Protagonista de “Páginas da Vida” em Portugal, Sofia Alves fala sobre Regina Duarte e a força de Helena
A protagonista "Helena" portuguesa da novela Páginas da Vida fala do sucesso da novela e conta em exclusivo como construiu a heroína, 20 anos depois da estreia no Brasil.
- Lisboa
Maio 25, 2026
A atriz Sofia Alves, 52 anos, está para o país luso assim como Regina Duarte está para o Brasil. Há mais de três décadas é querida e respeitada pelo público e, ainda que não exista essa designação aqui, é considerada a “namoradinha de Portugal”.
Esse é o título imortalizado por Regina, que interpretou a personagem Helena na novela Páginas da Vida, hoje protagonizada por Sofia com enorme sucesso, em cartaz no remake adaptado. Sofia tem atuação no teatro, cinema e televisão, marcada pela intensidade das suas personagens, na maioria das vezes no papel principal. Consolidou a carreira na TVI e, a partir de 2020, na SIC.
Páginas da Vida (exibida entre 2006 e 2007 no Brasil) é mais um folhetim em que ela defende a heroína — no caso, Helena, um papel que, garante, é “impossível recusar”. Fora do set, a atriz diz que gosta de coisas simples”, como disse nesta entrevista exclusiva à EntreRios.
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Vive em uma região rural perto de Viseu com o marido, o encenador Celso Cleto, com quem partilha muitos de seus projetos profissionais. Casados há mais de 20 anos, ele é o ‘porto seguro’ e o amor da sua vida. Sofia tem um filho e um neto, a quem dedica parte do seu tempo livre.

Como surgiu a oportunidade de fazer a novela?
Nos últimos anos, tenho realizado alguns projetos com a SIC, e o Daniel Oliveira (diretor-geral do Grupo Impresa, detentora do canal) fez-me o convite para representar uma das Helenas do autor Manoel Carlos (1933–2026). Era impossível dizer-lhe ‘não’. Estou muito feliz, o projeto está a ser um êxito.
Sendo um roteiro brasileiro adaptado para Portugal, nota diferenças na cultura e jeito de pensar?
Existe uma adaptação, mas temos que pensar além do país. Passados mais de 20 anos, era obrigatório um alinhamento temporal. Porém, a obra fala de sentimentos, e isso não muda nos seres humanos de país para país. A humanidade criada por Manoel Carlos é mantida. Ele era um autor muito bom, seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Sua escrita é universal e alcança grande êxito aqui também.
Qual é a sensação de ser a primeira ‘Helena’ portuguesa?
Tenho a noção da importância do Manoel Carlos, que foi um rei da dramaturgia. A escrita dele não teve fronteiras. Tento ir ao encontro da construção do autor da melhor forma que posso, e está a ser um desafio diário. Ele colocou muitas fragilidades emocionais na Helena, mas, ao mesmo tempo, quis que ela fosse uma guerreira dentro da sociedade. É uma mulher que defende a inclusão e todos os direitos relacionados. É uma heroína, é o símbolo do que uma sociedade deveria ser, bem melhor do que aquela em que vivemos.
Quem acompanha o seu percurso percebe semelhanças com a personagem. Identifica-se, de fato, com ela?
Obrigada por essa pergunta. Sim, é verdade, houve um momento, logo no início, quando me chegaram os roteiros, em que parei o que estava a ler e pensei, sozinha, com os papéis na mão: “Parece que ando há anos a preparar-me para essa personagem”. Sim, existe muito da Helena em mim.
Como é interpretar um papel de uma atriz como a Regina Duarte?
De fato, ela é uma grande senhora, uma grande atriz, cresci a vê-la trabalhar. É verdade que senti essa responsabilidade. E saber que poderiam ser feitas comparações, negativas ou positivas, não me agradava. Mas fico agora muito feliz e sensibilizada quando me dizem que são duas grandes interpretações, cada uma no seu tempo. Não ter existido comparação é um extraordinário sinal. Apenas registro a minha grande tristeza, e que marca esse projeto, que a partida de Manoel Carlos tenha ocorrido. É um vazio, o pai da novela não poder dar a sua opinião.
Você viu cenas da novela original?
Eu estava a gravar uma novela nos Açores, andava sempre entre as ilhas e o continente, e não segui, apenas espreitava. Depois, confesso que vi alguns episódios soltos. A Regina ia muito bem no que vi, ela é uma grande atriz, mas, obrigatoriamente, o meu processo foi estudar as ideias que o Manoel Carlos imprimiu na trama e as orientações do diretor de projeto, Jorge Quiroga.
Diz-se que o escritor brasileiro tinha a capacidade de transformar os problemas do cotidiano em dramas universais, concorda?
Sim, ele tinha essa capacidade. Constrói uma Helena, uma mulher normal, com as suas fragilidades e defeitos, e dentro dela existe uma lutadora que defende causas humanitárias que são dramas universais. E quando autores como ele têm essa habilidade, os seus escritos são universais. São temas que não têm países, apenas seres humanos.
Como é contracenar com uma atriz infantil que realmente tem a condição de Síndrome de Down (Trissomia 21) descrita na trama? Nesse contexto, é feito um alerta sobre a importância da inclusão?
A abordagem é feita em como a família encara esse problema, mas, ao mesmo tempo, é um retrato da sociedade — o que ela pensa e as dificuldades que o núcleo familiar sente. Infelizmente, a nossa sociedade não está preparada e nem sei quando vamos conviver com essa conscientização. É triste, mas é verdade. Falo com muitas pessoas sobre isso, antes e já depois de estar a fazer esta novela, e os apoios que recebem são poucos. Temos muito para fazer ainda, infelizmente. Mas esse projeto é um presente especial para essas famílias. O autor tinha profundos conhecimentos sobre Trissomia 21, já que era um homem consciente e preocupado com os dramas sociais. A nossa Clarinha, interpretada por Margarida Moreira, é maravilhosa, tem os seus próprios ritmos, mas encaixa bem. Ela é a nossa estrela, a nossa luz.
Sente que os outros temas aborda os, como o racismo, a homofobia e a anorexia, também ganham dimensão para dizer que a novela faz um trabalho social?
Sim, são temas importantes e que devem ser abordados sempre que possível. Falar dos assuntos de forma inteligente é um trabalho de consciencialização muito relevante, é uma das nossas funções como artistas. Podemos até estar a fazer humor, mas, ao mesmo tempo, dizer coisas importantes.
Em tempos de tanta agressividade e violência, especialmente contra as mulheres, é importante que as novelas tenham um papel de educadoras?
Sim, não é só importante, é uma obrigação nossa. É um assunto que deveria estar sempre na ordem do dia, até acabar essa saga de pessoas violentas, uma praga que precisa terminar o quanto antes. A lei do mais forte mata qualquer sociedade.
Como é a Sofia quando não está em modo ‘Helena’?
Gosto de coisas simples, muito simples mesmo. Das minhas árvores, minhas flores, dos meus livros, dos meus quadros. Gosto de ser uma mulher de campo e adoro cozinhar. E também viajar e ver coisas bonitas.
susana@revistaentrerios.pt