encontrou no percurso uma experiência que ultrapassa o turismo
- Lisboa
Maio 5, 2026
O primeiro passo de uma grande jornada raramente acontece na estrada. Ele nasce, quase sempre, em silêncio, como um chamado difícil de explicar. Foi assim com Hélio Araújo. Jornalista, carioca, hoje com mais de 60 anos, ele não imaginava que uma viagem turística com destino a Santiago da Compostela mudaria o rumo da sua vida. Mas mudou.
Em 2011, ao visitar a cidade ao lado da família, teve o primeiro contato com o universo dos peregrinos. Observou abraços emocionados, lágrimas discretas e uma energia que parecia atravessar a Praça do Obradoiro. Naquele momento, algo se acendeu, ainda sem forma definida, mas impossível de ignorar.
Três anos depois, em 2014, voltou ao local e a sensação ganhou outra dimensão. Já não era curiosidade. Era vontade de viver aquilo.

O caminho começa antes da partida
De volta ao Brasil, Hélio mergulhou de cabeça nesse novo universo. Filiou-se à Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, passou a frequentar caminhadas, estudar rotas, ler relatos e preparar o corpo. Mas havia também uma motivação mais profunda.
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A perda do irmão e da cunhada, em um curto intervalo de tempo, deixou uma lacuna difícil de preencher. O Caminho Português Central, escolhido para sua primeira peregrinação, passou a ter um significado especial: seria também uma homenagem. Na mochila, além do essencial, ele levaria fotos dos dois. Em julho de 2015, partiu do Porto.

Entre a dor e a fé
Os primeiros dias não foram simples. Sem experiência prática, Hélio acabou cometendo erros comuns: mochila pesada, ritmo acima do ideal, pouca adaptação. O corpo reagiu rápido, com bolhas nos pés e uma tendinite que interromperam a jornada ainda em território português.
Em Ponte de Lima, a recomendação médica foi parar. Para quem vinha se preparando havia anos, a frustração foi imediata.
Depois de alguns dias de pausa, ele decidiu continuar. A dor permaneceu durante o restante do percurso, mas a forma de encarar a caminhada mudou. Ao longo do trajeto, encontrou apoio de outros peregrinos, pequenas ajudas inesperadas e momentos de silêncio que reorganizaram pensamentos.
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Hélio costuma dizer que não caminhou sozinho. Para ele, a presença do irmão e da cunhada esteve ali, de alguma forma, durante todo o percurso.
A chegada novamente à Praça do Obradoiro não foi marcada por comemoração. Foi um momento mais contido, de emoção e alívio. A sensação não era apenas de ter completado um trajeto, mas de ter atravessado um processo.

O recomeço que virou estilo de vida
A experiência não terminou ali. Dois anos depois, ele percorreu o Caminho Francês, desta vez com mais preparo. Foram mais de 800 quilômetros, sem lesões, em um ritmo diferente do primeiro percurso. Depois vieram outras rotas, em diferentes países.

Com o tempo, o Caminho deixou de ser uma experiência pontual e passou a fazer parte da rotina. Hélio adotou a identidade de peregrino não pelo número de quilômetros percorridos, mas pelo que a caminhada trouxe: disciplina, resiliência e uma nova forma de lidar com perdas e desafios.
Essa mudança também se refletiu fora das trilhas. Ele publicou um livro sobre a primeira experiência, com um relato direto, sem idealizações, e passou a produzir um podcast onde conversa com outros peregrinos e inspira novos caminhantes a darem o primeiro passo.

O verdadeiro destino
A história de Hélio não gira apenas em torno de chegar a Santiago de Compostela. O ponto final, no caso dele, nunca foi a Catedral de Santiago de Compostela.
O que ficou foi o processo: os dias difíceis, os encontros, o silêncio, o esforço contínuo de seguir mesmo com dor. Para ele, o Caminho acabou sendo menos sobre destino e mais sobre o que se constrói ao longo dele.
Hoje, quando fala da experiência, não se prende a roteiros ou paisagens. Fala do que mudou — e do que ainda continua mudando — a cada novo passo.
