PRESIDENCIAIS 2026

Seguro e Cotrim travam embate sobre nacionalidade e poder presidencial

Os candidatos debateram a capacidade de equilibrar um sistema político dominado pela direita, da Lei da Nacionalidade, da saúde e do trabalho

Dezembro 17, 2025

Debate RTP entre António José Seguro e Cotrim de Figueiredo. Créditos: Pedro A. Pina

António José Seguro e João Cotrim Figueiredo, candidatos presidenciais apoiados pelo Partido Socialista e da Iniciativa Liberal, respetivamente, confrontaram-se ontem num debate na RTP, de forma moderada.

A maioria dos analistas políticos referiu que Seguro se saiu melhor, mas por uma margem mínima.

Os candidatos falaram da sua experiência profissional e da capacidade de equilibrarem um sistema político dominado pela direita, num debate em que a Lei da Nacionalidade, a saúde e o trabalho estiveram entre os temas centrais.

Falaram também do chumbo da lei da nacionalidade pelo Tribunal Constitucional, com Cotrim Figueiredo a afirmar que as normas essenciais foram validadas pelos juízes e que espera que a “Assembleia da República não cometa a loucura de insistir naquela redação”, o que levou a que António José Seguro pedisse um esclarecimento: “Estou estupefato a ouvir o João Cotrim Figueiredo sobre esta questão, porque eu o ouvi a dizer que promulgava esta lei. (…) Em que é que ficamos?” , questionou Seguro.

Cotrim garantiu que promulgaria a Lei da Nacionalidade, embora tenha achado bem que o Tribunal Constitucional chumbasse a alteração à lei penal integrada na nova legislação sobre a nacionalidade.

Das oito normas de que foi pedida fiscalização, três foram aprovadas e, das cinco chumbadas, só uma lhe pareceu interessante discutir: a que abrange o impedido de atribuição da nacionalidade a pessoas condenadas por crimes que ao abrigo da lei portuguesa tenham pena superior a dois anos. “A exigência de um registo criminal limpo não me parece extraordinária”, considerou.

Cotrim afirmou ainda esperar que, quando os partidos que apoiaram a lei tiverem de a rever em sede da Assembleia, “não entrem em braço de ferro com o TC”.

O candidato referiu que assim “ninguém ganha”, lamentando tal cenário já que a lei “é necessária”.

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Seguro voltou a pedir esclarecimentos a Cotrim Figueiredo, “Porque é difícil dizer, ao mesmo tempo, que promulgaria a lei e que espera que o texto dessa lei seja alterado. “Portanto, em que é que ficamos?”, insistiu Seguro.

Após o silêncio e a hesitação, o liberal respondeu: “Promulgava esta lei”. António José Seguro reagiu: “Estou esclarecido”.

Sobre o pacote laboral, tema sensível, que fez parar o pais a semana passada, com uma Greve Geral, Seguro afirmou que, se fosse Presidente da República, o vetaria, enquanto Cotrim Figueiredo o promulgaria.

“Essa é uma diferença muito grande que serve para demonstrar como a sua eventual possível eleição como Presidente da República reforçava o poder absoluto que já existe no nosso espetro político da direita em Portugal”, disse Seguro, antes de afirmar que é o único candidato que pode contribuir para a “moderação e equilíbrio do sistema político”.

Já Cotrim Figueiredo defendeu que o fundamental é que os candidatos “sejam independentes relativamente aos detentores do poder executivo”.

Depois, Cotrim acusou Seguro ser “vago em relação às suas propostas”, considerando o pacto para a saúde já apresentado por Seguro não oferece nada de concreto.

Numa altura em que abordavam aquele que consideram dever ser o comportamento institucional do presidente da República, Seguro afirmou que não pretende ser “um primeiro-ministro sombra em Belém”, aproveitando para salientar que, ao contrário do seu adversário, tem “experiência governativa”.

