Portugal além do vinho: descubra o turismo da cortiça no Alentejo
Líder mundial na produção do recurso natural, país oferece roteiro com trilhas entre sobreiros, museus interativos e visitas a fábricas
- Lisboa
Abril 13, 2026
Cortiça não é só rolha de vinho. Em Portugal, significa história, cultura e tradição. Entre trilhas, fábricas abertas à visitação e museus interativos no Alentejo, é possível acompanhar como a cortiça é extraída da árvore e, posteriormente, se transforma em objetos do dia a dia e muitas peças de moda e design.
O país é o maior produtor mundial deste recurso natural, sendo responsável por mais de 50% da produção global. O Alentejo concentra 72% dos sobreiros nacionais, fornecendo 46% de toda a matéria-prima utilizada no planeta. Em Coruche, no sul da região do Ribatejo — conhecida como a capital mundial da cortiça — são extraídos 8% da produção, resultando em cinco milhões de rolhas por dia destinadas a mercados nacionais e internacionais.
A cidade tem até uma semana de moda para chamar de sua, a Coruche Fashion Cork, além do Concurso de Ideias e Criatividade, que acontece anualmente na Feira Internacional da Cortiça.
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A matéria-prima é ecológica e versátil. “Designers e criadores são desafiados a desenvolver peças originais em que o material corticeiro assume um papel central como elemento de expressão, seja em vestuário, acessórios, calçado ou coordenados completos, explorando novas texturas, formas e aplicações inesperadas”, explica Susana Cruz, vice-presidente da Câmara Municipal de Coruche.

Na última edição, a estudante de design de moda Caetana dos Santos Sousa levou o primeiro lugar do concurso. “Foi um desafio diferente e bastante original e fora do comum, desde o desenvolvimento da ideia e desenho dos coordenados até à sua confecção. É uma alternativa sustentável ao couro, por ser 100% natural, renovável e biodegradável”, diz.
A experiência inclui uma programação cujo ponto de partida é o Observatório do Sobreiro e da Cortiça, espaço contemporâneo e interativo dedicado à valorização do montado (floresta de sobreiro) e do seu ecossistema. O edifício chama atenção imediata pelo projeto do arquiteto Manuel Couceiro, com formas orgânicas e totalmente revestido em cortiça. O local combina exposições imersivas, conteúdos audiovisuais e atividades educativas que ajudam a compreender os métodos de extração e as múltiplas aplicações da matéria-prima.
Já a trilha Caminhos do Vale ao Montado é um percurso pedestre circular com aproximadamente 10 km. A rota destaca-se pelas paisagens de sobreiros e o vale do rio Sorraia, oferecendo uma imersão na natureza do Ribatejo durante umas três horas. Dá para observar a fauna e a flora mediterrânica, incluindo diversas espécies de aves e a borboleta-cauda-de-andorinha, uma das mais bonitas de Portugal.
Casa do Montado
A cerca de uma hora de carro de Coruche, já no centro histórico de Évora, vale uma parada na Casa do Montado. O museu etnográfico apresenta, de forma acessível e envolvente, o ecossistema do Montado Alentejano, com atenção especial ao sobreiro e à produção de cortiça. Distribuído em sete salas expositivas, o espaço percorre a história do território, a biodiversidade e os modos de vida tradicionais ligados ao meio rural, a partir do acervo da Herdade do Passareiro.

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Em Azaruja, algumas fábricas abrem as portas para mostrar todo o processo, do descortiçamento ao produto final. Um bom exemplo é a Cortiçarte, fundada em 2020. Depois do tour, pode-se adquirir peças únicas, como abajures, esculturas, bolsas, chapéus, porta-copos e muito mais.

“Valorizar a cortiça é uma forma de fortalecer o território, apoiar as comunidades locais e preservar um estilo de vida comprometido com a sustentabilidade. O material também é uma forma de apresentar o Alentejo ao mundo”, diz José Manuel Santos, presidente da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo.
Da árvore ao produto

A primeira extração acontece quando o sobreiro tem entre 25 e 30 anos e o tronco, cerca de 70 centímetros de perímetro — lembrando que a árvore pode viver entre 170 e 200 anos. Retirada a casca, o sobreiro, que é super resistente, inicia um processo natural de regeneração, preparando a camada seguinte de cortiça. As próximas colheitas respeitam um intervalo mínimo de nove anos e são sempre feitas nos meses de verão. Cada camada é, depois, cuidadosamente selecionada e transformada: passa por secagem, prensagem e corte antes de se tornar rolhas, revestimentos ou outros produtos.
renata@revistaentrerios.pt