Copa do Mundo

Trump no ataque, Fifa na plateia

Junho 11, 2026

Donald Trump em Washington Foto: Agência Lusa EPA/AARON SCHWARTZ / POOL

A submissão da Fifa aos Estados Unidos, uma das sedes da Copa do Mundo, ao lado do
México e do Canadá, abre precedentes nefastos ao futebol. As retaliações aos desafetos do
presidente americano Donald Trump sintetizam tudo o que a entidade que rege o futebol
deveria abominar: está entrando em campo a ideia de que o dono do campo é também
quem manda na bola. Em outras palavras, a geopolítica mistura-se ao esporte, com danos a
delegações e torcedores, enquanto o presidente da Fifa, Gianni Infantino, assiste passivo,
da primeira fila da plateia, a gestos de xenofobia e humilhações contra um punhado de
nações.

Como o estatuto da Fifa tem a assinatura de Infantino, pressupõe-se que ele leu o seu
conteúdo. É necessário, portanto, abrir aspas para o documento que, de certa forma, está
sendo rasgado neste Mundial:

“A FIFA está comprometida com o respeito a todos os direitos humanos internacionalmente
reconhecidos e se esforçará para promover a proteção desses direitos (…) A discriminação
de qualquer tipo contra um país, pessoa física ou grupo de pessoas por motivo de raça, cor
da pele, origem étnica, nacional ou social, gênero, deficiência, idioma, religião, opinião
política ou qualquer outra opinião, riqueza, nascimento ou qualquer outro status, orientação
sexual ou qualquer outro motivo é estritamente proibida e punível com suspensão ou
expulsão”, diz o estatuto.

Infantino assinou, Trump não leu. Assim, os torcedores iranianos e haitianos foram
proibidos de entrar nos Estados Unidos – e também estão suspensos os vistos para os
nascidos no Senegal e na Costa do Marfim. Escalado para a Copa, o melhor árbitro da
África, o somali Omar Artan, foi deportado dos Estados Unidos e está fora da festa. E, last
but not least, é aterrorizante a relação entre a seleção iraniana e os Estados Unidos. As
palavras “ataque” e “defesa”, tão comuns no futebol, têm sentido duplo desta vez, tantas
são as farpas e os mísseis que, mesmo disparados bem longe do campo e da bola, fazem
pipocar estilhaços na Copa de 2026, centro das atenções do universo a partir desta quinta-
feira (11/6).

A Segunda Guerra tirou de campo, por 12 anos, a Copa do Mundo. Muitos gols e 19
edições depois, a tensão política volta a apontar para a mais importante competição
esportiva do planeta. Há cheiro de pólvora no ar. A ponto de o governo do México ter
entrado no (curto-) circuito, abrindo as portas de seu país para que a equipe iraniana
pudesse se hospedar por lá durante o Mundial. Ou seja: o Irã teve de transferir sua base do
Arizona para Tijuana, ganhando o espaço aéreo mexicano para os voos da Iran Air, o que
solucionou os problemas relacionados aos vistos de entrada. Mas a medida paliativa não
seca o sangue dos olhos de Donald Trump, e tampouco minimiza o constrangimento, já que
a seleção iraniana é obrigada a fazer um bate-volta a cada jogo em solo americano –
somente na primeira fase, são dois em Los Angeles e um em Seattle.

Não será somente futebol. Não será somente Cristiano Ronaldo, Messi, Yamal e Mbappé.
Além dos gramados, a bola vai quicar no campo da diplomacia e da segurança internacional
até o dia 19 de julho, quando a competição chega ao fim. A neutralidade política no futebol,
máxima encampada pela Fifa, está desafiada pelo conflito entre o dono da casa e um dos
visitantes, com um forte aparato de segurança poluindo o cenário esportivo. Por reunir 48
países em três sedes, a Copa de 2026 deveria ser uma proposta de conexão de culturas
variadas, mas enfrenta a ameaça de se tornar palco do debate político e, talvez, de
conflitos. É certo que o posicionamento de atletas e o protesto de torcedores causarão
desconforto, sem falar no risco de incidentes de grande repercussão mundial.

Que o futebol vença a guerra dessa vez. Que Deus – seja ele Alá ou Olorum – perdoe a
omissão da Fifa.