Vai um copo?

Por que este vinho de Évora custa 480 euros e leva 10 anos para ficar pronto?

O rótulo renasce pelas mãos de António Maçanita após séculos de história adormecida: a primeira referência ao vinho surge em 1321

Dezembro 18, 2025

Vinho Enxarrama 2015. Crédito: Renata Telles
O vinho Enxarrama 2015 é raro e intenso. Crédito: Renata Telles

Esperar 10 anos para abrir uma garrafa de vinho? E ainda pagar 480 euros por ela? No caso do Enxarrama, recém-lançado por António Maçanita, cada minuto (e cada euro!)  tem explicação.

O rótulo renasce após séculos de história adormecida: a primeira referência ao vinho surge em 1321, e uma nota de prova de 1867 descreve-o como um dos tintos mais intensos e emblemáticos de Évora.

“Ele muito especial porque não é fácil encontrar na Europa um vinho com tanta importância num determinado local. Temos o desafio de reabilitar essa memória coletiva, que descontinuou no final do século XIX, colocar nosso melhor esforço, e engarrafar”, diz Maçanita à EntreRios.

Para recuperar esse perfil perdido no tempo, Maçanita mergulhou em documentos antigos, selecionou uvas de vinhas com mais de 25 anos e submeteu o vinho a um estágio de uma década.

“É um processo… Não só escolher o melhor do melhor do melhor, mas  saber esperar. Muitas vezes é uma coisa que nos falta. É preciso ter paciência e lançar o vinho já com sua maturidade boa”.

O resultado é um tinto raro, profundamente ligado à memória vitivinícola da região e à ambição do enólogo de reconstruir um clássico que quase se tornou lenda. Nesta edição, são apenas 944 garrafas.

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A história

O renascimento do Enxarrama não aconteceu por acaso. Obcecado por entender as raízes de Évora, Maçanita mergulhou na história do Paço do Morgado de Oliveira, propriedade que adquiriu em 2016, e descobriu que as terras ligadas ao edifício medieval, datado de 1304, incluíam a zona do Louredo, considerada a mais antiga área de vinhas da cidade.

Paço do Morgado de Oliveira. Crédito: Francisco Nogueira
Paço do Morgado de Oliveira. Crédito: Francisco Nogueira

Ali, antigos registros mencionavam um vinho produzido nas margens do rio Enxarrama (hoje rio Xarrama), celebrado pela sua força, textura e caráter singular.

Com essa pista, Maçanita decidiu fazer o impossível: recriar um vinho do qual já não restavam garrafas, apenas memória.

Para isso, reuniu historiadores, revisitou mapas, estudou castas tradicionais da região e usou como bússola a nota de prova escrita em 1867 pelo engenheiro agrícola Ferreira Lapa, um documento minucioso que descrevia o que teria sido o autêntico Enxarrama.

O vinho Enxarrama repousa por 10 anos. Crédito: Renata Telles
O rótulo renasce após séculos de história adormecida. Crédito: Renata Telles.

Daí nasceu a versão 2015, composta por Alicante Bouschet (85%), complementada por Aragonez, Trincadeira, Castelão e Moreto. As melhores uvas do ano foram vinificadas com curtimenta prolongada, entre 25 e 40 dias, antes de iniciarem um estágio de 10 anos.

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Servido a 16ºC, para ser apreciado a 18ºC, o Enxarrama pede pratos intensos: carnes de sabor marcado, queijos fortes e preparações ricas, capazes de acompanhar a sua estrutura.

Mercado no Brasil

Das quase mil garrafas produzidas, algumas já seguem rumo ao Brasil para serem comercializadas. A edição anterior, o Enxarrama 2014, conquistou destaque no país ao vencer a “Batalha de Novos Ícones”, em São Paulo, numa prova às cegas realizada no ano passado.

O vinho Enxarrama repousa por 10 anos. Crédito: Renata Telles
O vinho Enxarrama repousa por 10 anos em barricas. Crédito: Renata Telles.

Segundo Maçanita, o mercado brasileiro vive um momento de maior maturidade.

“Fiquei afastado do Brasil por um tempo e regressei há cinco anos. Notei uma mudança clara no perfil do consumidor: há um interesse crescente em aprender sobre vinho. Existe hoje uma comunidade impressionante de apreciadores, sommeliers e profissionais”, finaliza o enólogo.

Renata Telles
renata@revistaentrerios.pt

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