Gastronomia

Restaurante Laurentina completa 50 anos com receitas originais, cuidados no preparo e presença marcante do público brasileiro

Casa lisboeta fez do bacalhau a sua marca registrada e figura entre as grandes referências gastronômicas de Portugal

Julho 18, 2026

Casa lisboeta fez do bacalhau a sua marca registrada e figura entre as grandes referências gastronômicas de Portugal. Crédito: Divulgação

Um dos restaurantes mais tradicionais de Lisboa, o Laurentina – O Rei do Bacalhau celebra 50 anos em 2026 mantendo o posto de uma das maiores referências do país quando o assunto é bacalhau, um dos grandes símbolos da gastronomia portuguesa.

Com influências da região da Beira Interior, no norte do país, e também de Moçambique, antiga colônia portuguesa na África, o restaurante conquistou um lugar de destaque na gastronomia, não apenas para os portugueses, mas também para os brasileiros.

Aberto de segunda a sábado no almoço e no jantar, o Laurentina recebe quase de 200 brasileiros diariamente, de longe, o público estrangeiro que mais frequenta o espaço, com capacidade para 200 pessoas entre dois salões internos e uma área externa.

Os irmão Marco e Rita Pereira, donos do Laurentina. Crédito: Divulgação

Os donos, os irmãos Marco e Rita Pereira, filhos do fundador do espaço António Francisco Pereira, destacam que, recentemente, o restaurante teve a sua semana de maior faturamento. Foi durante o Fórum de Lisboa, evento organizado pelo IDP e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e liderado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

O evento reuniu personalidades do mundo jurídico, político e econômico brasileiros. “Recebemos muitos grupos durante aqueles dias”, afirmou o proprietário, que inclusive foi casado com uma brasileira e, já pensou na possibilidade de abrir uma filial do restaurante na Avenida Faria Lima, em São Paulo, mas os planos não foram pra frente. Ele, porém, celebra o reconhecimento.

“Já somos muito conhecidos no Brasil. E quando as pessoas vêm para cá durante alguma viagem já vêm direto aqui”, ressalta ele, destacando que a presença é mais frequente durante os jantares, já que ao longo do dia muitos turistas aproveitam para viajar a cidades e lugares próximos a Lisboa.

A equipe de mais de 50 funcionários possui diversos brasileiros não apenas na cozinha, mas também no atendimento ao público. “Os brasileiros são bons e valorizam muito um bom serviço”, destaca Marco.

Espaço pode receber 200 pessoas simultâneas. Crédito: Divulgação

O prestígio do restaurante também atrai personalidades brasileiras. Claudia Raia, Renata Sorrah, Julio Cesar, Suzana Werner, Paolla Oliveira, Thiaguinho, Camila Pitanga e Caio Castro estão entre os famosos que já visitaram a casa.

No cardápio, também pode-se identificar imediatamente com um dos pratos: a moqueca de bacalhau, prato com azeite de dendê e leite de coco muito típico dos brasileiros, mas que possui influências moçambicanas.

Mas o que tem levado o Laurentina a ter todo esse sucesso? Para os irmãos proprietários, o segredo está em respeitar o produto, preservar o saber fazer tradicional e oferecer uma experiência de hospitalidade genuinamente portuguesa. “Queremos manter viva a essência do negócio do nosso pai e honrar a memória dele”, aponta Marco. Para isso, porém, também foi necessário ter uma gestão contemporânea e adequada às exigências dos clientes atuais.

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Comandando o restaurante desde o ano de 2004, eles realizaram uma grande reforma em 2014 e tiveram, com o tempo, que ampliar o número de pratos no cardápio, indo além dos quatro pratos de bacalhau servidos originalmente.

Bacalhau Alto Assado. Crédito: Divulgação

Menu com sabor moçambicano

Hoje, são 12 opções de bacalhau, duas de sabores moçambicanos, três saladas e outros quatro clássicos portugueses. Outra introdução feita por Rita e Marco foi a de pratos do dia fixos durante a semana. À segunda migas de bacalhau com feijão-frade e couve, à terça bacalhau à Gomes de Sá, à quarta bacalhau espiritual, à quinta açorda de bacalhau e gambas e à sexta bacalhau à Zé do Pipo.

