Prego, bucha e sanduíche gelado: nem sempre é fácil para um zuca de primeira viagem encarar o menu de uma tasca
Os nomes são o principal motivo do embaraço zuca diante de um cardápio tuga
- Lisboa
Março 20, 2026
Não é vergonha alguma — nem sempre é fácil para um brasileiro de primeira viagem encarar a ementa, que é o mesmo que cardápio em uma tasca portuguesa. A sorte é que o cronista aqui já passou por muito perrengue, com o umbigo colado num balcão lisboeta, e tem um toque ou dois para dar.
O bitoque é um clássico da cozinha. A fatia de carne com um ovo estrelado em cima parece o nosso queridíssimo bife a cavalo e deve ter um parentesco gastronômico, embora haja diferenças.
A principal é o molho à base de manteiga, alho, vinho branco, mostarda e louro, tão importante quanto a qualidade do corte, geralmente de alcatra. A receita é antiga, mas algumas “novidades” foram introduzidas com o tempo e podem fazer a diferença. A mais curiosa é cobrir a carne com uma folha de alumínio e bater com um martelo de cozinha. Curiosa, mesmo, é a origem do nome, que tem a ver com o preparo. Geralmente servido mais para malpassado, cada face da carne fica só um breve tempo na chapa quente, dois toquezinhos apenas, o tal bi-toque.
Os nomes, aliás, são o principal motivo do embaraço zuca diante de um cardápio tuga. O prego é um clássico desse telefone sem fio gastronômico, pois seria mais apropriado encontrá-lo numa loja de ferragens do que em uma tasca.
Trata-se de um sanduíche de filé de lombo suculento, macio e bem-passado, num pão carcaça, tipo o nosso francês.
É o preferido do fim de noite em Lisboa para evitar dormir de barriga vazia. Mas por que chamam o sanduba assim? A explicação vem do tempo das vacas magras — literalmente — no país, quando a carne não era suculenta e muito menos macia, e o bife era duro e seco, a ponto de ser possível martelar com um… prego.
Eram dias em que a marcenaria inspirava as receitas portuguesas, como o pão meio fofo que atende pela singela alcunha de bucha. O marceneiro em questão não era dos melhores e resolveu batizá-lo assim, pois um dia o prego já veio enfiado nele, diz a lenda.
São nos detalhes que mora o perigo. Imagina a frustração de ler no cardápio um sandes e comer um sanduíche frio? Pois é justamente isso: servido no pão do dia, mas que muito bem pode ser de ontem e, certamente, dormiu mais do que você. Quem vem quentinho e com o queijo derretendo é a tosta. Pois é, anota tudo aí para depois não esquentar a cabeça ao ter de encarar um sanduba gelado.
Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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