Esporte

Quem será o próximo técnico demitido no Brasileirão?

O campeonato mal começou e já alcançou uma marca que deveria envergonhar dirigentes, investidores e executivos de futebol: dez técnicos demitidos em onze rodadas

Abril 13, 2026

Quem será o próximo técnico demitido no Brasileirão? Crédito: Unsplash
Quem será o próximo técnico demitido no Brasileirão? Crédito: Unsplash

O Campeonato Brasileiro de 2026 mal começou e já alcançou uma marca que deveria envergonhar dirigentes, investidores e executivos de futebol: dez técnicos demitidos em onze rodadas. Fato raro no atual Brasileirão, nesse final de semana nenhum caiu. O mais ameaçado era o recém-contratado Luís Castro, no Grêmio. Mas o 0 x 0 no clássico contra o rival Internacional segurou o português no cargo. Antes, Vasco, Atlético-MG, Remo, Flamengo, São Paulo, Cruzeiro, Santos, Botafogo, Chapecoense e Corinthians mandaram seus treinadores ao RH antes mesmo da metade do torneio – um retrato mal pintado de como o futebol brasileiro continua refém da urgência, do improviso e da incapacidade de sustentar qualquer ideia de trabalho.

O dado impressiona, mas não surpreende, pois se trata de um problema crônico do futebol brasileiro. Nem as chamadas SAFs, em Portugal conhecida como SADs, escaparam da dança das cadeiras. Durante anos, vendeu-se a ideia de que o novo modelo de gestão, que prometia profissionalismo, governança e planejamento, seria mais racional e menos passional. Na prática, porém, o que se vê é que a mudança jurídica não bastou para alterar a cultura. O CNPJ mudou; o comportamento, não.

Os casos de Atlético-MG, Cruzeiro e Botafogo são especialmente simbólicos. Clubes que passaram a se apresentar como exemplos de modernização seguem reagindo como sempre reagiram diante de maus resultados: demitem o técnico, anunciam um substituto e vendem a ideia de recomeço. É uma lógica que produz manchete, atende à pressão imediata da torcida e dá a sensação de ação. Mas raramente resolve.

LEIA MAIS: Presidentes pés-quentes na Copa do Mundo

Talvez o ponto mais simbólico dessa história esteja justamente nas SAFs. Elas não foram capazes, até aqui, de romper com o padrão que prometeram superar. Ao contrário: foram absorvidas por ele. O resultado é um campeonato em que se troca muito, se planeja pouco e se constrói quase nada.

O treinador continua sendo o para-raio preferido de gestões frágeis, sejam elas empresariais ou associativas. Cai por elenco mal montado, por contratações sem critério, por calendários sufocantes, por disputas internas e por direções que parecem incapazes de distinguir uma fase ruim de um trabalho esgotado. Troca-se o técnico para preservar quem escolheu mal, planejou mal e executou pior.

+ LEIA MAIS: Vinicius Junior representa tudo aquilo que o lado racista da Europa mais abomina

Há, claro, trabalhos que terminam por esgotamento. Nem toda demissão é injustificável. O problema está na escala — e na naturalização. Dez trocas em onze rodadas não são sinal de exigência alta, mas de desorganização sistêmica. É a prova de que os clubes seguem decidindo no impulso, sem clareza sobre o que buscam e sem disposição para sustentar processos.

Enquanto a troca de técnicos seguir sendo tratada como solução — e não como sintoma — o futebol brasileiro continuará preso a um ciclo que já não surpreende, apenas se repete indefinidamente.

Chico Silva. Foto: Divulgação