Economia

PIX em Portugal: um ano depois, por que a tecnologia ainda enfrenta barreiras no dia a dia?

A parceria entre uma fintech brasileira e uma portuguesa levou o PIX a centenas de lojas em Portugal

Abril 18, 2026

PIX já tem mais de 170 milhões de usuários. Crédito: Divulgação

Criado no Brasil em 2020, o PIX já tem mais de 170 milhões de usuários e avança pelo mundo a ponto de incomodar até o presidente Donald Trump, preocupado com a ameaça ao domínio das bandeiras americanas de cartão de crédito.

Em lojas nos Estados Unidos, França, Argentina, Uruguai, Chile, Itália e Espanha, o sistema mostra seu potencial de substituir outras formas de pagamento. Em Portugal, porém, apesar da grande presença de brasileiros, a tecnologia ainda enfrenta resistências no dia a dia do comércio, conforme EntreRios apurou.

Um ano atrás, as fintechs Braza Bank, do Brasil, e Unicre, de Portugal, anunciaram que os terminais da rede Unicre passariam a aceitar pagamentos via PIX. Desde então, a solução chegou a centenas de lojas, com foco em grandes redes varejistas como El Corte Inglés, Grupo Sonae (Modelo Continente), Worten, Agência Abreu e Sapatarias Aldo, além de operadores de hotelaria, turismo e serviços.

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O objetivo é passar de 100 mil terminais de pagamento no país. O PIX já pode ser usado em terminais físicos e celulares“Este primeiro ano de operação do PIX em Portugal veio confirmar a relevância da solução e o interesse efetivo do mercado. Realizamos testes, recolhemos feedbacks e introduzimos melhorias contínuas para a formação de uma rede de aceitação sólida”, destacou João Perneco, diretor de Vendas na Unicre. Os brasileiros são mais de 500 mil residentes e mais de 1,1 milhão de turistas ao ano no país.

A brasileira Braza Bank é responsável por receber os valores em reais e realizar o câmbio do dinheiro que será enviado aos comerciantes. Segundo o diretor de negócios, Marcelo Sá, a parceria com a Unicre simplificou o caminho para superar barreiras regulatórias e distribuição comercial até chegar às grandes redes ano passado. Segundo ele, o resultado tem se mostrado muito positivo.

Temos visto um aumento da procura mês a mês por lojas. No médio e longo prazo, a gente deverá ter disseminado e aculturado ao mercado português”, afirma. Para Marcelo Sá, o diferencial do PIX é oferecer taxas mais competitivas.

Além do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 3,5%, os cartões de crédito brasileiros cobram um spread cambial (a diferença entre o valor real da conversão da moeda estrangeira e o que o banco cobra) que pode variar entre 8,5% e 9%, enquanto no PIX varia entre 5 e 7%

“Na hora do pagamento você já sabe o quanto gastou em reais, enquanto no cartão de crédito pode haver diferença a depender do valor do câmbio no momento  da transação”, destaca Marcelo Sá.

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O Braza Bank realiza a conversão e repassa euros aos comerciantes. O spread de câmbio é de apenas 0,2%. Ao receber o dinheiro, a fintech faz a verificação, valida a operação, realiza o câmbio e repassa o dinheiro para a Unicre, que entregará ao comerciante. 

Maquininha com a tecnologia da Braza Bank para pagamento com PIX. Crédito: Divulgação

“O PIX oferece uma experiência de pagamento mais fluida e maior predisposição para consumir”, diz Perneco. “O comerciante recebe em euros e não é exposto a qualquer risco cambial, o que garante previsibilidade e simplicidade da gestão financeira do negócio”, complementa.

Para este ano, as empresas planejam aprofundar a utilização do PIX. “O objetivo não é apenas aumentar a rede, mas assegurar que o sistema se afirme como uma solução plenamente integrada, fiável e relevante”, diz Perneco. “Queremos ampliar a presença em Portugal e pensamos em chegar a outros países da Europa”, destaca. 

O Banco Central do Brasil (BCB) explicou que não é possível totalizar as movimentações sobre o PIX no exterior porque a transação só comporta transações domésticas, já que as duas pontas — recebedor e pagador — precisam ter contas no país.

Para que isso seja feito fora do território, é preciso que o pagador faça um PIX para o facilitador de pagamento internacional (e-FX), no caso o Braza Bank, e ele realiza a remessa internacional para o estabelecimento.

Expansão lenta em Portugal 

A EntreRios conversou com o Continente, a Worten e o El Corte Inglés para entender como tem sido a receptividade do uso do PIX após um ano de implementação. Apesar do avanço, nem todas relataram ter tido o mesmo sucesso. 

Continente anuncia que o PIX pode ser usado como pagamento mas na prática ainda há dificuldades. Crédito: Giulie Carvalho

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A rede Continente começou a oferecê-lo há exatamente um ano em seis lojas de Braga. Depois, para mais 18 lojas nas regiões de Lisboa, Oeiras e Cascais, totalizando 24 unidades. “O PIX foi bem recebido. Proporciona maior conveniência aos clientes que valorizam os pagamentos instantâneos pelo telemóvel”, afirmou a empresa em nota oficial.

A espanhola El Corte Inglés implementou o PIX nas suas duas lojas, em Lisboa e em Vila Nova de Gaia, em janeiro de 2025, e considera ter sido um sucesso. A solução está em três pontos da loja, a International Desk, Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) e Club del Gourmet.

“O feedback que recebemos reforça que este novo meio de pagamento está a ser valorizado pela rapidez, segurança e conveniência de um sistema amplamente conhecido no Brasil. Progressivamente, será um dos meios de pagamento mais relevantes nas nossas lojas”, destaca a nota.

O objetivo é chegar a todos os terminais de pagamento das lojas e expandir para a Espanha, sede principal da marca. Já a Worten começou os primeiros testes em maio. Hoje, o PIX está presente em 16 lojas na região norte, especialmente em Aveiro e Braga. Um dos objetivos é alcançar turistas brasileiros que têm limitações para o uso dos cartões de crédito portugueses. Segundo a empresa, porém, seu impacto tem sido reduzido.

“Parte significativa do público alvo já possui conta bancária em Portugal e acesso a instituições de crédito locais”, destaca Nuno Natário, Head de serviços da Worten. “Será preciso fazer testes em regiões com mais turistas brasileiros, e só depois tomar uma decisão sobre a expansão”, finalizou. 

Em duas lojas Continente em Lisboa, os resultados decepcionaram. Em uma das lojas, não era possível realizar a compra porque o sistema para pagamentos estava fora do ar.

Na outra, a gerente estava operando a maquininha com o PIX pela primeira vez e  não conseguiu localizar o código de acesso para o pagamento. Desde agosto, o PIX foi utilizado só duas vezes na loja e, portanto, não fazia parte da rotina. 

renan@revistaentrerios.pt

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