Copa do Mundo

Por que Bangladesh ama o futebol brasileiro? Diretor do filme ‘Dhaka Vibra’ responde

Em entrevista, Rafael Bergamaschi conta como Pelé, Zico e a Copa do Mundo aproximaram bengalis de Brasil e Argentina

Julho 19, 2026

Torcedor segura a bandeira de Bangladesh com a camisa metade Brasil e metade Argentina. Reprodução Globoplay

A mais de 15 mil quilômetros do Brasil existe um país onde a Copa do Mundo transforma ruas, bairros e cidades inteiras em um espetáculo de cores verde e amarela. Bangladesh, no sul da Ásia, vive o futebol com intensidade surpreendente, mesmo sem nunca ter disputado o principal torneio da modalidade. A cada Mundial, bandeiras gigantes cobrem edifícios, torcedores pintam o corpo, organizam carreatas e lotam as ruas para acompanhar os jogos da Seleção Brasileira ou da Argentina, em uma rivalidade que atravessou oceanos e se consolidou como parte da identidade cultural do país.

Essa paixão, porém, vai muito além dos gramados. Para muitos bengalis, o Brasil representa uma história de esperança e superação. A trajetória de Pelé, o menino pobre que venceu a fome, as dificuldades da infância e se tornou o maior jogador de futebol de todos os tempos, encontrou identificação em um país que também convive, historicamente, com desafios sociais, econômicos e climáticos. O Rei do Futebol transformou-se em um símbolo capaz de aproximar duas nações distantes por meio de uma linguagem universal: a emoção despertada pelo futebol, seja na alegria de uma vitória, seja na frustração de uma derrota.

Torcedores bengalis que são pró-Seleção Brasileira. Reprodução da Globoplay do documentário Dhaka Vibra

É justamente essa conexão improvável que o documentário Dhaka Vibra: aventuras futebolísticas em Bangladesh procura revelar. Dirigido por Rafael Bergamaschi e lançado em junho, com produção executiva de André Singer, o filme acompanha a Copa do Mundo de 2022 para mostrar como a rivalidade entre Brasil e Argentina ganhou vida própria do outro lado do planeta. Em cerca de 50 minutos, a produção demonstra que o futebol ultrapassa fronteiras geográficas e políticas, funcionando como uma ponte entre culturas que compartilham os mesmos sentimentos diante de uma bola rolando: expectativa, pertencimento, alegria e frustração.

Em entrevista exclusiva à EntreRios, Rafael Bergamaschi fala sobre as descobertas da viagem, o acolhimento que recebeu no país asiático, a força do futebol como elo entre culturas, sua relação com Portugal e os motivos que fazem milhões de bengalis carregarem o Brasil no coração.

Depois de passar 35 dias filmando em Bangladesh, qual foi a maior surpresa que você trouxe de volta dessa experiência?

O que eu passei em Bangladesh foi realmente uma aventura que me mudou profundamente. Aprendi muito, cresci como ser humano. Não esperava voltar dessa viagem com tantos amigos verdadeiros; acho que essa foi minha maior surpresa, o acolhimento que eu tive no país. Serei eternamente grato.

O documentário vai ser exibido em Portugal? O que você espera que o público brasileiro e português que mora aqui sinta ou descubra ao assistir a Dhaka Vibra? Aliás, você tem alguma relação com Portugal?

Adoraria exibir o filme em Portugal! Até o momento não recebemos nenhum convite, mas seria um grande prazer. Eu tenho relação com Portugal, sim. Tenho dupla nacionalidade, sou brasileiro e português. Quanto ao que eu espero que a audiência sinta com o filme, talvez a principal mensagem seja sobre a importância de olhar o outro no olho, de valorizar aquilo que compartilhamos culturalmente. Acredito que o futebol pode ser um ponto de partida que nos ajude a nos reconectar com o próximo, um ritual compartilhado.

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Você descobriu essa história em Nova York, conversando com imigrantes de Bangladesh. Qual o seu olhar para a questão da imigração e para essas comunidades?

Torcedores bengalis que são pró-Seleção Argentina. Reprodução da Globoplay do documentário Dhaka Vibra

A imigração é parte da vida, parte da nossa história enquanto seres errantes. Que chato seria se todos nascêssemos e morrêssemos no mesmo lugar, sem contato com outras culturas, com outras formas de viver. Bangladesh tem uma das maiores diásporas do mundo; é um país que sofre muito com desastres naturais, com falta de recursos. Países com mais estrutura têm a responsabilidade de olhar por aqueles com maior necessidade.

O que explica essa paixão do povo de Bangladesh pelo futebol do Brasil e da Argentina? Pode dar um pequeno spoiler do filme?

As Copas de 1982 e 1986 foram as primeiras em Bangladesh a serem acompanhadas pela televisão em cores, que demorou um pouco para chegar ao país. Ali eles foram apresentados a craques como Zico e Maradona, que se tornaram grandes ídolos. A partir de então foi nascendo essa paixão, que se tornou geracional, passando de pais para filhos. Pelé é outro grande ídolo por lá. Sua carreira e os feitos da seleção brasileira são ensinados na escola, então eles já crescem com esse conhecimento.

Você acha que, para quem vive longe do seu país, o futebol acaba sendo também uma forma de manter uma conexão com a própria identidade?

Torcedor bengali emocionado quando o Brasil perdeu para a Croácia na Copa do Mundo de 2022. Reprodução da Globoplay do documentário Dhaka Vibra

Sim, com certeza. Quando estamos longe nos apegamos àquilo que nos lembra quem somos. Eu mesmo passei por isso. Sou torcedor do Palmeiras, e notei que quando me mudei para os Estados Unidos fiquei muito mais fanático, acompanhando os jogos e torcendo com muito mais afinco, ainda que sozinho. Coisa mais triste quando o seu time ganha um campeonato e você é o único berrando, sem ninguém para abraçar, sem o som de fogos de artifício. Mas faz parte da experiência enquanto imigrante. Pelo menos quando o time perde não tem ninguém para tirar sarro.

A final da Copa do Mundo acontece neste domingo e os argentinos estão muito presentes no documentário. Como acha que estarão as ruas de Bangladesh?

As ruas de Bangladesh estarão alvicelestes, repletas de gente gritando “Messi”, corpos pintados com a bandeira da Argentina, motos acelerando e buzinando, bandeiras hasteadas do alto de edifícios. Cornetas, vuvuzelas e buzinas de todo tipo ajudarão a compor a trilha sonora eufórica.

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Depois de tudo o que você viveu e filmou em Bangladesh, para quem você vai torcer?

Quando a Argentina ganhou a Copa do Mundo de 2022. Reprodução da Globoplay do documentário Dhaka Vibra

(Risos.) Eu ainda sou brasileiro, não posso torcer para a Argentina, ainda mais com eles se aproximando cada vez mais do nosso pentacampeonato. Neste domingo, serei espanhol desde criancinha.

Trailer

Serviço

Documentário: Dhaka Vibra: aventuras futebolísticas em Bangladesh
Direção: Rafael Bergamaschi
Produção executiva: André Singer
Duração: 50 minutos
Onde assistir: Globoplay

fernanda@revistaentrerios.pt

Fernanda Baldioti
fernanda@revistaentrerios.pt