Quanto custa se deslocar em Portugal? Preços de combustível e transporte disparam
Preços altos dos combustíveis e transportes em geral: as razões, comparações e uma alternativa que também não atende o consumidor por falta de logística, o carro elétrico
- Lisboa
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Abril 5, 2026
Ao longo dos últimos anos, os portugueses têm sentido um aumento de preços quando o assunto é ir e vir urbano. A terceira edição da pesquisa do Barómetro da Mobilidade, realizada pela Europ Assistance e pelo Instituto Ipsos, apontou que os portugueses gastam 137 euros por mês com deslocamentos, abaixo da média europeia (147 euros) e ocupando o quinto lugar entre os países pesquisados.
No entanto, o país consome uma parcela maior da renda nesse item do que outras nações, como França (113 euros) e Alemanha (117 euros), que têm poder de compra muito superior.
O valor subiu cinco euros em relação à pesquisa de 2024. Diversos itens apresentaram aumento no início de 2026, como os preços dos bilhetes ocasionais Comboios de Portugal, (responsável pelo transporte ferroviário) que subiram 2,26%, além dos pedágios, com alta de 2,29%.
Os passes mensais (transporte público que inclui metrô, autocarros e barcos), em Lisboa e Porto, cobram entre 30 e 40 euros, permitindo circular em vários meios de transporte dentro da região escolhida. Os usuários procuram alternativas para economizar.

Rita Martins, 31 anos, técnica administrativa na Airbus, por exemplo, afirma que tenta conter a elevação dos gastos com transportes combinando diferentes meios. “Uso o Uber em distâncias curtas, quando não fica muito caro, e, quando o custo aumenta, opto pelo passe para o comboio — que é mais barato, porém o serviço não é eficiente”.
O carro, segundo ela, passou a ser utilizado apenas em ocasiões especiais. “Usamos cada vez menos. O preço do combustível está sempre a aumentar. Comprei o carro em 2020 e lembro-me de que conseguia atestar o depósito com 50 euros. Atualmente, 70 euros não bastam”, afirma.

No centro do problema está o combustível, que não para de aumentar. Tanto a gasolina quanto o gasóleo têm sofrido sucessivas oscilações e estão mais caros do que no período pré-pandemia.
A vizinha Espanha apresenta preços mais competitivos. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), cerca de 44% das pequenas e médias empresas apontam o custo dos combustíveis como um risco para a sua sustentabilidade em 2026, já que o aumento impacta a logística, afetando a produção e a distribuição de bens e serviços.
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O grande problema é a elevada carga tributária, que inclui um Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) de 23% aplicado ao preço total, além do ISP (Imposto sobre Produtos Petrolíferos), que foi aumentado pelo governo português no fim do ano passado. “Combustíveis caros, aliados a outros custos associados à utilização do automóvel, que também sobem, causam impacto significativo para famílias e profissionais que dependem diariamente do próprio carro para trabalhar”, afirmou o vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC), José Rodrigues.

O professor emérito da Universidade de Lisboa, José Manuel Viegas, explica que o governo encontra nos combustíveis uma importante fonte de receita fiscal. Segundo ele, Portugal já possui o IVA na taxa máxima permitida pela União Europeia e, diante da ineficiência da máquina pública, precisa aumentar outros impostos para garantir receitas. “Como uma parte significativa dos adultos não paga IRS por ter baixo rendimento, os impostos sobre produtos petroquímicos tornam–se uma opção mais fácil, já que o automóvel é um bem ao alcance de todos”, destaca. Portugal ainda se mostra muito dependente do automóvel devido à falta de soluções urbanísticas com opções de transporte mais eficientes, o que acaba pesando no bolso do consumidor.
“Apesar do custo dos congestionamentos e do preço do combustível serem elevados, a maioria das pessoas considera que vale a pena pagar por isso, porque ajuda a organizar a vida. Se eu tenho de levar os filhos ao colégio e ir para o trabalho, por exemplo, isso torna-se um martírio sem carro”, explica. O professor Fernando Nunes da Silva, do Instituto Técnico de Lisboa, chama a atenção para o aumento substancial no número de veículos, que passou de 70, em 1970, para 500 veículos por cada mil habitantes nos dias atuais.

Para Silva, uma importante política de redução tarifária para estimular o transporte público foi o congelamento dos preços dos passes mensais, além da oferta de descontos para jovens e idosos. “Isso representou o maior acréscimo de rendimento familiar da época, na ordem de centenas de euros”, afirma.
Carros elétricos
Como não utilizam gasolina ou gasóleo, os carros elétricos não são afetados diretamente pelos aumentos dos preços dos combustíveis. O custo de carregamento da bateria pode ser mais baixo do que o uso de combustíveis tradicionais, especialmente quando feito em casa, com uma economia que pode chegar a 40%.
Ainda assim, existem desafios próprios. “Gasto menos, porém é muito chato enfrentar toda a logística de um carro elétrico. Para encontrar carregador, depende do local. E para carregar, demoro 40 minutos, no mínimo. Tudo isso faz-me perder muito tempo”, diz Ricardo Araújo, 42 anos, engenheiro de dados. Ele afirma estar desiludido justamente com a questão da autonomia:
“Sempre que saio, tenho de planear quando e onde vou carregar o carro, e isso não é prático nem rápido”.
Há outras limitações. Apesar de reduções, isenções e estacionamento gratuito em muitos locais, os custos de aquisição de um veículo elétrico continuam mais elevados, mesmo com benefícios fiscais como a redução do Imposto Sobre Veículos (ISV) e do Imposto Único de Circulação (IUC). “Os elétricos não constituem uma solução universal imediata, devido ao custo inicial de aquisição, às limitações de autonomia e às necessidades de infraestrutura, conforme temos verificado nos últimos tempos”, destaca Rodrigues, representante da Anarec.
Esses custos estão associados sobretudo aos automóveis mais recentes, que têm maior autonomia — algo necessário, considerando que a quantidade de pontos de carregamento ainda é baixa, especialmente no interior do país. “Sem uma grande autonomia, é preciso parar para carregar em vários pontos, e nem sempre isso é possível”, diz Silva.
susana@revistaentrerios.pt e renan@revistaentrerios.pt