Música

Otto fala sobre reinvenção, novo disco e o espetáculo “Apocalíptico” antes de show no FMM Sines

Em entrevista à EntreRios, o cantor e compositor pernambucano reflete sobre criatividade, intuição, maturidade e revela detalhes do álbum Ópio, previsto para o fim do ano

Julho 24, 2026

Otto no FMM Sines. Crédito: Lizzie Nassar

Há artistas que passam a vida tentando encontrar uma identidade. Otto fez o caminho contrário: transformou a mudança em identidade. Percussionista, cantor, compositor e um dos nomes fundamentais da música brasileira contemporânea, o pernambucano chega ao FMM Sines – Festival Músicas do Mundo, em Sines, carregando quase 30 anos de uma trajetória construída sobre experimentação, coragem e inquietação.

À frente do espetáculo Otto Apocalíptico, apresentado na 26ª edição do festival, ele não fala sobre fim. Fala sobre recomeço.
“O apocalíptico veio porque eu cheguei numa hora em busca de inspiração, de composição, de não saber o que dizer do mundo. O que é que eu posso transmitir? O que é que eu vou escrever que seja relevante?”, reflete durante entrevista. Para Otto, o “apocalipse” do título nasce justamente dessa pergunta.
“Se a gente não parar, se não evoluir a humanidade, a gente vai perder o nosso bem-estar, a nossa verdade, a nossa poesia.”
É uma declaração que resume sua obra. Desde Samba pra Burro, lançado em 1998, Otto nunca fez música para oferecer certezas. Sempre preferiu provocar deslocamentos. Entre maracatu, samba, rock, brega, manguebeat e música eletrônica, construiu uma discografia impossível de enquadrar.

Essa liberdade também encontra eco no FMM Sines, festival que reúne artistas de mais de vinte países em uma programação onde convivem reggae jamaicano, afrobeat nigeriano, flamenco, jazz, música árabe, blues do deserto, tango e sons urbanos de diferentes partes do mundo. Ser o único representante brasileiro desta edição tem um significado especial para o músico.
“É um motivo de muito orgulho. Eu venho de um país onde a música é religião, ela é a nossa cultura, é a nossa cara.”

Ele sorri ao comparar o evento a uma competição esportiva. “Dá um frio na barriga porque é o mundo todo aqui. Parece uma Copa do Mundo de música. Eu me sinto um cara que vem representar um grande país, uma grande música, um grande povo.”
Mas o discurso nunca escorrega para o nacionalismo vazio. Pelo contrário. Otto entende que festivais como o FMM existem justamente para dissolver fronteiras. “Quem faz o festival é o povo”, resume.

Entre o selvagem e o delicado

Ao longo da conversa, Otto parece confirmar uma impressão recorrente de quem acompanha sua obra: suas músicas vivem permanentemente entre extremos.

Existe violência. Existe ternura. Existe ruído. Existe silêncio. Questionado sobre esse equilíbrio entre caos e delicadeza, ele responde quase como quem descreve a própria personalidade. “Eu sou o caos e eu sou também a delicadeza e a harmonia. O delicado está sempre do lado do selvagem. Um não vive sem o outro.”

A resposta talvez explique boa parte de sua discografia. Otto não tenta esconder as contradições. Ao contrário. Faz delas matéria-prima. “Eu tive que usar muito a minha força durante a vida. Em uma época eu era muito selvagem. Hoje a idade está me trazendo uma calmaria muito boa. A experiência me dá um sentido maior para fazer as coisas.”

A intuição como método

Em tempos em que artistas parecem pressionados a explicar cada obra, cada verso e cada posicionamento, Otto segue apostando no mistério.

Mas não no mistério como estratégia de marketing. No mistério como consequência da criação. “O mistério vem da intuição”, afirma. Depois desenvolve a ideia. “Enquanto eu for um artista intuitivo, um artista que está sempre começando, que sabe que pode errar… os meus grandes acertos vieram da minha coragem de poder errar.”

Talvez esteja aí um dos segredos de sua longevidade. Otto nunca parece interessado em repetir fórmulas. Nem mesmo as próprias.
“Reinventar é preciso todo dia”, diz.

Embora reconheça que a experiência lhe trouxe segurança de palco, ele rejeita a ideia de perfeição. “Eu não tenho essa cobrança de acertar sempre. A luz é tua. Brilha. Cativa. Se doa.” É uma filosofia artística construída muito mais pela prática do que pela teoria. “Tudo eu aprendi na vida”, conta.  “Eu não tive uma escola tão certa. Tudo é na intuição.”

O menino continua aqui

A maturidade também mudou a maneira como Otto olha para o próprio passado. Se pudesse encontrar o jovem que gravou seu primeiro disco, diz que não lhe daria conselhos técnicos. Ofereceria acolhimento.

“O Otto de hoje tem que compreender mais o Otto menino. Tem que dizer para ele: calma, eu estou do teu lado.” E completa com uma frase que soa como manifesto. “Nunca perca sua juventude musical. Nunca perca a infância.”

Poucas respostas resumem tão bem sua carreira. Mesmo depois de quase três décadas, Otto continua produzindo como alguém que ainda se permite descobrir.
A poesia continua fazendo perguntas
Durante a entrevista, Otto rejeita a ideia de que a arte deva oferecer respostas definitivas. Para ele, a música nasce justamente da dúvida. “A responsabilidade da poesia é criar perguntas e defender respostas.”

É uma inversão interessante. Não importa possuir todas as certezas. Importa provocar encontros. Criar conexões. Foi assim que construiu uma obra que atravessou gerações sem nunca depender de tendências.

Um novo disco no horizonte

A conversa termina olhando para frente. Depois da passagem por Portugal e de uma temporada pela Itália e França, Otto retorna ao Brasil para concluir um novo capítulo de sua discografia. “Estou gravando um disco que deve sair no final do ano.” O álbum já tem nome: Ópio. Mais do que revelar o projeto, Otto parece celebrar o fato de ainda estar em movimento. “Estou vivo, vivendo e muito feliz em ser músico, em ser cantor. É um sonho de criança.” Talvez essa seja a melhor definição para o artista que sobe ao palco do FMM Sines. Quase trinta anos depois de iniciar sua caminhada, Otto continua caminhando como quem está apenas começando. Porque, como ele próprio resume, sem hesitar: “O mistério vem da intuição.”

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