Crônica

Teoria geral do pimba para os brasileiros

Junho 9, 2026

Crédito: Wolfgang Krzemien/Pexels.
Crédito: Wolfgang Krzemien/Pexels.

Junho chegou! É o mês dos santos populares, da sardinha no pão, da devoção a Santo Antônio. É também quando o país de Camões e Pessoa deixa o lirismo e a epopeia de lado e mergulha de cabeça no caldeirão do pimba. Se o meu senhor e a minha senhora ainda não ligaram o nome ao ritmo, vão ao arraial mais próximo. Vão lá, apurem o ouvido para aí entenderem o que estou dizendo.

O pimba é feito o pastel de nata, uma instituição portuguesa. Se o brasileiro perguntar, o lisboeta vai dizer que parece o nosso brega. Mas não é. O brega, perto dele, é canto gregoriano. O pimba tem a sutileza de um choque de trens. É a vitória do duplo-sentido, a licença poética do politicamente correto, à prova de wokismos, cantado por eles e elas, do operário à doutora. Pelo menos, enquanto a cerveja não acabar.

Vejam o Baile de Verão do José Malhoa. Em vez do camoniano “amor é fogo que arde sem se ver”, o apaixonado beija-beija do casal atrás da igreja, a malta e até o padre dando aquela força, “aperta, aperta com ela!”. Ah, o amor! A fé unindo os casais, na singela imagem do pároco aos berros, “aperta, aperta com ela!”. O triunfo poético da redondilha sobre o verso decassílabo.

No universo pimba, se você não sabe, Quim Barreiro é uma espécie de Chico Buarque. É dele o clássico A Cabritinha, um libelo edipiano-rural protagonizado por um marmanjo recalcado pela ausência do aleitamento materno, obrigado a recorrer, vejam só o twist dramático, às tetas da tal cabritinha do título para superar o evento traumático da infância.

No ramo das relações familiares, Quim Barreiro é um freudiano de carteirinha. Além do lactente adulto perseguidor de caprinas, há o filho extremamente agradecido por ter vindo ao mundo, gritando para quem quiser ouvir, “se a minha mãe não tivesse me tido, não tinha nascido”, um refrão que apenas dito rapidamente revela o conteúdo reprimido no inconsciente do neurótico.

Já a gastronomia é o leitmotiv de Rosinha, a Amália Rodrigues do pimba. Como no pronúncia em Portugal o “o” tem o som de “u”, as possibilidades são infinitas. Um picante repertório, como na reflexão hortícola-alexandrina Eu faço de co- entrada, ou ainda em Fica sempre no coador, um profundo estudo de caso sobre os danosos efeitos do vício do chá nas relações matrimoniais.

Aos brasileiros desejosos de se aprofundarem ainda mais na efervescente ciência do pimba, aproveitem. Junho é ideal para as pesquisas de campo nos laboratórios ao ar livre em cada arraial nas esquinas de Lisboa.

Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.

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