Premiada chef brasileira, Manu Buffara estreia na Comporta com menu de “alma brasileira e portuguesa”
Ela comanda o Elemento Atlântico, restaurante de praia instalado na Praia do Pego
- Lisboa
Junho 11, 2026
Portugal ganhou um novo sotaque à mesa. Conhecida por uma cozinha que conecta território, memória e natureza, a chef brasileira Manu Buffara desembarca na Comporta para comandar o menu do Elemento Atlântico, restaurante de praia instalado na Praia do Pego. A abertura da casa, concebida por Philippe Starck, marca o início de uma colaboração que aproxima sabores portugueses e brasileiros a partir de ingredientes locais e da relação comum que os dois países mantêm com o Atlântico.
A chegada de Manu acontece após uma trajetória que a consolidou entre os nomes mais respeitados da gastronomia latino-americana. À frente do restaurante Manu, em Curitiba, a paranaense construiu uma carreira pautada pela valorização da biodiversidade, pela proximidade com produtores e pela pesquisa constante de ingredientes sazonais. Em 2022, foi eleita Melhor Chef da América Latina pelo The World’s 50 Best Restaurants.
Mas a ligação com Portugal não começou agora. Antes de assumir a cozinha do Elemento Atlântico, a chef já havia cozinhado na Comporta durante o projeto Matéria, idealizado pelo chef João Rodrigues. A experiência ajudou a fortalecer uma relação que vinha sendo construída ao longo dos anos.
+ LEIA MAIS: Como é jantar a 50 metros de altura? Te contamos tudo sobre a experiência
“Sempre gostei muito da forma como o país valoriza produto, sazonalidade e uma cozinha mais conectada ao território. O convite para o Elemento Atlântico veio muito desse encontro de ideias. A Comporta tem uma energia muito especial, ligada ao mar, aos produtores locais e a um ritmo mais simples e verdadeiro, e isso conversa muito com a maneira como eu gosto de cozinhar”, disse ela, em entrevista à EntreRios.
O território como ponto de partida
Quem conhece o trabalho de Manu sabe que os pratos raramente nascem apenas da técnica. A construção de cada menu costuma começar com observação, pesquisa e contato direto com o lugar onde será servido. Na Comporta, a chef encontrou um cenário fértil para esse processo. Arrozais, pescados frescos, frutas, legumes e produtores locais passaram a fazer parte da investigação que deu origem ao cardápio do restaurante.
“Minha cozinha sempre parte do território onde estou inserida. Não faz sentido replicar uma cozinha brasileira em Portugal sem escutar primeiro o lugar, as pessoas e os ingredientes. Na Comporta, encontrei produtos extraordinários e uma relação muito genuína com o mar. Meu trabalho é criar conexões entre minha memória, minha técnica e o que esse território oferece naquele momento. Então o menu tem alma brasileira e portuguesa.”

A proposta se traduz em pratos como milho com lula na brasa, choux de bacalhau com ervas locais e pimentos queimados, arroz cremoso de caju com carabineiro e ostras selvagens com maracujá e óleo de coco. Também estão presentes peixes inteiros preparados na grelha e cortes de carne servidos com osso.
+ LEIA MAIS: Nesta vila portuguesa, uma chef transforma memórias em experiência gastronômica
Apesar da curiosidade natural em torno da carta, Manu prefere direcionar a atenção para a experiência como um todo. “Acredito que o mais surpreendente não seja um prato específico, mas a maneira como os ingredientes são apresentados. Gosto de trabalhar delicadeza, acidez, vegetalidade e camadas mais sutis de sabor. Muitas vezes, algo aparentemente simples carrega uma complexidade técnica e emocional muito grande. Existe também uma busca constante por ingredientes menos óbvios e combinações que provoquem curiosidade sem perder leveza.”
Uma conversa entre Brasil e Portugal
Manu enxerga a gastronomia como um espaço de diálogo cultural. “Existe uma herança emocional e cultural muito profunda entre os dois países. Na cozinha, isso aparece de maneira natural: ingredientes compartilhados, técnicas que atravessaram gerações e uma certa nostalgia afetiva ligada ao alimento. Ao mesmo tempo, gosto de olhar para essa relação de maneira contemporânea, entendendo como podemos construir novas narrativas entre Brasil e Portugal através da gastronomia”, afirma.

A leitura também passa pela formação multicultural da cozinha brasileira. “Vejo muito os portugueses como exploradores, então o Brasil traz também influências que chegaram através deles, da Ásia, da Europa e de diferentes povos imigrantes.” Não por acaso, o próprio conceito do Elemento Atlântico busca aproximar dois territórios separados pelo oceano, mas ligados por séculos de história, migrações e trocas culturais.
Novo livro
A investigação sobre identidade e memória que orienta o trabalho da chef também ganhará forma em outro projeto. Manu confirmou à EntreRios que prepara um livro dedicado às conexões entre Brasil e Portugal.
“Estou envolvida nesse projeto, que nasce justamente dessa investigação sobre identidade, território e memória entre Brasil e Portugal. Ainda estamos finalizando alguns detalhes antes de divulgar oficialmente o nome, mas posso adiantar que será um livro muito mais ligado a histórias, encontros e ingredientes do que apenas receitas. A ideia é discutir como as duas culturas se influenciaram ao longo do tempo e como essa troca continua acontecendo de forma viva e contemporânea.”
renata@revistaentrerios.pt