Ter ou não ter filhos? Eis a questão!
Por que esta se tornou uma decisão tão difícil? Desafios financeiros, falta de tempo para trabalhar e medo de futuras separações são reflexões necessárias sobre o tema
- Lisboa
Abril 25, 2026
A propósito do lançamento do livro “Ter ou não ter filhos?”, de Ruth Manus, é importante falar sobre uma inquietação comum entre mulheres durante o período fértil — fase em que, biologicamente, podem ser mães e em que essa dúvida costuma acompanhá-las ou atormentá-las! Trata-se de uma questão que, em geral, afeta menos os homens, já que eles podem adiar a decisão de ter filhos quase até ao fim da vida.
Antes da pergunta “ter ou não ter filhos”, talvez seja ainda mais importante refletir: “estou com a pessoa certa para ter filhos?”. A instabilidade dos relacionamentos atuais gera insegurança em se relacionar, casar e, consequentemente, ter filhos. Costuma-se dizer que filhos são para a vida toda, enquanto relações podem não ser. Justamente por isso, é legítimo o receio de criar um vínculo permanente com o outro progenitor. E se corre mal?
Muitas pacientes, em contexto de consultório, relatam que gostariam de ter filhos, mas não têm parceiro ou não sentem segurança nas relações atuais. Maior que a dúvida sobre querer ou não ter filhos, é sobre com quem tê-los.
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Ter filhos em uma relação instável pode trazer consequências muito sofridas a longo prazo. Criar um filho já é desafiador a dois; em meio a conflitos, o impacto na saúde mental, na vida profissional e financeira — além das relações futuras — pode ser significativo.

A autora destaca outro ponto relevante: ser mãe em uma sociedade patriarcal. Na prática, isso significa que a maior parte do cuidado com os filhos ainda recai sobre as mulheres.
Dados da Eurofound mostram que apenas 19% dos homens portugueses dizem participar das tarefas domésticas. Mesmo nos países com melhores índices, como a Suécia (36%), a divisão ainda está longe de ser igualitária. Além disso, a maioria dos casais não conta com ajuda doméstica, ou seja sobra quase sempre para as mulheres.
Outro tema levantado pela autora é as mudanças na aparênciano pós-parto. Muitas mulheres se perguntam: “e se eu não recuperar meu corpo?” ou “e se meu parceiro perder o interesse?”. A pressão estética é tão intensa que pode influenciar o desejo de ser mãe — o que é especialmente cruel, considerando que mudanças corporais são inevitáveis ao longo da vida.
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Do ponto de vista psicológico, um dos maiores desafios da maternidade é a culpa. A autora fala muito nela e em todas as situações em que ela aparece sem pedir licença: Por não conseguir trabalhar como antes, por deixar os filhos com terceiros, por precisar de tempo para si ou para a relação. No fim, qualquer escolha parece inapropriada ainda que seja humanamente impossível ter tempo para tudo.

Hoje, o grande desafio das relações — amorosas, familiares ou de amizade — é o tempo, ou a falta dele. E essa sobrecarga pode desestimular a ideia de ter filhos. Se antes se pensava e bem que “é necessária uma aldeia para educar uma criança”, hoje essa aldeia virou cidade e nela a rede de apoio quase não existe, o que dificulta muito a maternidade.
A natalidade em números
Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostra a queda acentuada da natalidade em Portugal: de mais de 200 mil nascimentos por ano na década de 1960 para menos de 85 mil em 2024. Ou seja, atualmente nascem menos da metade dos bebês de 70 anos atrás.
A maternidade também está mais tardia. Hoje, as mulheres têm o primeiro filho, em média, aos 30 anos — mais de três anos depois do que há duas décadas. E esse adiamento, naturalmente reduz a probabilidade de terem mais filhos.
Embora fatores econômicos influenciem, eles não explicam tudo. Outros aspectos também pesam:
- Valorização da carreira profissional feminina
- Desejo de aproveitar a vida antes da maternidade
- Percepção de que carreira e filhos são difíceis de conciliar
- Falta de apoio estatal suficiente
- Prolongamento dos estudos até mais tarde
- Medo do futuro
- Pouca flexibilidade no mercado de trabalho
Os filhos exigem grande disponibilidade, especialmente das mães. As principais barreiras apontadas são financeiras (67%) e relacionadas ao emprego. Fatores pessoais também contam, como o receio da responsabilidade e da falta de tempo para outras áreas da vida.

E por que ter filhos?
Entre os motivos para ter filhos, destacam-se: acompanhar o crescimento deles, a realização pessoal e formação de uma família. Também aparecem razões como fortalecer o relacionamento e evitar a solidão na velhice.
A maioria das pessoas ainda deseja ter dois filhos, independentemente de idade, gênero ou condição social. Uma exceção são pessoas com enteados, que tendem a preferir ter apenas um.
Outro fator relevante é o momento da vida em que se inicia a convivência a dois e o primeiro emprego: quanto mais cedo isso acontece, maior a probabilidade de ter mais filhos.
Segundo um estudo da Morgan Stanley, até 2030 cerca de 45% das mulheres entre 25 e 44 anos nos Estados Unidos devem estar solteiras e sem filhos.
A decisão é de cada casal e não deve ser julgada, porque quem cuida é que sabe se consegue ou quer assumir essa responsabilidade ou não.
susana@revistaentrerios.pt