Cultura

O São João do Brasil e o de Portugal: diferenças das festas tradicionais e milionárias

Evento junino une memórias afetivas, turismo e identidade, cada qual com suas brincadeiras e tradições

Junho 23, 2025

Populares participam no arraial da noite de São João no Porto. Crédito: Fernando Veludo/Lusa.

No céu do Porto, norte de Portugal, lanternas coloridas se perdem entre estrelas, enquanto multidões percorrem as margens do Douro em direção à Ribeira, carregando martelinhos de plástico e cravos de alho-poró. O martelinho, para brincar de  dar batidinhas na cabeça uns dos outros; os cravos, para espantar mau-olhado.

Já no Brasil, as pessoas festejam vestindo-se de caipiras, com roupas de tecidos em xadrez, dançando quadrilha ao som de sanfona, simulando casamentos e pulando fogueiras.

Ambas as celebrações misturam divertimento e tradição, acontecem em junho, são populares e turísticas, rendem lucros financeiros e levam o mesmo nome de santo – João. Ou seja, são ‘iguais mas diferentes’.

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Em Caruaru, agreste de Pernambuco onde Gustavo Oliveira nasceu há 29 anos, acontece uma espécie de carnaval ao som de forró. A grandiosidade da festa junina é indiscutível: esse ano, a estimativa é que a comemoração – que começou em abril e vai terminar no fim de junho – movimente mais de R$ 700 milhões e gere cerca de 20 mil empregos.

Grupo em procissão tradicional de São João, em Caruaru. Crédito: Felipe Correia/Prefeitura de Caruaru

O município bate recordes que reforçam o título pelo ostenta de “Maior e melhor São João do mundo”. Segundo a Fundação de Cultura, 3,7 milhões de pessoas passaram pela cidade em junho de 2024, movimentando aproximadamente R$ 688 milhões na economia local, durante os 72 dias de comemoração.  

“Me surpreendeu o quanto a festa aqui em Portugal seja outra coisa”, disse Oliveira, que mora no Porto, onde faz o mestrado em Relações Internacionais na Universidade que dá nome à cidade. “O São João de Caruaru simboliza tradição, família reunida, comida de milho, alma nordestina”.

Multidão acompanha shows de São João, em Caruaru. Crédito: Felipe Correia/Prefeitura de Caruaru.

O do Porto não deixa a desejar em grandiosidade e simbolismos também. Considerada uma das festas mais emblemáticas da cidade, atrai cada vez mais turistas.

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Em junho do ano passado, registou 576,1 mil diárias, o que representa 7,4% do total nacional no período, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). O crescimento foi de 6,3% em relação ao ano anterior, puxado, principalmente, por visitantes estrangeiros.

Fogos de artifício na noite de São João, em Vila Nova de Gaia. Crédito: Estela Silva/Lusa.

Desde 2023, o Instituto Pernambuco Porto Brasil organiza o São João tipicamente brasileiro no Porto e junta as duas comemorações numa só. “Quem vem conhecer o evento encontra elementos essenciais como a comida de milho, a quadrilha e as apresentações musicais”, conta Germana Soares, gestora do Instituto.

Para ela, a festa de São João também é uma forma de os brasileiros apresentarem suas tradições aos filhos nascidos em Portugal e aos amigos portugueses. A procura em 2024 foi recorde: em meia hora, os 1600 ingressos gratuitos disponibilizados para o evento esgotaram.

“Queremos criar um lugar de afeto para quem sente saudade do seu São João, sem deixar de abraçar a cultura local”, explica.

Lúcia Costa, 62 anos, carioca e psicopedagoga clínica e institucional, carrega lembranças vívidas do São João, tanto no Brasil quanto em Portugal, país em que chegou há quase três décadas.

Sua primeira experiência no São João do Porto foi “muito engraçada” por conta da novidade dos martelinhos, tradicional brincadeira na cidade, que encantou aos filhos ainda crianças à época. A surpresa, também, foi com a gastronomia típica: “Foi algo inusitado, com as sardinhas na brasa e pimentões”. 

Populares participam no início da noite de São João na Ribeira do Porto, com martelinhos, sardinha assada e lançamento de balões. Crédito: Fernando Veludo/Lusa.

Lúcia fala da importância de preservar o que torna cada festa única: “Temos que respeitar a história e as tradições folclóricas do lugar.” Isso, passa, essencialmente, pela educação e pelo envolvimento das novas gerações, segundo a psicopedagoga. Um processo que deve começar nas escolas, com atividades que ajudem as crianças a entender as manifestações culturais e de como se vivencia o período em cada contexto. 

Vale lembrar que, em 24 de junho do ano passado, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei Nº 14.900, que declara e eleva a quadrilha junina como manifestação da cultura nacional. Agora, está comparada a outro grande acontecimento festivo do país, o carnaval. Faz sentido.

flavio@revistaentrerios.pt