Pobreza energética

Por que as casas em Portugal são tão frias no inverno e quentes no verão e o que é preciso pra mudar esse cenário?

Com construções pouco eficientes, o país enfrenta um dos maiores índices de pobreza energética da Europa, com efeitos na saúde e no bem-estar

Março 13, 2026

Maioria dos moradores de Portugal sente frio dentro da própria casa. Crédito: Canva
Maioria dos moradores de Portugal sente frio dentro da própria casa. Crédito: Freepik

Viver em Portugal pode parecer mais tranquilo com relação ao clima, já que possui temperaturas mais agradáveis em relação a muitos outros países da Europa. Mas quem vive em território luso sabe que essa realidade pode ser um pouco diferente especialmente em relação aos dias mais frios do inverno e também mais quentes do verão.

Com muitos prédios antigos, instalações precárias e a falta de aquecimento adequado, os moradores de Portugal costumam passar muito frio dentro de suas próprias casas, uma realidade muito diferente em relação a outros países da Europa.

A situação de desconforto dentro do lar, a falta de capacidade de pagar pelo aquecimento e de arcar com os custos de uma conta de luz que fica cada vez mais elevada é denominada na Europa como pobreza energética, um conceito muito comum no Velho Continente.

Pobreza energética pode afetar famílias que não estão em situação de pobreza. Crédito: Freepik

Portugal é um dos países europeus que mais sofrem com a pobreza energética. Segundo o Eurostat, Portugal foi o 4º da União Europeia com maior percentual de pessoas incapazes de aquecer adequadamente a própria casa: 14,5% da população.

Já o Observatório da Pobreza Energética, iniciativa da Adene – Agência para a Energia e da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), aponta que, em 2024, 15,7% da população vivia sem ter capacidade financeira para aquecer a casa, mais de 700 mil pessoas viviam nessas condições e 29,9% não vive confortável em sua casa durante o verão.

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Um inquérito da Fixando, plataforma de contratação de serviços online em Portugal, em dezembro de 2025, revelou que 67% dos portugueses considera a sua casa fria durante o inverno, enquanto 52% avalia negativamente o conforto térmico. A preocupação com os custos é evidente: 75% afirma preocupar-se muito com o dinheiro gasto em aquecimento, e 90% tenta poupar na utilização dos sistemas devido ao preço elevado da eletricidade.

Mas por que Portugal vive essa situação?

Especialistas ouvidos pela EntreRios explicaram as razões e apontaram quais os principais problemas relacionados à pobreza energética, além de possíveis soluções.

Pedro Palma, do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade (CENSE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, explica que a pobreza energética está relacionada à pobreza econômica, mas não necessariamente há uma relação direta entre ambos os fatores.

Projeto da cooperativa Copernico visa reformar casas para oferecer mais conforto térmico aos moradores. Crédito: Divulgação Copernico

“Podem haver famílias que possuem um nível médio de rendimentos mensais, mas que não conseguem manter as temperaturas adequadas em suas casas e, se fossem aumentar o gasto com energia seria incompatível um gasto não compatível com seus rendimentos. A pobreza energética não depende só dos rendimentos, é um problema multidimensional”, define ele.

Para o especialista, a principal causa do problema está na qualidade das habitações que apresentam baixa eficiência térmica, como janelas inadequadas, ausência de isolamento ou telhados pouco preparados para regular a temperatura.

Essas falhas fazem com que as casas necessitem de grandes quantidades de energia para manter uma temperatura confortável, tanto no inverno quanto no verão. O resultado é um cenário recorrente de desconforto térmico.

“Nos anos 1970 e 1980 houve um boom de construção necessário nos grandes centros urbanos porque havia poucas habitações para viver. Houve muitas construções realizadas de forma irregular, com baixos desempenhos térmicos e qualidades muito variáveis”, explica. O primeiro Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifícios (RCCTE) só foi instituído no país em 1990.

