VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Quando o passaporte vira arma: a violência que aprisiona brasileiras no exterior

Violência administrativa, quando o agressor retém, esconde ou destrói documentos da vítima, cresce de forma particular entre mulheres imigrantes

Dezembro 29, 2025

Participantes na Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, em Lisboa. Crédito: José Sena Goulão/Lusa.

Os números ajudam a dimensionar uma violência que, longe do país de origem, ganha novas camadas de silêncio. Em 2024, 1.631 brasileiras foram vítimas de violência doméstica e de gênero no exterior, segundo o Ministério das Relações Exteriores — um aumento de quase 5% em relação ao ano anterior. Os países com mais registros são Estados Unidos, Bolívia, Itália, Portugal e Reino Unido.

Entre esses casos, um tipo de agressão cresce de forma particular entre mulheres imigrantes: a violência administrativa. É quando o agressor retém, esconde ou destrói documentos da vítima.

Sem passaporte ou autorização de residência, a mulher perde autonomia, trabalho, circulação e, muitas vezes, a possibilidade de denunciar.

Em Portugal, esse padrão se repete com frequência entre brasileiras atendidas por redes de apoio. A advogada Luana Ferreira atua há seis anos no enfrentamento à violência doméstica contra mulheres migrantes e confirma que a retenção de documentos é recorrente. “Já vimos casos de passaportes escondidos, rasgados, queimados — da mulher e das crianças”, relata.

A violência administrativa não costuma deixar marcas visíveis, mas cria um estado permanente de dependência. Em um país estrangeiro, a ausência de documentos amplia o medo da denúncia, alimenta o isolamento e fortalece o controle do agressor. Para muitas mulheres, pedir ajuda passa a significar o risco de perder tudo.

Segundo Luana, a maioria das mulheres que a procuram chega depois de anos de silêncio. “Tem muitas mulheres que não falam — nem para elas próprias — que estão em um relacionamento violento”, explica. A naturalização da violência, somada ao contexto migratório, torna o reconhecimento do abuso ainda mais difícil.

Os dados internos de Portugal revelam a gravidade do cenário. Até setembro de 2024, 16 mulheres foram assassinadas no país em contexto de violência doméstica. No mesmo período, mais de 25 mil ocorrências foram registradas pela polícia — o maior número dos últimos sete anos.

Apesar da dimensão do problema, Portugal não possui delegacias especializadas para mulheres nem uma legislação equivalente à Lei Maria da Penha, que no Brasil estruturou políticas de proteção e enfrentamento à violência doméstica. Em Lisboa, o Espaço Júlia+ é uma das poucas iniciativas voltadas a um atendimento mais especializado.

A ausência de estruturas específicas impacta diretamente mulheres imigrantes. Sem domínio da língua, sem família por perto e, muitas vezes, sem documentos, elas enfrentam barreiras adicionais para acessar o sistema de justiça. “A mulher vive com medo — no lar, na sociedade — porque não sabe o que pode acontecer se cruzar com o agressor”, afirma Luana.

Diante desse cenário, iniciativas institucionais tentam ampliar o acesso à informação e à proteção.

O Manual de Prevenção da Violência contra Mulheres Brasileiras no Exterior, lançado pelo Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, e a campanha Sinal Vermelho Contra a Violência Doméstica buscam orientar e criar canais de denúncia. Ainda assim, especialistas apontam que a eficácia dessas ações depende da existência de redes de acolhimento permanentes.

Para Luana, o enfrentamento precisa ir além das respostas emergenciais. “Falta muita coisa. Precisamos de uma abordagem mais global — da conscientização ao apoio às vítimas, passando pela educação e pela mudança cultural”.

A violência doméstica, reforça a advogada, não atinge apenas quem sofre diretamente a agressão. “É um crime que atinge a sociedade. Atinge família, amigos, todos ao redor da vítima”.

Quando documentos viram instrumento de controle, a violência ultrapassa o espaço doméstico e se transforma em aprisionamento. Os dados mostram que, para milhares de brasileiras no exterior, o abuso não termina na agressão física ou psicológica.

A violência doméstica é crime público e denunciar é responsabilidade coletiva. Se precisar de ajuda ou tiver conhecimento de alguma situação de violência doméstica participe:

Linha Telefónica de Informação às Vítimas de Violência Doméstica: 800 202 148 (gratuito, 24h/dia)

No Portal Queixa Eletrónica, em queixaselectronicas.mai.gov.pt/

Via telefónica, através do número de telefone: 112

No Posto da GNR mais próximo à sua área de residência, em gnr.pt/contactos.aspx

No aplicativo App MAI112, disponível e destinada exclusivamente aos cidadãos surdos, em 112.pt/Paginas/Home.aspx

Na aplicação SMS Segurança, direcionada a pessoas surdas em gnr.pt/MVC_GNR/Home/SmsSeguranca

Através de e-mail para a PSP: violenciadomestica@psp.pt

Através de e-mail para o Consulado-Geral do Brasil: cg.lisboa@itamaraty.gov.br

redes@revistaentrerios.pt