Primeiro dia da COP30 tem discurso de Lula e 111 metas entregues
Presidente chama emergência climática de “crise da desigualdade” e defende Conselho do Clima na ONU; BNDES anuncia R$ 73 bi em investimentos verdes
Novembro 11, 2025
O presidente Lula abriu nesta segunda-feira (10) a 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém (PA), com um discurso em defesa de uma governança global mais justa e de ações concretas para conter o aquecimento do planeta. O evento, realizado pela primeira vez na Amazônia, segue até o dia 21.
“A emergência climática é uma crise de desigualdade. Ela expõe e exacerba o que já é inaceitável. Ela aprofunda a lógica perversa que define quem é digno de viver e quem deve morrer. Mudar pela escolha nos dá a chance de um futuro que não é ditado pela tragédia”, afirmou Lula.
O presidente destacou que o aquecimento global ameaça empurrar milhões de pessoas para a fome e a pobreza, retrocedendo décadas de avanços sociais, e defendeu que as políticas de adaptação levem em conta o impacto desproporcional sobre mulheres, afrodescendentes, migrantes e grupos vulneráveis.
Ao citar o papel dos territórios indígenas e das comunidades tradicionais, Lula lembrou que mais de 13% do território brasileiro são áreas demarcadas para povos originários. “Talvez ainda seja pouco”, disse.
Em uma das passagens mais simbólicas, o presidente citou o pensador Davi Kopenawa, para pedir serenidade aos negociadores:
“O xamã yanomami Davi Kopenawa diz que o pensamento na cidade é obscuro e esfumaçado, obstruído pelo ronco dos carros e pelo ruído das máquinas. Espero que a serenidade da floresta inspire em todos nós a clareza de pensamento necessária para ver o que precisa ser feito”.
“COP da verdade” e combate ao negacionismo
Lula também fez duras críticas aos negacionistas do clima, que, segundo ele, rejeitam a ciência e espalham desinformação.
“Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo. Eles controlam algoritmos, semeiam o ódio e espalham o medo”, afirmou, reforçando que esta será a “COP da verdade”.
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O presidente alertou que “a mudança do clima já não é uma ameaça do futuro, é uma tragédia do presente”, citando desastres recentes, como o furacão Melissa no Caribe e o tornado no Paraná.
Propostas e governança global
Entre as propostas apresentadas, Lula defendeu a criação de um Conselho do Clima, vinculado à Assembleia Geral da ONU, para fortalecer a governança e assegurar que “palavras se traduzam em ações”.
Ele também pediu que os países acelerem a implementação de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) mais ambiciosas e reforcem o financiamento e a transferência de tecnologias aos países em desenvolvimento.
Fome e clima
Também nesta segunda-feira, a ministra Marina Silva participou do evento ministerial de alto nível “Combate à pobreza para a Justiça Climática”, que reuniu autoridades de vários países.
Ela defendeu que fome, pobreza e crise climática devem ser combatidas de forma conjunta, já que os fenômenos extremos agravam vulnerabilidades sociais.
“As pessoas perdem seus sistemas alimentares, locais de trabalho, quando tem uma enchente, quando tem um tufão ou um furacão, agravado pela mudança do clima, como aconteceu agora no Paraná, onde uma cidade inteira foi arrasada com perdas de vida. Elas ficam mais vulneráveis”, afirmou Marina.
A ministra reforçou que não há como tratar as crises de forma separada. “Pensar o enfrentamento da desigualdade junto com o enfrentamento da mudança do clima é algo perfeitamente possível, e é o único caminho para lidar com os dois problemas com eficiência.”
O evento também contou com a presença do ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, que destacou a importância da agricultura familiar e dos povos tradicionais para garantir segurança alimentar e resiliência climática. “Não há segurança alimentar nem resiliência climática sem aqueles que cuidam da terra, das águas e das sementes”, disse.
A discussão ocorreu poucos dias após a aprovação da Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas, assinada por 43 países e a União Europeia, que coloca o combate à fome e à pobreza no centro das discussões climáticas globais.
A ministra da Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha, Reem Alabali Radovan, elogiou a iniciativa brasileira, afirmando que “a proteção do planeta e a proteção das pessoas devem caminhar juntas”.
Primeiro dia tem 111 metas entregues
A diretora executiva da COP30, Ana Toni, informou que 111 relatórios de NDCs já foram entregues, um avanço em relação aos 79 apresentados antes da conferência.
“Temos 194 países credenciados para Belém e isso mostra que estamos fortalecendo o multilateralismo”, destacou.
Segundo Ana Toni, as negociações resultaram na adoção de uma agenda com 145 temas prioritários até o encerramento do evento. “Abrir a agenda no dia certo, nesse momento geopolítico, pode parecer pouco, mas é importante lembrar que nas últimas quatro COPs não conseguimos fazer isso”, disse.
BNDES anuncia investimentos de 73 bilhões de reais
Durante a abertura do Pavilhão BNDES, o presidente do banco, Aloizio Mercadante, anunciou que a chamada pública de mitigação climática recebeu 45 propostas de fundos de investimento, com potencial de mobilizar 73,7 bilhões de reais em projetos sustentáveis.
Os recursos devem financiar transição energética, descarbonização industrial, reflorestamento e agricultura verde. “Isso significa escolher bons projetos e entrar como sócio para impulsionar inovação, novas tecnologias e crescimento produtivo”, explicou Mercadante.
Amazônia no centro
Antes de iniciar o discurso oficial, Lula agradeceu ao povo paraense pela recepção calorosa e ressaltou a importância de realizar o evento no coração da Amazônia.
“Trazer a COP para o coração da Amazônia foi uma tarefa árdua, mas necessária. A Amazônia não é uma entidade abstrata. Quem só vê floresta de cima desconhece o que se passa à sua sombra”, afirmou.
Com mais de 50 milhões de habitantes e 400 povos indígenas espalhados por nove países, o bioma amazônico foi o cenário simbólico do primeiro dia da conferência que pretende recolocar o clima no centro das prioridades globais.
*Com informações da Agência Brasil