Combustíveis

Preços de gasolina e gasóleo aumentaram por conta da guerra. Mas por que ainda é mais barato abastecer na Espanha?

Governo reconhece o impacto da alta carga tributária para a mudança de preços dos combustíveis em Portugal

Março 11, 2026

Portugueses correram para abastecer antes de mais um aumento no preço dos combustíveis, dessa vez ocasionado pela guerra entre Irã e EUA. Crédito: Manuel Almeida/Lusa

Portugal é um dos países que possuem a gasolina mais cara na Europa, especialmente se considerarmos o poder de compra da população.

Segundo o site Cargopédia, que consultou preços da gasolina, do gasóleo e do GLP em 42 países da Europa, Portugal é o 12º com a gasolina mais cara, com o preço de 1,702 euro.

Está atrás de países como Holanda, Alemanha, Irlanda, Suíça, Dinamarca e Finlândia, que possuem poder de compra muito maior. Mas está à frente de Bélgica, Reino Unido, Suécia, Luxemburgo e Espanha. Ao se considerar o gasóleo Portugal é o 17º, com o preço de 1,631 euro.

A principal queixa dos portugueses é em relação com a Espanha, país vizinho que possui o preço de 1,512, quase vinte centavos mais baixo que no território luso, o que faz com que muitos moradores que vivem em cidades próximas à fronteira vão ao território espanhol para abastecer. Em reportagem recente da SIC Notícias, as pessoas dizem que é possível economizar cerca de 12 euros com o abastecimento completo.

A guerra entre Irã e Estados Unidos que já vem provocando uma subida nos preços do petróleo tem potencial para fazer o preço subir ainda mais, com a Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) estimando que o preço médio do litro do gasóleo vai subir pelo menos 0,23 cêntimos e a gasolina 0,73 cêntimos.

Por isso, o governo anunciou um desconto de 3,55 centavos para o gasóleo, mas isso poderá ser insuficiente. Os aumentos podem ser ainda maiores se acompanharem o rápido aumento do barril de petróleo que chegou a ultrapassar os 100 dólares o barril nessa semana.

Segundo o Portal dos Combustíveis, o preço da gasolina simples subiu de 1,681 no dia 1º de março para 1,776 em 9 de março. Já o gasóleo teve um aumento ainda mais significativo e passou de 1,596 para 1,817 nas mesmas datas.

Em uma manifestação enviada exclusivamente à EntreRios, a Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) apresentou um gráfico com a evolução dos preços da gasolina e do gasóleo (confira a imagem abaixo) e afirmou que “não se observa um aumento do Preços de Venda ao Público (PVP)”, além de afirmar que tem havido “tendência de estabilização ou ligeiro decréscimo” no preço de 2026 em comparação com os anos anteriores. Cabe lembrar, porém, que o gráfico considera os números antes do início da guerra.

O Governo destaca uma queda acentuada em 2020 por conta da pandemia da covid-19, além de uma forte escalada nos preços entre 2021 e 2022.

Evolução do preço da gasolina e do gasóleo os últimos anos. Crédito: DGEG

“Ela foi impulsionada pela recuperação económica, agravada pelas tensões geopolíticas que fizeram disparar o preço do petróleo e atenuada por medidas do Governo, como as medidas de revisão e redução excecional e temporária da taxa do imposto sobre os produtos petrolíferos e energéticos (ISP) ou a suspensão da atualização do adicionamento sobre as emissões de CO2”, afirmou o DGEG.

Entre 2023 e 2026, viam-se oscilações com “tendência decrescente”, o que já tem mudado por conta da guerra.

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Segundo o governo, porém, o fator decisivo para que os combustíveis sejam mais caros em Portugal do que na Espanha é a carga tributária. Se os preços são muito semelhantes antes dos impostos, após a incidência de do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP) e do IVA, conforme exibido pelas tabelas abaixo.

Composição do preço do gasóleo e da gasolina. Crédito: DGEG

Apesar dos preços elevados, o governo ressalta que os preços se encontram próximos da média da Zona do euro, ao contrário do preço antes dos impostos (PST) que são superiores à União Europeia e à Zona do Euro.

“Na comparação direta com Espanha, conclui-se que a principal diferença reside na carga fiscal aplicada aos combustíveis. Em Portugal, os impostos específicos (ISP, taxa de carbono e outros) são mais elevados, acrescendo ainda uma taxa de IVA superior – 23% em Portugal face a 21% em Espanha, ampliando o impacto no preço final ao consumidor”, destacou a Direção Geral de Energia e Geologia em nota.

“Metade do preço do combustível que está nas bombas de gasolina são impostos do Estado. É um valor extremamente elevado e é uma receita de grande importância para o governo”, afirma o professor Fernando Nunes da Silva, do Instituto Técnico de Lisboa. Para se ter uma ideia, apenas com o ISP, o Governo coletou mais de 3,7 bilhões de euros em 2025, o maior valor da história.

“O Governo prefere carregar os impostos nos combustíveis do que em outros impostos porque a nossa máquina pública é pouco eficiente e precisa de uma receita fiscal muito grande. O IVA já está na taxa mais alta permitida pela União Europeia e há muitos portugueses que não pagam IRS porque têm baixo rendimento e, portanto, os impostos nessa área se tornam uma solução mais fácil”, detalha o professor da Universidade de Lisboa, José Manuel Viegas.

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O governo ainda afirma que foi recomendado pela Comissão Europeia a “proceder à reversão gradual de descontos aplicados ao Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), retomando de forma gradual a normalidade fiscal após medidas consideradas excecionais e temporárias”.

A Comissão Europeia já afirmou que avaliará os impactos do novo desconto de 3,55 por litro de gasóleo oferecido pelo governo após o início da guerra. A Comissão quer que os países deixem de oferecer subsídios para os combustíveis fósseis.

O Governo Luis Montenegro já tem admitido que poderá ampliar os descontos caso haja uma subida ainda maior dos preços. Entidades como a Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC) já têm pressionado o governo a aumentar os subsídios, especialmente por conta do impacto para as empresas de transporte que não são beneficiadas pelo desconto. Há ainda temor de que o aumento dos preços dos combustíveis impulsione a subida da inflação.

A ANAREC reforça que o impacto do alto preço dos combustíveis é significativo sobre as famílias e profissionais que precisam do automóvel para trabalhar, além de reforçar a pressão sobre os custos das empresas. A Associação destacou a importância da redução do ISP.

“A resistência do Governo prende-se com a importância desta receita fiscal para o Orçamento do Estado e com os compromissos das políticas ambientais e da transição energética. A ANAREC entende que qualquer estratégia fiscal deve considerar o papel essencial dos combustíveis na economia e o impacto direto que a fiscalidade tem sobre o custo de vida e a competitividade do país”, avalia o vice-presidente da ANAREC José Rodrigues.

renan@revistaentrerios.pt

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