Quem é a jornalista da Vogue que abandonou a moda para virar empreendedora em Lisboa
Ex-editora de grandes revistas, Adriana Bechara conta por que deixou a carreira no Brasil para apostar no setor de hospitalidade em Portugal
- Lisboa
Abril 23, 2026
Depois de construir uma trajetória sólida no jornalismo brasileiro, com passagens por veículos como Vogue, Glamour, Elle e Jornal do Brasil, Adriana Bechara decidiu mudar de rota. Há quase oito anos em Portugal, ela trocou a moda e a imprensa pelo empreendedorismo e fundou, em Lisboa, o Wel Well, espaço que reúne restaurante, loja, serviços de concierge, wellness e experiências voltadas aos viajantes.
Natural de Londrina, criada no Rio de Janeiro e com longa vivência em São Paulo, Adriana afirma que a mudança foi motivada pelo desejo de se reinventar. Ao lado do marido e da filha Rosa, ela escolheu Portugal como nova casa após uma volta ao mundo em família. Na capital portuguesa, encontrou no setor da hospitalidade um novo propósito profissional — e pessoal. Em entrevista à EntreRios, ela fala sobre recomeço, maternidade, desafios de empreender fora do Brasil e o significado de sucesso nesta fase da vida.
EntreRios: Você construiu uma carreira consolidada no jornalismo no Brasil e decidiu mudar completamente de área ao vir para Portugal. O que te motivou a dar essa virada, e por que Lisboa?
Adriana: Considero que construí minha carreira como empreendedora de mim mesma. Apesar de ter passado por lugares e pessoas atrativos e/ou confortáveis, sempre soube que a zona de conforto é um lugar perigoso para ficar. Tive uma carreira plena, mas precisava atualizar meus desejos e projeções. Achei que ainda dava tempo de recomeçar, adquirir novas experiências e me reinventar em outro terreno, me despir mesmo das vaidades e da reputação. Tudo isso é ótimo, mas também aprisiona, porque sempre vai te resumir de alguma forma.
Lisboa vivia uma explosão do turismo. Como sempre trabalhei com tendências e comportamento, senti que lifestyle e hospitalidade hoje são o que a moda foi nos anos 1990 e 2000: um terreno vasto a ser explorado, com muitas lacunas ainda. Além disso, é um mercado que cria conexão real e humana. Algo de que gosto e que sei fazer.
EntreRios: Você já chegou com a intenção de empreender ou isso foi consequência do processo de adaptação ao país?
Adriana: Eu fiz uma volta ao mundo com o apoio da Vogue e da Teresa Perez. Foi meu período de transição e sabático ao mesmo tempo. Nessa viagem, estudei várias formas de hospitalidade, experiências e tendências. Entendi que jamais seria influencer ou jornalista de lifestyle. Sou uma pessoa do backstage, hands on. E sempre quis empreender. Vim já com isso pensado. Antes, porém, estudei o mercado para entender as lacunas e dores dos viajantes. Foi aí que formatei o Wel Well.
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EntreRios: Para quem ainda não conhece, como você explicaria o Wel Well em poucas palavras? O que torna o seu negócio diferente no cenário de Lisboa?
Adriana: Vejo o Wel Well como um centro de hospitalidade. É um espaço de conexão que otimiza a experiência do local e do viajante, como o lobby de um hotel: tem restaurante, bar de vinhos, loja, mini spa e eventos.
EntreRios: Em entrevistas anteriores, você mencionou a burocracia e a dificuldade de acesso a incentivos. O que mais te surpreendeu — positiva e negativamente — ao abrir um negócio em Portugal?
Adriana: É claro que a vida do pequeno empreendedor é desafiadora. E acho que em qualquer lugar, isso não é sobre o país. Se você olhar a linha do tempo das grandes crises da história, nada preparou os mais experientes e sólidos empreendedores para uma pandemia. Foi exatamente nesse marco que nasceu o Wel Well, há cinco anos.
Some-se a isso o fato de eu nunca ter empreendido. Não seria justo colocar na conta de Portugal todos os aprendizados. Mas, sim, há um jogo de burocracias e manhas que aprendo todos os dias. Nunca empreendi no Brasil, mas sei que Portugal tem outras vantagens: tenho um negócio de porta aberta para a rua e nunca sofri nenhum tipo de ameaça ou violência, por exemplo.
EntreRios: Você está em Portugal há quantos anos? Sua filha era pequena quando vocês vieram, certo? Como essa mudança de país e de carreira impactou sua maternidade?
Adriana: Fazemos oito anos de Portugal em setembro agora de 2026. E a maternidade foi definitiva nessa mudança. Eu nunca gostei da ideia de terceirizar a minha maternidade a cuidadoras. Então a ideia de simplificar a vida e fazer funcionar trabalho e vida pessoal como os europeus sempre me pareceu mais verdadeira e razoável. Se eles conseguem, a gente também. E foi uma grande lição de consciência social. Adoro viver assim. Apesar do corre, vale a pena.
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EntreRios: Você veio de um mercado como o brasileiro, mais dinâmico. O que em Portugal te fez recalibrar expectativas, para o bem e para o mal?
Adriana: Nada te prepara para o “ao vivo e em cores” de um negócio novo, mas para quem sai de uma cidade pulsante como São Paulo, temos que redimensionar números e expectativas, com certeza. Por outro lado, nenhum negócio sólido nasce vencedor do dia para a noite. Tudo leva tempo.
E claro: não tenho aqui nem a metade dos contatos e da reputação que tenho no Brasil. E adoro isso. Recomeçar me fez muito bem. Me sinto mais jovem, viva e feliz, apesar dos desafios diários.
EntreRios: Existe algo que você trouxe do Brasil que virou diferencial competitivo aqui?
Adriana: Acho que, depois de anos no mundo corporativo, essa visão mais holística do negócio, como uma plataforma de crescimento pessoal, está mais alinhada com esse novo momento do mundo.
Somos pessoas em busca de trocas e conexões que tragam sentido. E, no fim do dia, foi isso que encontrei. Amo essa minha nova realidade e esse preenchimento pessoal sempre vai nos pôr um passo à frente. O sucesso é uma palavra muito relativa. Sinto-me muito mais bem-sucedida hoje do que em qualquer outra época da minha vida.
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