Relatório destaca aumento no número de notícias sobre a xenofobia e o racismo na imprensa portuguesa em 2025
Em comparação com o levantamento anterior, houve um acréscimo de 64 notícias, o que representa um crescimento de 87,7%.
- Lisboa
Abril 10, 2026
A Casa do Brasil de Lisboa apresentou, nessa quinta-feira (9), o relatório “Monitoramento do Discurso de Ódio, Racismo e Xenofobia em Portugal” que inclui um monitoramento de notícias publicadas sobre esses assuntos entre janeiro e dezembro de 2025.
Ao todo, foram analisadas publicações de sete veículos portugueses, entre eles Jornal de Notícias, Público, Expresso, Observador, Diário de Notícias, Público Brasil e DN Brasil. O levantamento identificou 137 notícias relacionadas a discurso de ódio, racismo e xenofobia em Portugal, das quais 40 tratam de casos concretos
O relatório já havia sido realizado em 2024 e, nesta edição, passou a incluir três novos veículos. Em comparação com o levantamento anterior, houve um acréscimo de 64 notícias, o que representa um aumento de 87,7%. Segundo o documento, embora não seja possível afirmar um crescimento proporcional contínuo, o avanço é considerado expressivo.
A evolução dessas notícias de acordo com as classificações pode ser vista no gráfico abaixo.

O relatório aponta que houve picos de outubro, junho, novembro e fevereiro, conforme o gráfico abaixo.

O relatório apresenta ainda outros recortes da análise de matérias que são mais recorrentes conforme a ocorrência de episódios e denúncias de xenofobia e racismo ao longo de 2025, especialmente em junho e outubro, e da ocorrência de protestos e manifestações contra esses crimes.
“Ao mesmo tempo, as notícias deram conta de que a sociedade civil utilizou ferramentas de participação direta para tentar alterar o quadro legal, destacando-se a iniciativa legislativa cidadã para criminalizar práticas de discriminação, que reuniu mais de 4.500 assinaturas em três meses, alcançando mais de 24 mil assinaturas em novembro de 2025”, destaca o relatório.
O documento ainda traz um alerta sobre o não funcionamento efetivo, desde julho de 2023, da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR), entidade administrativa independente, dotada de poderes de autoridade, que funciona junto da Assembleia da República.
“O não funcionamento de uma entidade fundamental para o combate ao racismo, a xenofobia e a discriminação mantém fechado um importante canal de denúncias e de monitorização das queixas de Discriminação Racial em Portugal”, afirma o texto.
A Casa do Brasil em Lisboa também já realizou inquéritos anteriores para coletar depoimentos e experiências de pessoas que sofreram casos de xenofobia e racismo. Apenas em 2025, mais de 80 casos foram identificados, o que levou a entidade a perceber o aumento efetivo de casos de violência.
Para Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil de Lisboa, as notícias mostram que tem havido um aumento dos casos de xenofobia e racismo na sociedade e que a atuação de deputados e de forças conservadoras que são porta-vozes desse tipo de discurso contribui para que mais episódios de violência e de discurso de ódio aconteçam.
“Isso abre espaço para que pessoas comuns passem a ver esse discurso preconceituoso como algo normal e passa a haver uma censura muito menor, deixando muitos agressores com o sentimento de impunidade, as pessoas acham que não vai acontecer nada. Existe a questão da normalização, nas próprias matérias há o estigma das pessoas com o uso da palavra “ilegal” para os imigrantes, inclusive nos próprios programa do governo, o que leva o público em geral a achar que elas não devem entrar no país e ponto”, destaca.
Outro problema, segundo ela, é a falta de dados mais efetivos e embasados por parte das próprias entidades governamentais sobre esses episódios de discriminação e preconceito. Ana Paula diz que já houve o envio de informações incompletas e incorretas ou com termos de referência errados por parte de Portugal para organismos internacionais.
Ela enfatiza que a própria Comissão Europeia lançou a estratégia anti-racista para 2026-2030, um instrumento não vinculativo que sugere ações a serem tomadas por parte dos estados-membros e que cria um termo de referência para caracterizar o racismo estrutural.
“Pede-se que os estados atuem legislativamente e melhorem suas fontes de dados sobre o assunto, mas Portugal não oferece esses dados desde 2022. Não há como dizer se aumentou ou não, o que prejudica para a formulação de políticas efetivas”, destaca ela.
O cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Alessandro Candeas, elogiou a realização do monitoramento e destacou a importância de se ampliar a pesquisa para outros veículos como rádios e televisão, realização de uma análise de discurso e de análises sobre os comentários nas redes sociais.
Segundo ele, também é importante que haja parcerias com universidades e uma articulação para a realização de ações conjuntas com os poderes legislativo e judiciário português e brasileiro. Ele destacou que o tema também tem sido pauta de discussões entre os dois países, inclusive com discussões nas Cimeiras dos últimos anos.
“É importante que haja esse trabalho em rede com diferentes instituições e que haja esse compartilhamento de informações nos níveis executivo, legislativo e judiciário para que se debatam políticas públicas, enquadramentos normativos para um direito comparado e que se apresente o que tem sido feito. É importante criar espaços de discussão entre formuladores e executores de política, políticas públicas e executivas”, afirmou.
Confira aqui o relatório completo.
renan@revistaentrerios.pt