NOVA FASE

“Talvez me chamem de doida”: Ana Frango Elétrico aposta em mudança radical no próximo disco

Artista encerra o ciclo de "Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua", celebra a ligação com Portugal e diz que o novo trabalho marcará um retorno à compositora e poeta

Junho 2, 2026

Ana Frango Elétrico desafia a própria fórmula e anuncia uma virada na carreira. Crédito: Divulgação

Ao mesmo tempo em que se despede da fase de Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua, Ana Frango Elétrico prepara uma guinada artística. O próximo trabalho, ainda sem data de lançamento, promete seguir por um caminho bastante diferente daquele que ampliou o alcance de sua música nos últimos anos. E a mudança, segundo a própria artista, pode surpreender parte do público. “Talvez tenha gente que me chame de doida”, brincou em entrevista à EntreRios. “Eu não gosto de me repetir.”

A declaração resume um momento de transição na trajetória de Ana. Depois de um disco marcado pela experimentação sonora, visual e estética, o novo projeto representa um retorno ao que está na origem de sua criação artística. “É um disco onde eu retorno à Ana Frango Elétrico compositora, poeta”, afirmou.

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Para Ana, Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua foi uma obra profundamente ligada às possibilidades de produção musical e à mistura de referências acumuladas ao longo da vida. “Sou uma pessoa da geração da internet”, disse, ao lembrar que descobriu nomes como Itamar Assumpção e Charlie Parker através do YouTube.

O próximo trabalho, por outro lado, nasce de uma busca diferente, mais centrada na canção e na escrita. A nova fase surge em um momento de expansão da carreira. Presença cada vez mais frequente em festivais internacionais, Ana vê a crescente visibilidade da música brasileira no exterior como consequência natural da força criativa do país.

“O mundo está vendo isso”, afirmou. Em sua avaliação, independentemente do gênero musical, há talento, emoção e dedicação suficientes para despertar o interesse de públicos cada vez mais amplos.

Apesar do reconhecimento conquistado nos últimos anos, Ana evita associar a trajetória à busca pela fama, afirmando não querer fama, apenas gravar discos. O crescimento do público, avalia, aconteceu de forma gradual, após anos tocando em espaços pequenos e construindo uma audiência de maneira orgânica.

Com nascimento na cena independente, Ana afirma que segue aprendendo a cada apresentação e procura manter o foco na criação artística, mesmo diante das expectativas que surgem com uma carreira em ascensão.

Essa preocupação também aparece quando o assunto são as redes sociais. Enxerga que as plataformas digitais exercem uma influência excessiva sobre a produção cultural contemporânea e acabam incentivando processos criativos cada vez mais imediatistas.

“É uma grande distração para todos nós”, afirmou. Ao olhar para o futuro da música brasileira, Ana demonstra entusiasmo, mas também defende uma renovação dos espaços de visibilidade. Embora celebre o sucesso alcançado por diferentes artistas da atual geração, acredita que ainda há muitos nomes relevantes fora do circuito dos grandes festivais.

Na sua avaliação, o desafio passa também por criar ambientes que permitam mais experimentação e menos dependência das lógicas impostas pelas redes sociais.

Durante a conversa, também falou sobre a relação construída com Portugal ao longo dos últimos anos. O país, segundo Ana, abriga um dos públicos mais fortes fora do Brasil, resultado de uma afinidade que vai além da proximidade linguística. “A gente se entende pela poesia”, resumiu.

A artista acredita que a música tem um papel importante na aproximação entre brasileiros e portugueses, especialmente em um momento em que as redes sociais frequentemente amplificam divergências e tensões entre os dois países. Para Ana, festivais como o Coala, no qual se apresentou no último domingo (31), ajudam a reforçar aquilo que existe em comum, sobretudo a riqueza da língua compartilhada.

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Portugal ocupa ainda um lugar especial na trajetória recente por ter sido um dos poucos países europeus onde foi possível apresentar shows com a banda completa. Segundo Ana, esse formato é essencial para transmitir ao público a experiência artística imaginada para os espetáculos e demonstra a importância de iniciativas que viabilizam estruturas mais amplas para artistas brasileiros em circulação pelo continente.

Enquanto encerra um ciclo e prepara o próximo, segue apostando na transformação como parte fundamental do processo criativo. O novo trabalho ainda não tem data para chegar ao público, mas uma coisa parece certa: a intenção não é repetir a fórmula que trouxe reconhecimento nos últimos anos. Mesmo que, como Ana admite, isso faça algumas pessoas pensarem que enlouqueceu no caminho.

flavio@revistaentrerios.pt

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