A história da Orquestra Maré do Amanhã começou no Rio de Janeiro, mas tem raízes profundas em Portugal. Criado em 2010 pelo maestro Carlos Eduardo Prazeres, o projeto nasceu da decisão de transformar uma tragédia familiar em uma iniciativa de inclusão social por meio da música. Filho do maestro português Armando Prazeres, natural de Arouca, Carlos escolheu justamente o Complexo da Maré, onde o carro do pai foi encontrado após seu assassinato, em 1999, para criar uma orquestra formada por crianças e jovens da comunidade.
Dezesseis anos depois, Portugal deixou de representar apenas a origem dessa história para se tornar um dos principais capítulos da trajetória internacional da instituição.

Essa conexão se fortaleceu nos últimos anos. Após participar da Jornada Mundial da Juventude, em 2023, a orquestra voltou à Europa em 2024 para se apresentar novamente ao papa Francisco, no Vaticano, e realizar um concerto no Teatro Tivoli, em Lisboa. Em 2026, regressou a Portugal para estrear no festival NOS Alive e lançar, na segunda-feira (13), na capital portuguesa, o livro Concerto para um sonho, que narra os primeiros 15 anos da instituição.
Mais do que apresentações internacionais, esses momentos consolidam uma relação duradoura e reforçam Portugal como parte da identidade da Orquestra Maré do Amanhã.
Um legado que começou em Arouca
Muito antes da criação da orquestra, Portugal já ocupava um lugar central na história da família Prazeres.
Armando Prazeres nasceu em Arouca e imigrou ainda criança para o Brasil. Tornou-se um dos principais defensores da democratização da música de concerto, criando coros, orquestras e levando apresentações a escolas e comunidades populares. Foi justamente esse trabalho que inspirou Carlos Eduardo a seguir o mesmo caminho.
A jornalista Hérica Marmo, autora do livro Concerto para um sonho, afirma que a origem portuguesa do maestro ajuda a explicar por que Portugal se tornou tão importante para a trajetória da instituição.
“A origem está aqui. O pai do Carlos era um maestro de Arouca que foi criança para o Brasil e se transformou numa referência. Ele defendia a popularização da música clássica, e o Carlos fazia esse trabalho com ele, levando a orquestra para escolas e comunidades.”
Segundo ela, o assassinato de Armando marcou profundamente a vida do filho, mas também deu origem ao projeto. “Quando o Carlos decidiu continuar o trabalho do pai, surgiu a ideia da esposa dele, Mônica: em vez de levar uma orquestra para a comunidade, criar uma orquestra dentro da comunidade. E ele respondeu: ‘Então tem que ser na Maré’. Era uma forma de transformar o lugar onde o sonho foi interrompido no lugar onde esse sonho renasceria.”

A decisão de instalar a Orquestra Maré do Amanhã no Complexo da Maré foi carregada de simbolismo.
As investigações apontavam que o responsável pelo assassinato de Armando Prazeres teria ligação com a comunidade. Em vez de associar a Maré apenas à violência, Carlos Eduardo decidiu responder com música, educação e oportunidades para crianças e adolescentes. Um dos pensamentos que norteiam o projeto permanece atual. “Eu quero que os filhos e netos do assassino do meu pai não sejam assassinos.”
Ao longo de 16 anos, essa proposta transformou-se em um dos maiores projetos socioculturais ligados à música no Brasil. Mais de 17 mil crianças e jovens já foram impactados diretamente pela iniciativa, que atualmente mantém atividades em dezenas de escolas públicas, possui sede própria e oito núcleos artísticos, entre eles a premiada Camerata Jovem.
Uma relação que continua crescendo

Para Hérica Marmo, um dos momentos mais marcantes da pesquisa para escrever o livro aconteceu justamente em Portugal. Em 2023, durante uma turnê da orquestra, Carlos Eduardo visitou a casa onde o pai nasceu, em Arouca.
Segundo a jornalista, foi naquele momento que ele compreendeu a dimensão do legado que havia construído. “O livro começa em Portugal porque eu disse ao Carlos que sentia que a vida dele fechava um ciclo aqui. E ele respondeu que, quando esteve na casa do pai, teve uma epifania: ao tentar continuar o trabalho dele, acabou indo além. O pai levava uma orquestra profissional para as comunidades; ele criou uma orquestra da própria comunidade. Foi em Portugal que ele percebeu isso.”
Essa descoberta explica por que o livro começa justamente em território português. Desde a primeira visita ao país, Portugal passou a ocupar um espaço permanente na história da Orquestra Maré do Amanhã.
Além das apresentações em cidades como Lisboa, Porto, Cascais, Coimbra, Sines e Arouca, a instituição mantém uma parceria com a Fundação Galp, principal patrocinadora responsável por viabilizar parte das atividades internacionais do grupo.
Segundo Hérica Marmo, essa ligação vai muito além dos concertos. “Existe uma relação muito forte de todos os lados. O Carlos sonha em criar um núcleo da Orquestra Maré do Amanhã em Portugal voltado para imigrantes e refugiados.”
Ela também recorda um episódio marcante durante uma visita à Universidade de Coimbra. “Os músicos começaram a contar como o projeto transformou suas vidas. Muitos disseram que jamais imaginaram viajar para Portugal. Depois, falaram do desejo de voltar um dia com suas famílias. Foi um momento muito emocionante.”
Mais sobre o livro Concerto para um sonho

Lançado em Lisboa na segunda-feira (13), Concerto para um sonho, da jornalista Hérica Marmo, reúne um ano e meio de pesquisa, entrevistas e mais de uma centena de fotografias para contar a trajetória da instituição. A obra resgata a história de Armando Prazeres, acompanha a criação da Orquestra Maré do Amanhã e registra sua evolução até se tornar uma referência nacional em educação musical e transformação social.
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Ao revisitar o passado da família Prazeres, o livro evidencia que a história da orquestra nunca pertenceu apenas ao Rio de Janeiro. Ela começa em Arouca, atravessa o Atlântico, renasce na Maré e, anos depois, retorna a Portugal.
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