“Oração ao Tempo”: exposição transforma finitude em matéria artística
Inspirada na canção de mesmo novo de Caetano Veloso, mostra reúne seis artistas em torno do tempo em Lisboa
- Lisboa
Fevereiro 10, 2026
Há canções que atravessam gerações não apenas como música, mas como pensamento. Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, é uma dessas obras que convidam à reflexão profunda sobre a finitude, a memória e a permanência. É a partir dessa chave sensível que nasce esta exposição coletiva, que reúne obras dedicadas a investigações artísticas sobre o tempo entendido não apenas como duração, mas como matéria viva, agente de transformação e construtor de memória.
Participam da mostra os artistas Anne Carestiato, Duarte Esmeriz, Igor Oliveira Prado, Rita Almeida, Simbraz Roberto e Wellington B. Dantas, cada um acionando diferentes camadas temporais do tempo deformado da fotografia ao tempo turvo da instalação, do passado que insiste ao presente que se impõe.

A exposição propõe uma pergunta central: o que fazer com a consciência de finitude diante do infinito? Aqui, o tempo age sobre corpos, paisagens, superfícies e afetos; produz marcas, define ritmos de permanência e de perda. Quando a arte se torna tempo, ela deixa de ser objeto estático e passa a operar como experiência daquilo que retorna, falha, reaparece ou escapa.
Nesse contexto, o trabalho de Anne Carestiato ocupa um lugar sensível e potente. Artista visual e figurinista, nascida em Fortaleza e radicada em Portugal, Anne articula artes visuais e artes da cena a partir de materiais não convencionais e processos artesanais como bordado, crochê e costura manual. Sua pesquisa investiga memória, corpo e narrativa como campos poéticos em constante reconstrução.

Na exposição, sua instalação parte da experiência da imigração e da memória como principal bagagem:
“Eu acho que representa, assim, tanto o meu trabalho e o que eu queria trabalhar mais é que todo imigrante, a maior bagagem que o imigrante tem é a sua memória, né? Porque quando a gente vem pra cá, a gente não traz tudo que a gente gostaria, algumas pessoas não trazem nada”, afirma a artista.
Anne relata que, ao chegar a Portugal, percebeu a necessidade constante de se apresentar, pessoal e profissionalmente, o que a levou a um mergulho nas próprias lembranças:
“Pra contar minha história, o que eu era, eu precisava revisitar as minhas memórias. E a cada memória que eu ia buscar, eu tinha que voltar lá e tentar iluminar, revelar”, explica. Em sua obra, a ação da água sobre o tecido se torna metáfora desse gesto: tocar, molhar, revelar.
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Para ela esse processo não é apenas de representação, mas de reapresentação. “Quando a gente se apresenta baseado na nossa história, a gente também se reapresenta. Porque quem achava que eu era naquela época, eu já não sou mais”, reflete.
A mostra reúne diferentes abordagens que compreendem a arte como um campo em permanente construção, atravessado por múltiplas temporalidades. Oração ao tempo está em cartaz na Casa Oxente (Rua Passos Manuel, 64 A – Arroios, Lisboa)