Para Nuno Clímaco, engenheiro e consultor na área de eficiência energética na Lisboa E-Nova, Agência de Energia e Ambiente de Lisboa e que colaborou num inquérito sobre o assunto, detalha que a minoria dos edifícios da cidade foi construída nos últimos 20 anos, o que faz com que muitas habitações estejam longe das condições ideais, com certificados energéticos de nível C ou inferior (longe do ideal A ou A+).

“Apesar de algumas já terem mudado há pouco tempo e terem melhorado o sistema de aquecimento de águas, por exemplo, os prédios continuam a ter paredes e coberturas de baixa qualidade, que deixam passar muito frio ou muito calor. São necessários investimentos para a renovação do parque edificado, com melhores isolamentos das coberturas e fachadas, substituição de janelas e equipamentos mais eficientes”, ressalta.

Para os especialistas, também há falta de equipamentos adequados para o aquecimento ou resfriamento das casas. Apenas 20% das habitações no país possuem ar-condicionado.

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“Muitas vezes as pessoas recorrem à ventoinhas ou outras formas de ventilação mecânica que não baixam verdadeiramente a temperatura, apenas fazem o ar circular, o que pode gerar impactos à saúde. E o custo para a compra de ar-condicionado ainda é muito elevado para as famílias”, afirma Palma.

Projeto da cooperativa Copernico visa reformar casas para oferecer mais conforto térmico aos moradores. Crédito: Divulgação Copernico

“É importante oferecer ferramentas para que as famílias mais vulneráveis possam fazer a substituição de um equipamento a gás por um elétrico, ou de substituir aquecedores a óleo, por exemplo, que não possuem a mesma eficiência”, resume Clímaco.

Segundo a plataforma Fixando, as soluções de aquecimento começam a partir de um investimento inicial de 298 euros, o que pode representar um grande impacto financeiro para as famílias. Apesar disso, tem havido maior procura de soluções por parte das famílias, especialmente em um contexto maior de mudanças climáticas.

“A procura por serviços ligados à eficiência energética e conforto térmico cresceu 4% em 2025 face a 2024, depois de já ter aumentado 16% em 2024, indicando maior consciencialização das famílias”, Alice Nunes, Diretora de Novos Negócios da plataforma Fixando.

Saúde e qualidade de vida

Eles ainda destacam que a pobreza energética pode levar a diversos problemas de saúde, como problemas respiratórios e cardiovasculares e o agravamento de doenças crônicas, além da piora na qualidade de vida das pessoas.

As pessoas não têm noção do impacto que uma casa fria no inverno ou uma casa quente no verão tem, por exemplo, na qualidade do sono. A pessoa acaba por não descansar o suficiente e acaba por não estar bem no dia seguinte. Pode ter impactos em diversos níveis”, destaca Climaco.

Pobreza energética pode agravar doenças e trazer uma piora para a qualidade de vida. Crédito: Freepik

“Portugal apresenta níveis de mortalidade excessiva no inverno — e até no verão — mais elevados do que países com invernos mais severos”, observa Palma.

Há ainda aspectos sociais apontados por ele, já que o desconforto térmico e a presença do bolor e da umidade pode fazer com que as pessoas não queiram receber pessoas em suas casas, levando a um isolamento social.

Os especialistas ainda apontam que muitas gerações de portugueses acostumaram a usar casacos, mantas e cobertores dentro de casa, o que confere um aspecto de normalidade à pobreza energética.

Custos da eletricidade

O cenário todo leva a um maior consumo de energia, o que aumenta os custos para os consumidores, prejudicando especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade social.

A elevada preocupação com os custos de aquecimento (75%) e a tendência para reduzir o uso de sistemas devido ao preço da eletricidade (90%) revelam um país onde o acesso ao conforto térmico básico ainda depende fortemente da capacidade financeira de cada agregado”, analisa Alice

Ela explica que o fator econômico é essencial para que as famílias restrinjam a utilização de equipamentos de aquecimento ou de resfriamento. “O contexto estrutural é agravado pelo aumento dos custos de eletricidade. Muitas famílias reduzem o seu consumo prejudicando o consumo à custa do conforto e também da saúde”, destaca a especialista.

