Esporte

Os sinais do hexa

Coincidências não levantam taça. Mas mexem com a memória e o imaginário do torcedor. E a Seleção que vai à Copa está repleta delas

Maio 19, 2026

Neymar foi convocado para disputar a Copa do Mundo. Crédito: Rafael Ribeiro / CBF
Neymar foi convocado para disputar a Copa do Mundo. Crédito: Rafael Ribeiro / CBF

O anúncio da lista de convocados de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026 não trouxe apenas 26 nomes. Trouxe também um pacote de sinais, memórias e coincidências capazes de mexer com a emoção e a memória do torcedor brasileiro. E são muitas. Como em 1994, ano do Tetra, a Copa será disputada na América do Norte e terá jogos nos Estados Unidos. A exemplo daquele Mundial, o Brasil vai a campo pressionado por um jejum de 24 anos sem títulos. A última vez que o País levantou a taça foi em 2002.

E desde a conquista do Penta no Japão e na Coreia, não havia uma seleção com tantos jogadores atuando no Brasil como essa de Ancelotti. São sete “nativos” vindos de quatro clubes brasileiros, sendo a maioria do Flamengo: os laterais Danilo e Alex Sandro, o zagueiro Léo Pereira e o meia Lucas Paquetá.

Mas para os supersticiosos, a melhor lembrança não envolve o Rubro-Negro carioca. Desde a Copa de 74, Santos e Botafogo não tinham jogadores chamados juntos para uma Copa. Mais de meio século depois, os dois gigantes voltam a dividir a fotografia da Seleção, agora com Neymar e Danilo. Não é um detalhe qualquer. A dupla alvinegra foi a maior fornecedora de craques no Tricampeonato nas Copas de 1958, 1962 e 1970. Do lado santista, o Rei Pelé, Gilmar, Zito, Clodoaldo e Carlos Alberto. Do botafoguense, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Zagallo e Jairzinho. Essa constelação fez de Santos e Botafogo os maiores arquitetos da construção de um Brasil gigante nos gramados.

Herdeiro direto dessa linhagem de gênios, Neymar pode ser em 2026 o que Ronaldo foi em 2002. Assim como o Fenômeno antes do Penta, Neymar vai para o Mundial com um grande ponto de interrogação. Ronaldo vinha de lesões, cirurgias, longas ausências e carregava uma desconfiança que parecia maior do que seu próprio futebol. A pergunta não era se ele ainda tinha talento. Era se ainda poderia ser o Ronaldo que assombrou o mundo com seus dribles, arrancadas e gols. O resto é história: oito gols, dois na final e uma das redenções mais bonitas da história das Copas.

Neymar não é Ronaldo. Mas a comparação não precisa ser literal para fazer sentido. Aos 34 anos, depois de lesões, oscilações, críticas e muita discussão sobre sua condição física, o atacante do Santos volta à cena sem o direito de ser apenas nome. Terá que provar em campo aquilo que a memória afetiva insiste em lembrar.

Mas aí é que 2026 pode se encontrar com 2002. Não na certeza da glória antecipada e nem na garantia de um final feliz. Mas na ideia de que Copas, às vezes, são vencidas por craques capazes de transformar desconfiança em combustível. Ancelotti convoca Neymar sem dar a ele a chave do time. O recado foi dado pelo treinador na coletiva pós-convocação: o camisa 10 terá espaço, mas não o salvo-conduto da titularidade inquestionável. Neymar vai ter que provar em campo que ainda pode ser o maestro da companhia.

A lista de Ancelotti, no fim, abriu mais do que uma contagem regressiva para o início dos jogos. Emulou coincidências e lembranças. Há mais Brasil na convocação, tem Santos e Botafogo juntos pela primeira vez desde 1974, um craque histórico sob suspeita e uma Seleção tentando encerrar um hiato longo demais para o peso de sua camisa. Coincidência não ganha Copa. Mas, quando a bola rola, às vezes pode recontar a história.

Chico Silva. Foto: Divulgação