Por que cada vez mais mulheres estão escolhendo ficar solteiras?
De Carrie Bradshaw ao movimento 4B, independência e autocuidado redefinem o amor
- Lisboa
Abril 17, 2026
Quem acompanhou a vida amorosa da personagem Carrie Bradshaw na série Sex and the city (1998) lembra qual era o sonho dela: viver feliz para sempre com o príncipe encantado, o Mr. Big. A história terminou com esse final romântico.
Quase vinte anos depois, veio a sequência And just like that (2021), mas com uma narrativa totalmente diferente. Dessa vez, o final feliz da protagonista é consigo mesma. Ambas as séries refletem a radical mudança de comportamento que vigora até os dias atuais.
Se antes o sonho quase unânime era casar e formar uma família, hoje muitas mulheres preferem a liberdade de viver sozinhas, de serem solteiras (eternas?). Essa nova escolha atravessa todas as faixas etárias e reúne mulheres que não desejam casar ou assumir os compromissos que uma relação tradicional acarreta.
A atriz britânica Emma Watson, 35 anos, criou o termo self-partnered, ou auto-parceira, para definir um novo estado civil feminino.

Na Coreia do Sul, surgiu o movimento 4B, em 2018, que ganha força, embora radicalize mais do que a maioria das mulheres prefere.
Ele propõe quatro “nãos”: não casar, não namorar, não ter relações sexuais e não ter filhos. Coincidência ou não, o país registra uma das menores taxas de natalidade do mundo, com cada vez mais mulheres adiando ou evitando o casamento. Até 2030, cerca de 45% das mulheres entre 25 e 44 anos devem estar solteiras e sem filhos, estima pesquisa americana. Especialistas já batizaram o fenômeno de “avanço da mulher solteira”.
O movimento surge como protesto contra a desigualdade de gênero. Em uma sociedade patriarcal, muitas mulheres sentem pressão para formar família, enfrentam desigualdades no trabalho e carregam o receio de cuidar sozinhas da casa e dos filhos. O fenômeno não se restringe ao país asiático. Em todo o mundo ocidental, é forte a pressão dos padrões.

Marcela Barbosa, brasileira de 44 anos, ativista, analista judiciária e mestre em Direitos Humanos, trabalha em uma ONG na Espanha e se identifica com esse perfil. “Temos mais independência econômica, maior nível educacional e acesso à informação. Investimos no autoconhecimento, o que amplia a percepção sobre os próprios sentimentos e permite avaliá-los com mais clareza”, explica ela.
Marcela não busca estar sozinha, mas se recusa a entrar em relações que não valem a pena: “É uma forma de preservar minha saúde mental e me proteger de relacionamentos tóxicos, violentos ou desequilibrados. Hoje, meu grande amor sou eu”.

Joana Girão, portuguesa de 45 anos e tripulante de cabine, concorda: “Relacionamentos, hoje, são mais desafiadores porque as pessoas se tornam descartáveis. O compromisso verdadeiro é raro, e há uma incoerência entre o que se diz querer e o que se faz para conquistar e manter o outro”. Ela acrescenta que não tem medo do compromisso, mas que “mulheres não estão mais dispostas a pagar certos preços para ter uma família, como se submeter, depender ou assumir sobrecarga física e emocional muito maior que a dos companheiros”.
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Essa visão é compartilhada pela atriz Mônica Martelli, 57 anos, conhecida por personagens em filmes e peças de teatro que falam de relacionamentos e independência feminina. Ela mantém um relacionamento amoroso com o empresário ítalo-brasileiro Fernando Altério há sete anos, mas eles não compartilham casa e rotina.
Mônica diz que a relação funciona melhor assim e que namorar é muito melhor do que coabitar. A cantora carioca Anitta, 32 anos, defende a liberdade emocional e diz não precisar de um relacionamento fixo para se sentir completa.

Alexandra Cordeiro, psicóloga clínica em Portugal, observa que as mulheres têm menor tolerância para compartilhar a vida no padrão tradicional, atualmente. “Especialmente, quando falamos de divisão de tarefas. A mulher cada vez mais se emancipa e se desvincula daquela figura que assumia a maior parte do trabalho doméstico”.
Segundo ela, modelos de relacionamento em que cada um vive em sua própria casa têm surgido como forma de equilibrar essa dinâmica. Mas, para Alexandra, essas relações são “pobres emocionalmente”, porque a distância impede profundidade e crescimento. “É junto com alguém que criamos e curamos nossos traumas. Quanto mais superficial for a convivência, menor a chance de isso acontecer”, explica.

Joana reforça: “Somos a primeira geração com liberdade real de entrar ou sair de um relacionamento dependendo de sua qualidade”. E Marcela esclarece o que muitas defendem: “Não estou fechada para me relacionar e amar alguém, mas não me interessam as parcerias sem honestidade. Não queremos homens comodistas, mas, sim, pessoas disponíveis para evoluir, aprender a amar e cuidar de forma ampla e genuína”.
Entre expectativas desencontradas, o risco do sentimento de solidão acaba sendo um desafio, ainda que as mulheres tenham amigas, hobbies e fortes redes de apoio.
Segundo a psicóloga, a sociedade atual não favorece relações, sejam emocionais, familiares ou qualquer vínculo que exija compromisso, porque o excesso de trabalho e o estresse consomem muita energia e diminuem a tolerância para os conflitos do dia a dia. As pessoas estão exaustas e sem capacidade para investir no amor.
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FILHOS? NÃO, OBRIGADA
Existe uma designação para as mulheres que não querem ter filhos: NoMo, termo que vem do inglês not mothers (mães não). A psicóloga Alexandra Cordeiro explica a decisão de não encarar a maternidade: “Neste momento, elas escolhem o próprio bem-estar. O que é difícil não é ser mãe, mas assumir quase toda a responsabilidade sozinha, essa sobrecarga mental e física de cuidar de uma criança, muitas vezes sem suporte”.
O especialista em felicidade Paul Dolan, autor de uma pesquisa realizada pela London School of Economics, indica que as mulheres solteiras e sem filhos “são as mais felizes”. Dolan observa que os homens se beneficiam mais do casamento do que as mulheres em geral. Homens casados se tornam mais calmos, ganham mais dinheiro e vivem mais tempo.
Os mesmos resultados, no entanto, não se aplicam, geralmente, às mulheres. E, se acrescentarmos os filhos, as possíveis traições ou maus-tratos, fica fácil entender por que tantas mulheres estão deixando de lado o projeto “família” para privilegiar o projeto de autocuidado.
susana@revistaentrerios.pt