Ruth Manus lança “Ter ou Não Ter Filhos” em Portugal e provoca debate sobre maternidade e exaustão feminina
Escritora brasileira fala sobre novo livro e reflete sobre carreira, amor, relações e os dilemas contemporâneos de ter ou não filhos
- Lisboa
Abril 23, 2026
A decisão de ter ou não filhos, uma das mais íntimas e complexas da vida adulta, ganha contornos profundos no novo livro de Ruth Manus. Em Ter ou Não Ter Filhos a autora, que apresenta a obra na FNAC Colombo nesta quinta (23), propõe uma reflexão honesta e sem respostas fáceis sobre maternidade, escolhas e os desafios contemporâneos enfrentados pelas mulheres.
Entre relatos pessoais e análises sociais, Ruth aborda sentimentos contraditórios como amor, culpa, exaustão e realização, ao mesmo tempo em que amplia o debate para temas como carreira, relações afetivas e desigualdade de gênero. EntreRios conversou com a escritora.
Como foi a sua trajetória até chegar à escrita e à publicação em Portugal?
Sempre fui advogada de formação, mas escrevia sem grandes pretensões, principalmente nas redes sociais. Um convite para escrever no Estadão acabou sendo o ponto de partida. Paralelamente, vim para Portugal após conhecer meu ex-marido, construí vida aqui, fiz doutoramento e comecei a publicar também no país. A escrita foi acontecendo naturalmente, acompanhando a minha própria história.
Por que decidiu escrever sobre temas ligados à experiência feminina e à maternidade?
Foi um caminho orgânico. Ao escrever crônicas sobre o cotidiano, inevitavelmente surgiram temas ligados à vivência como mulher. Meu trabalho acadêmico já abordava o trabalho feminino e a diversidade. Com o tempo, percebi que meus textos e livros refletem a minha própria trajetória como se fossem uma narrativa da minha formação e da minha vida.

O que motivou especificamente o livro “Ter ou Não Ter Filhos”?
Depois de me tornar mãe, senti que esse tema precisava ser tratado com mais profundidade. Existe uma complexidade enorme na maternidade que muitas vezes é simplificada. O livro nasce desse desejo de olhar com mais cuidado para essa decisão.
Existe uma resposta certa para a pergunta “ter ou não ter filhos”?
Não. Não existe resposta certa ou errada. Cada vida tem suas próprias circunstâncias. Eu sou feliz sendo mãe, mas também fui feliz antes disso. A maternidade é um caminho possível e não o único.
Por que cada vez mais mulheres parecem ter dúvidas sobre a maternidade?
Porque hoje existe, de fato, a possibilidade de escolha. As gerações anteriores não tinham esse privilégio. Além disso, fatores como carreira, custo de vida, relacionamentos e expectativas pessoais tornam essa decisão mais complexa.

A queda na natalidade está relacionada a essas mudanças?
Sim. Há várias razões: custo de vida elevado, maior inserção da mulher no mercado de trabalho, questionamentos trazidos pelo feminismo e, principalmente, a liberdade de escolha. A maternidade deixou de ser obrigatória para ser uma opção.
A dificuldade em encontrar parceiros também influencia essa decisão?
Sem dúvida. Muitas mulheres querem ser mães, mas não encontram parceiros dispostos ou adequados. Isso levanta questões importantes sobre relações, responsabilidade e participação masculina na família.
O machismo ainda impacta diretamente essa escolha?
Muito. Não dá para discutir natalidade sem discutir machismo e divisão de responsabilidades. As mulheres ainda acumulam mais tarefas domésticas e de cuidado, o que torna a maternidade mais pesada e, muitas vezes, menos atrativa.
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Os homens estão preparados para esse debate?
Alguns sim, mas ainda há um longo caminho. É essencial entender que filhos impactam tanto a carreira do pai quanto da mãe. Sem essa mudança de mentalidade, o debate fica incompleto.
Você acredita que o amor está em desuso nas relações atuais?
Não. O amor não está em desuso ele apenas mudou de forma. Talvez o modelo tradicional esteja sendo questionado, mas existem muitas maneiras de viver o amor hoje.
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O livro é voltado apenas para mulheres?
Não. Embora eu escreva a partir do meu lugar de fala como mãe, o livro também é relevante para homens, especialmente aqueles que estão em relacionamentos ou pensam em ter filhos.
O que espera do lançamento em Portugal?
Espero que o livro acolha diferentes mulheres as que têm dúvidas, as que decidiram não ter filhos e as que já são mães. E também que provoque reflexão nos homens. Esse já é um retorno muito bonito que tenho recebido.
*Com colaboração de Susana Gaião Mota
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