Porque a adolescência é tão intensa?
É uma fase que deixa os filhos confusos e os pais desorientados, mas é passageira. Explicamos por que isso acontece e como agir para reduzir os conflitos
- Lisboa
Março 15, 2026
Por mais que queiramos uniformizar meninos e meninas, biológica e quimicamente eles são diferentes. O que acontece com os seus corpos é diferente, e com as suas mentes também.
Colocando o foco mais nos rapazes, entre os 9 e os 15 anos, muitos se tornam mais impulsivos e até agressivos. O cérebro entra num pico de crescimento e a testosterona pode aumentar até 30 vezes. De repente, os pais se perguntam: o que aconteceu com aquele filho doce e educado que agora bate portas, fala alto e confronta quando contrariado?
O neurocientista Jay Giedd, que estudou por anos o cérebro adolescente concluiu que ele passa por alterações enormes e só atinge plena maturidade depois dos vinte e poucos anos. Em termos simples, o centro emocional desenvolve-se antes do centro de regulação.
Áreas como o córtex pré-frontal, responsáveis pelo controlo de impulsos, planeamento e tomada de decisões, amadurecem por último. O resultado são reações intensas, decisões precipitadas e uma sensação constante de agitação interior.
A testosterona, que dispara nesta fase, inunda o sistema antes que o cérebro tenha aprendido a regulá-la. As emoções são fortíssimas, o autocontrole é reduzido e o cérebro racional ainda é imaturo. Não se trata de má educação ou falha de caráter, trata-se de desenvolvimento neurológico.
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O sono permite a reorganização cerebral e melhora o humor
Adolescentes precisam de nove a dez horas de descanso por noite. A privação de sono pode tornar a regulação emocional até 60% mais difícil. Muitos vivem numa espécie de exaustão crônica, o que agrava conflitos e irritabilidade.
Busca por independência
A necessidade de pertencer a um grupo e de se afastar da família pode ser apenas temporário e não deve ser encarado como rejeição, é a preparação para a vida adulta. O cérebro está a reorganizar-se para a autonomia.
Diálogo difícil
Argumentar com alguém emocionalmente desregulado raramente resulta. Muitas vezes, o melhor é esperar que a calma regresse antes de tentar conversar.
O importante é saber que esta fase passa. Mas enquanto está a acontecer, exige um tipo diferente de comportamento dos pais: mais compreensão, firmeza tranquila e menos confronto direto.
O psiquiatra Daniel J. Siegel, autor de best-sellers como Mindsight e Ser Pais Conscientes, propõe uma visão mais ampla e positiva da adolescência. Para ele, este período, quando vivido de forma saudável, é de intensa conexão social, criatividade e busca pelo novo. Os adolescentes vivem com paixão, intensidade e entusiasmo, e isso é extraordinariamente valioso.
O desafio é que esse foco nas sensações positivas pode diminuir a percepção de risco. Por isso, mais do que impor controle, é essencial promover reflexão sobre valores, consequências e propósito.
A adolescência não é uma falha do desenvolvimento, mas uma etapa essencial de transformação. É intensa e desafiadora, mas também um período de construção profunda, onde se definem caminhos, crenças e identidades.
Com informação, empatia e consciência, pais e educadores podem atravessar este “caos” não como inimigos da mudança, mas como guias numa das fases mais intensas da vida.
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