Depois de concordarem que são necessárias medidas para aumentar a natalidade em Portugal, os dois candidatos divergiram sobre um programa de incentivos fiscais para empresas que se queiram adquirir ou fusionar – plano defendido por Seguro e que Cotrim disse já existir –, antes de terminarem em sintonia na crítica à Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump.

Última sondagem de opinião

Dias antes do debate na RTP entre os dois candidatos, a última sondagem de opinião, feita pelo CESOP – Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e Público conhecida esta segunda-feira, coloca os candidatos presidenciais André Ventura, Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo em empate técnico.

André Ventura surge no topo, com 22%, seguido de Luís Marques Mendes (20%) e Henrique Gouveia e Melo (18%), ficando os três “em situação de empate técnico”, tendo em conta as margens de erro.

Já António José Seguro e Cotrim de Figueiredo aparecem posicionados em quarto (16%) e quinto lugar (14%) com uma diferença pequena entre ambos.

André Ventura reúne a maior percentagem nas intenções diretas de voto dos inquiridos nesta sondagem.

No entanto, em cenários de segunda volta, o líder do Chega perde tanto contra Luís Marques Mendes, como contra Henrique Gouveia e Melo ou António José Seguro.

De acordo com a sondagem, “se as eleições tivessem sido realizadas no momento das entrevistas, quatro candidatos poderiam passar à segunda volta: Ventura, Mendes, Melo e Seguro”.

“Mas também Cotrim se aproxima muito desta possibilidade, pois o limite mínimo de Mendes está apenas um ponto percentual acima do limite máximo de Cotrim. Diferença muito curta para dois candidatos que disputam eleitorado da mesma área política”, acrescenta.

Ventura perde em cenários de segunda volta

Focando-se apenas nos votantes dos três maiores partidos nas últimas eleições legislativas de 2025, a Católica concluiu que 33% (um em cada três) votantes da Aliança Democrática (AD) tencionam votar no candidato apoiado por essa coligação: Luís Marques Mendes.

Dos participantes que tencionam votar neste candidato presidencial, apenas 7% votaram no PS nas legislativas e 1% no Chega.

Já Gouveia e Melo tem apoio de fatias significativas do eleitorado dos três partidos: 20% de votantes do PS, 15% da AD e 12% do Chega.

Cotrim Figueiredo recolhe a intenção de voto de 17% dos votantes da AD e apenas 5% do Chega e 2% por cento do PS.

André Ventura reúne a intenção de voto de 65% (dois terços) dos votantes do Chega nas últimas legislativas. Apenas 5% dos eleitores da AD e 3% dos do PS tencionam votar neste candidato.

António José Seguro junta, por sua vez, 39% das intenções de voto de eleitores do PS, 4% de eleitores da AD e 1% do Chega.

Eleitores querem presidente honesto e que saiba ouvir

Confrontados com uma lista de características, os participantes preferiram a honestidade, a atenção aos aspetos sociais, a ponderação, o “saber ouvir” e a atenção à economia como as que mais valorizam num presidente da República.

Quanto à honestidade, os inquiridos elegeram Gouveia e Melo, Seguro e Cotrim Figueiredo como os mais honestos entre todos os candidatos a estas eleições. Com a maior capacidade de ouvir as pessoas foram escolhidos maioritariamente Luís Marques Mendes e António José Seguro.

No campo dos aspetos sociais, foram escolhidos Ventura, Marques Mendes e Seguro. Já a maior atenção à economia foi atribuída aos candidatos apoiados pela AD e pela IL.

Os candidatos que parecem mais ponderados aos entrevistados são, por sua vez, Marques Mendes, Seguro e Gouveia e Melo.

A maioria dos inquiridos refere que vai votar “de certeza”.

Apesar de não ser possível prever um valor para a abstenção a partir das respostas dos inquiridos, 82% dos participantes disseram que iriam votar “de certeza” se as eleições se realizassem agora.

*Com informações da Agência Lusa

susana@revistaentrerios.pt