A mais de 15 mil quilômetros do Brasil existe um país onde a Copa do Mundo transforma ruas, bairros e cidades inteiras em um espetáculo de cores verde e amarela. Bangladesh, no sul da Ásia, vive o futebol com intensidade surpreendente, mesmo sem nunca ter disputado o principal torneio da modalidade. A cada Mundial, bandeiras gigantes cobrem edifícios, torcedores pintam o corpo, organizam carreatas e lotam as ruas para acompanhar os jogos da Seleção Brasileira ou da Argentina, em uma rivalidade que atravessou oceanos e se consolidou como parte da identidade cultural do país.
Essa paixão, porém, vai muito além dos gramados. Para muitos bengalis, o Brasil representa uma história de esperança e superação. A trajetória de Pelé, o menino pobre que venceu a fome, as dificuldades da infância e se tornou o maior jogador de futebol de todos os tempos, encontrou identificação em um país que também convive, historicamente, com desafios sociais, econômicos e climáticos. O Rei do Futebol transformou-se em um símbolo capaz de aproximar duas nações distantes por meio de uma linguagem universal: a emoção despertada pelo futebol, seja na alegria de uma vitória, seja na frustração de uma derrota.

É justamente essa conexão improvável que o documentário Dhaka Vibra: aventuras futebolísticas em Bangladesh procura revelar. Dirigido por Rafael Bergamaschi e lançado em junho, com produção executiva de André Singer, o filme acompanha a Copa do Mundo de 2022 para mostrar como a rivalidade entre Brasil e Argentina ganhou vida própria do outro lado do planeta. Em cerca de 50 minutos, a produção demonstra que o futebol ultrapassa fronteiras geográficas e políticas, funcionando como uma ponte entre culturas que compartilham os mesmos sentimentos diante de uma bola rolando: expectativa, pertencimento, alegria e frustração.
Em entrevista exclusiva à EntreRios, Rafael Bergamaschi fala sobre as descobertas da viagem, o acolhimento que recebeu no país asiático, a força do futebol como elo entre culturas, sua relação com Portugal e os motivos que fazem milhões de bengalis carregarem o Brasil no coração.
Depois de passar 35 dias filmando em Bangladesh, qual foi a maior surpresa que você trouxe de volta dessa experiência?
O que eu passei em Bangladesh foi realmente uma aventura que me mudou profundamente. Aprendi muito, cresci como ser humano. Não esperava voltar dessa viagem com tantos amigos verdadeiros; acho que essa foi minha maior surpresa, o acolhimento que eu tive no país. Serei eternamente grato.
O documentário vai ser exibido em Portugal? O que você espera que o público brasileiro e português que mora aqui sinta ou descubra ao assistir a Dhaka Vibra? Aliás, você tem alguma relação com Portugal?
Adoraria exibir o filme em Portugal! Até o momento não recebemos nenhum convite, mas seria um grande prazer. Eu tenho relação com Portugal, sim. Tenho dupla nacionalidade, sou brasileiro e português. Quanto ao que eu espero que a audiência sinta com o filme, talvez a principal mensagem seja sobre a importância de olhar o outro no olho, de valorizar aquilo que compartilhamos culturalmente. Acredito que o futebol pode ser um ponto de partida que nos ajude a nos reconectar com o próximo, um ritual compartilhado.
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Você descobriu essa história em Nova York, conversando com imigrantes de Bangladesh. Qual o seu olhar para a questão da imigração e para essas comunidades?

A imigração é parte da vida, parte da nossa história enquanto seres errantes. Que chato seria se todos nascêssemos e morrêssemos no mesmo lugar, sem contato com outras culturas, com outras formas de viver. Bangladesh tem uma das maiores diásporas do mundo; é um país que sofre muito com desastres naturais, com falta de recursos. Países com mais estrutura têm a responsabilidade de olhar por aqueles com maior necessidade.
O que explica essa paixão do povo de Bangladesh pelo futebol do Brasil e da Argentina? Pode dar um pequeno spoiler do filme?
As Copas de 1982 e 1986 foram as primeiras em Bangladesh a serem acompanhadas pela televisão em cores, que demorou um pouco para chegar ao país. Ali eles foram apresentados a craques como Zico e Maradona, que se tornaram grandes ídolos. A partir de então foi nascendo essa paixão, que se tornou geracional, passando de pais para filhos. Pelé é outro grande ídolo por lá. Sua carreira e os feitos da seleção brasileira são ensinados na escola, então eles já crescem com esse conhecimento.
Você acha que, para quem vive longe do seu país, o futebol acaba sendo também uma forma de manter uma conexão com a própria identidade?

Sim, com certeza. Quando estamos longe nos apegamos àquilo que nos lembra quem somos. Eu mesmo passei por isso. Sou torcedor do Palmeiras, e notei que quando me mudei para os Estados Unidos fiquei muito mais fanático, acompanhando os jogos e torcendo com muito mais afinco, ainda que sozinho. Coisa mais triste quando o seu time ganha um campeonato e você é o único berrando, sem ninguém para abraçar, sem o som de fogos de artifício. Mas faz parte da experiência enquanto imigrante. Pelo menos quando o time perde não tem ninguém para tirar sarro.
A final da Copa do Mundo acontece neste domingo e os argentinos estão muito presentes no documentário. Como acha que estarão as ruas de Bangladesh?
As ruas de Bangladesh estarão alvicelestes, repletas de gente gritando “Messi”, corpos pintados com a bandeira da Argentina, motos acelerando e buzinando, bandeiras hasteadas do alto de edifícios. Cornetas, vuvuzelas e buzinas de todo tipo ajudarão a compor a trilha sonora eufórica.
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Depois de tudo o que você viveu e filmou em Bangladesh, para quem você vai torcer?

(Risos.) Eu ainda sou brasileiro, não posso torcer para a Argentina, ainda mais com eles se aproximando cada vez mais do nosso pentacampeonato. Neste domingo, serei espanhol desde criancinha.
Trailer
Serviço
Documentário: Dhaka Vibra: aventuras futebolísticas em Bangladesh
Direção: Rafael Bergamaschi
Produção executiva: André Singer
Duração: 50 minutos
Onde assistir: Globoplay
fernanda@revistaentrerios.pt