museu a céu aberto

Quando os muros viram telas: quem é a artista brasileira que está colorindo as ruas de Portugal

Com trabalhos gigantescos em várias cidades portuguesas, Jaqueline Arashida se destaca no mercado de artes visuais

Abril 12, 2026

“É um trabalho de operário de obra mesmo, extenuante. Às vezes você está no quinto dia e pensa: esse muro não acaba. Mas existe uma espécie de transe, uma entrega que só o corpo conhece". Crédito: Divulgação.

Brasileira radicada em Portugal há nove anos, a artista visual Jaqueline Arashida vem ganhando reconhecimento público por seus murais, às vezes gigantescos, que colorem as ruas e estabelecimentos de diversas cidades do país. “Eu nunca tinha feito desenho, nunca tinha pegado num spray”, conta a muralista, que fez uma formação gratuita em arte urbana, em Lisboa, e abandonou a carreira na Publicidade para ser muralista.

Com a professora Catarina Glam, referência do universo do grafite, descobriu a tinta, a rua e, ao final da capacitação, venceu um concurso que lhe deu o primeiro muro para pintar, no Príncipe Real, juntamente com duas amigas. O mural não existe mais; porém, outros que vieram depois, sim. Ela assina obras na Avenida da Índia (nas imediações do Maat), em Entrecampos, no Beato, além de criações em espaços fechados e até em eventos como o Rock in Rio Lisboa. Um dos maiores painéis de sua carreira é de um campo de basquete de quase 700 metros quadrados em uma comunidade de Peniche.

Quadra de basquete com quase 700 metros, em Peniche. Crédito: Divulgação.

Os projetos da artista surgiram, em grande parte, por meio de comissões da Câmara, Juntas ou empresas privadas. Ela sabe que existe outro eixo da arte urbana, mais “raiz”, ligado à ocupação espontânea da rua — e que esse grupo, por vezes, questiona quem trabalha institucionalmente, como ela. “Eu não vim desse lugar da ocupação clandestina. E, sendo imigrante, não ia correr certos riscos. Meu caminho foi outro, mas isso não diminui o valor da arte de rua para mim. Apenas cheguei por uma via diferente”, afirma.

A muralista revela que seu sonho é realizar um trabalho também para o Brasil. “Ainda não tenho uma obra no meu país, e isso atravessa muito da minha história. Quero que aconteça”. Para Jaqueline, o espaço público tem força justamente por romper barreiras simbólicas. “O museu é fundamental, mas muita gente não se sente motivada ou até mesmo autorizada a entrar. Já a rua é de todo mundo”, diz revelando que não se sente incomodada ao ver uma pichação ou outra interferência em cima de um trabalho seu.

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Jaqueline costuma provocar reflexões referentes a corpo e gênero com figuras de mulheres sem rostos, bocas, olhos ou expressões, mas cheias de movimento, energia e presença. “Nós, mulheres artistas, já somos um ato político só por existirmos nesse campo”.

Como suas próprias mentoras fizeram, ela também faz questão de ensinar desde o básico a quem não sabe nada, em encontros como o Eat, drink, and draw, no restaurante Almadrava.

Jaqueline Arashida trocou a publicidade pelos murais e hoje colore cidades portuguesas. Crédito: Divulgação.

Para este ano, Jaqueline prepara um livro de poesias (Editora Urutau) e uma exposição individual. As estruturas que cobrem as paredes da casa dela estarão presentes na mostra, “talvez reorganizadas ou transformadas, como parte do processo contínuo de encontrar, perder e reinventar a própria linguagem”, como diz.

Inspiração e Exaustão

Mural pintado por Jaqueline Arashida em uma escola. Crédito: Divulgação.

Antes de tornar-se uma imagem, o mural é esforço físico. Pintar uma parede pode significar até quinze dias consecutivos de trabalho intenso: sol direto, subida e descida de andaimes, latas de tinta equilibradas e gestos repetidos à exaustão. É uma dimensão invisível para quem vê a obra pronta, mas central no processo criativo de Jaqueline Arashida. “É um trabalho de operário de obra mesmo, extenuante. Às vezes você está no quinto dia e pensa: esse muro não acaba. Mas existe uma espécie de transe, uma entrega que só o corpo conhece. Pintar sozinha, horas e horas, acaba virando quase um ritual”, conclui.

“Uma frase”

Outro eixo essencial da prática artística de Jaqueline é a literatura, que alimenta tanto os murais quanto algumas das capas de livros que ela assina, entre as quais a edição portuguesa mais recente de Macunaíma, de Mário de Andrade, e obras como Nem toda mulher, de Tatiana Vasconcelos. “Muitas vezes, começo um mural por causa de uma frase”, conta.

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fernanda@revistaentrerios.pt

Fernanda Baldioti
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