“Desde que assumimos a gestão do restaurante, o nosso objetivo foi preservar o legado do nosso pai e assumir cada vez mais o Laurentina como uma referência de pratos de bacalhau no nosso país. Alargamos o número de pratos, introduzimos o prato do dia, temos mais sobremesas e uma garrafeira selecionada”, diz Marco.

Com a reforma em 2014, o restaurante ganhou um aspecto mais elegante e contemporâneo, com decoração típica e até mesmo iluminação natural. Hoje, são servidas, em média, 300 refeições por dia. Também há um cuidado próprio com os produtos, todos preparados no mesmo dia em que são consumidos, sem preparos congelados e com espaço especial para a grelha a carvão.

As receitas seguem os padrões originais pensados pelo pai de Marco e Rita até mesmo nos mínimos detalhes como na colocação do azeite sobre o bacalhau. Os irmãos garantem que o controle de qualidade esteja impecável. “Respeitamos muito o trabalho do nosso pai e queremos que o Laurentina mantenha a essência de sempre”, fala Rita.

Arroz de bacalhau do Laurentina. Crédito: Divulgação

As mais de 30 toneladas de bacalhau consumidas ao ano são vendidas a partir de uma seleção rigorosa de bacalhau da Islândia produzida pela Ribeiralves. “Desenhamos os cortes que queremos e tudo é produzido de maneira personalizada. O bacalhau chega inteiro e depois é cortado, demolhado e preparado”, afirma Marco.

Além disso, boa parte dos ingredientes, como a couve, as batatas e o azeite são trazidos diretamente da Beira Interior, região de origem do fundador.

Marco comenta que também foi preciso se adaptar aos valores dos novos tempos. Desde a pandemia e da Guerra entre Rússia e Ucrânia o preço do bacalhau subiu significativamente, especialmente pelo fato da própria Rússia ser um produtor do peixe. Com isso, os preços médios também aumentaram, o que não afastou a clientela hoje composta especialmente por pessoas acima dos 35 anos.

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O controle de qualidade rigoroso também fez com que os irmãos não pensassem em expandir a casa para outros lugares, ao menos por enquanto. “A procura por Laurentina Porto é muito grande. Mas ainda não pensamos em expandir”, diz Marco.

História

O Laurentina foi fundado em 1976 por António Francisco Pereira, natural do Fundão, no norte de Portugal. Foi cedo para Moçambique e, em Lourenço Marques (atual Maputo), fundou o restaurante Leão D’Ouro, onde desenvolveu a paixão pela gastronomia e começou a aperfeiçoar a preparação do bacalhau, com base nas receitas da sua terra, Beira Interior, e nos sabores africanos.

Após 22 anos, ele volta a Portugal e cria o Laurentina que se liga ao nome dado aos habitantes de Lourenço Marques, os laurentinos, e uma homenagem à cerveja moçambicana Laurentina.

Ao longo do tempo, ele desenvolveu uma cozinha com características e estilos próprios que ganhou seu espaço na cidade. Em 1986, ele se mudou para o local onde está instalado até hoje quando assume oficialmente a designação “O Rei do Bacalhau”, um reconhecimento conquistado junto dos próprios clientes.

Desde aquela época, sua culinária já contava com influências beirãs, sabores moçambicanos e pratos tradicionais portugueses. O próprio António ia pessoalmente ao Fundão, ao volante da sua carrinha, escolher os produtos para a cozinha do Laurentina. Alguns desses fornecedores seguem com a casa após mais de 20 anos.

“Queríamos que este restaurante fosse reconhecido como um espaço onde o bom produto, as doses generosas e as receitas tradicionais são o cartão de visita para quem procura autenticidade. Não queremos mudar para ir ao encontro de tendências, mas sim mudar para melhorar cada vez mais a nossa oferta, onde cada detalhe é pensado ao pormenor para que a experiência à mesa seja sempre memorável”, explica Rita.

renan@revistaentrerios.pt

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