A relação de Paula Daidone com o vinho começou na faculdade de Jornalismo, quando uma revista criada como trabalho de conclusão de curso abriu portas para a carreira que já soma 16 anos na comunicação do setor. Com o tempo, porém, a paulistana entendeu que divulgar garrafas deixou de ser suficiente: era preciso entender as histórias, a terra e as pessoas por trás delas.
Essa busca a levou a Portugal, onde aprofundou seus conhecimentos e encontrou um novo caminho. Em 2021, foi aprovada no curso do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) para ser educadora sobre o tema. Radicada no país desde 2018, dedica-se à comunicação e à educação a respeito dos rótulos portugueses.
Todo esse empenho rendeu um convite para estar, em setembro, na Vinoinfluencer World Awards, em Valladolid, na Espanha, representando Portugal e levando uma perspectiva particular: a de uma brasileira que fez da bebida uma das principais histórias a serem contadas para o mundo. “É importante construir pontes que façam mais pessoas entenderem que o vinho pode estar na mesa de todos”.
Como o país entrou na sua trajetória?
Vim para cá em 2018 fazer uma pós-graduação em Marketing de Vinhos. Já trabalhava como assessora de imprensa no Brasil, e percebi que precisava ter mais conteúdo técnico. Aqui, a abordagem era diferente: eu falava com pessoas que produzem e estudam a bebida.
Fiz uma especialização na Itália, depois fui à Champagne, na França, e para a África do Sul, onde me especializei em enoturismo.
O que mudou quando conviveu de perto com os produtores portugueses?
Percebi que a forma como se fala de vinho aqui é muito mais saudável, inclusiva e permissiva. Por mais que existam regras, qualidade e coisas que o definam, ele é para todos. No Brasil, ainda é um segregador, como se você conseguisse mostrar a qual classe social pertence. Isso é muito ruim.
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Essa percepção influenciou sua decisão de construir carreira em Portugal?
Sim. Aqui, um país produtor, todos têm uma relação muito próxima com a terra, o que traz intimidade.
De onde veio a sua paixão pela enologia?
Quis entender a história e a tradição do vinho. Ele é um produto que agrega, que faz as pessoas sorrirem, se sentirem bem. Não é só uma bebida.
E quando o produto português ocupou um lugar especial nessa história?
Comecei a estudar a produção do Porto e percebi que era um mundo ainda maior e mais interessante. É uma história que carrega o desenvolvimento de um país e de uma sociedade. Também descobri muitas mulheres envolvidas nesse trabalho, que foram pioneiras em algum ponto.
O que ainda falta para o vinho ser realmente democrático no Brasil?
O brasileiro reconhecer a qualidade da nossa produção. Temos uma síndrome de vira-lata horrorosa, de achar que nada presta. Trabalhei durante bastante tempo para a Vinícola Salton como educadora e eles têm histórias de 150 anos, assim como milhares de outras vinícolas que surgiram com os imigrantes. Mas as pessoas olham para isso com desdém, quando deveriam olhar com admiração.
Para o consumo em geral, existe também a questão do preço. Precisamos cobrar das importadoras uma precificação que permita ampliar o acesso. Pode existir um vinho glamouroso, caro, para uma determinada ocasião, mas também aquele do dia a dia, assim como existe a cerveja, o coquetel e a pizza que pedimos em casa.
Ele pode disputar espaço com a cerveja e a caipirinha?
Completamente. Somos, culturalmente, um país cervejeiro, pelo calor, pela festa, mas existe muito espaço para o vinho, principalmente quando falamos de comida: quando os dois estão juntos, a experiência é diferente. Há espaço e paladar para isso, e opções que vão dos mais adocicados aos mais secos, com borbulhas ou sem.
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Os preços praticados nos restaurantes afastam as pessoas?
Sim. Algo triste nos últimos meses foi perceber muitos wine bars fechando. É um reflexo de que o português também está consumindo menos ou não consegue consumi-lo com tanta frequência por causa do preço.
As pessoas entram no supermercado e compram uma garrafa por quatro euros. Quando vão a um restaurante e encontram uma taça por sete, não acham um valor justo. Falta um trabalho da restauração para precificá-los e mostrar que vale a pena colocá-lo na mesa também fora de casa.
Quais bebidas estão ganhando espaço nesse cenário?
A cerveja e, principalmente, a sidra. Infelizmente, há um preconceito com o vinho verde de pressão. Já saí com brasileiros e portugueses que dizem que é porcaria. Se você vai para a Itália, na região do Prosecco, todo mundo toma.
O que significa representar Portugal, sendo brasileira, no Vinoinfluencer World Awards?
Muito importante! Eles definem as pessoas que mais contribuem para a divulgação de determinados países ou regiões. Sei que há outros brasileiros e portugueses, mas sou a única pessoa unindo as duas nacionalidades.
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O que espera levar para esse encontro internacional?
há uma diversidade enorme de regiões, castas e estilos em Portugal, muitas coisas para o público descobrir. Quero contribuir para essa aproximação, trocar experiências e criar conexões. É importante construir pontes e contar histórias que façam mais pessoas entenderem que o vinho pode estar na mesa de todos.
flavio@revistaentrerios.pt