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A melhoria da eficiência energética das residências também ajudaria a promover melhor conforto térmico, o diminuindo o consumo e o impacto financeiro da energia, segundo os especialistas.

Essa dificuldade financeira se dá mesmo com a existência de uma matriz energética limpa, especialmente eólica e hidrelétrica, que chegou a 80,7% da eletricidade gerada em janeiro de 2026, segundo a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) e que tem contribuído para reduzir os custos de produção de energia, especialmente em um cenário de guerras e de aumento dos preços de petróleo e gás natural.

Mesmo assim, o preço da eletricidade ainda não é suficientemente baixo para aliviar de forma significativa o peso da energia no orçamento das famílias, especialmente por conta do poder de compra da população. “Mesmo tendo preços relativamente acessíveis no contexto europeu, quando os comparamos ao poder de compra da população isso contribui para a existência da pobreza energética”, reitera Climaco.

Em junho de 2025, cerca de 768 mil famílias portuguesas beneficiavam da tarifa social de eletricidade, um apoio que aplica um desconto de 33,8% na fatura mensal de energia. Apesar do aumento de 20 mil famílias em relação ao mês anterior, os números ainda são considerados baixos no contexto daqueles que vivem em pobreza energética.

“Paralelamente, a baixa adesão e conhecimento dos programas públicos de apoio à eficiência energética limita a concretização de intervenções de reabilitação capazes de mitigar de forma permanente estas perdas térmicas”, destaca Alice.

Palma ressalta que há dificuldades para que as pessoas consigam os apoios necessários, como dificuldades burocráticas, falta de informação, barreiras digitais e baixa confiança de populações vulneráveis nas instituições. “Existe dificuldades para candidaturas online a apoios que normalmente são complexas. Muitos programas também não são feitos de forma direcionada para levar em conta as características dessas populações mais vulneráveis”, critica.

Qual é a solução?

Os especialistas defendem a continuidade de políticas de energia renovável, além de incentivos para combater a pobreza energética. A Adene quer solucionar a questão até 2050, o que é considerado ambicioso por Nuno Clímaco.

Segundo ele, é preciso pensar na transição energética de maneira mais ampla, de modo a considerar também aspectos de mobilidade e de transportes. “É preciso ter um misto de iniciativas. Não é apenas com a energia barata que conseguiremos combater a pobreza energética”, define.

Especialistas também defendem uma atuação mais integrada e que leve em conta a política habitacional e uma visão estratégica para o território, com um plano consistente de reabilitação e modernização das habitações.

“Não basta apoiar pontualmente o pagamento de faturas. A reabilitação energética do parque habitacional deve ser uma prioridade, com incentivos claros, simples e acessíveis. Os programas públicos precisam de menos burocracia e de modelos que não obriguem as famílias mais vulneráveis a suportar primeiro o investimento”, destaca Sara de Oliveira, proprietária da empresa de construção Medeiros & Cia, que utiliza a plataforma da Fixando.

Eles ressaltam ainda a necessidade de reforçar a educação e a literacia energética. “É fundamental ensinar as pessoas a gerir a sua casa (aproveitar a radiação solar, ventilação cruzada noturna no verão e o uso correto de equipamentos) para maximizar o conforto com o menor gasto possível”, esclarece Fernando Verdolin, operador da Groundforce Portugal, parceiro da Fixando.

Para enfrentar o problema, Pedro Palma defende uma abordagem mais descentralizada, com maior envolvimento de governos locais, universidades e organizações da sociedade civil.

De acordo com ele, projetos de investigação têm buscado identificar com maior precisão os bairros e edifícios mais vulneráveis, combinando dados administrativos e informações de inquéritos nacionais, visando apoiar municípios na criação de políticas locais mais direcionadas. Para ele é necessário o envolvimento das autoridades locais no assunto.

É preciso de uma estratégia conjunta entre as autoridades locais e a administração nacional. Esta colaboração entre diferentes atores é muito importante para abordar a pobreza energética”, conclui.

renan@revistaentrerios.pt

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