Aos 17 anos, Jorge Cardoso deixou Ovar, no distrito de Aveiro, rumo à Suíça com a família. Como tantos portugueses que emigraram em busca de melhores oportunidades, tinha poucas certezas e um futuro ainda por desenhar. Quase duas décadas depois, tornou-se um dos mais respeitados mestres chocolateiros do mundo. Em duas edições da Culinary World Cup — ou, em bom português, a Copa do Mundo Culinária — foi campeão na categoria de escultura artística, representando o país da Europa Central.
A peça em chocolate que mais chamou a atenção do júri, e ainda é celebrada, reproduz uma vaca montada em uma bicicleta, e exigiu 150 horas de trabalho. Ela divide o protagonismo com outro projeto marcante na trajetória do artista: a escultura ‘doce’, em tamanho real, do jogador de futebol Cristiano Ronaldo, atualmente exposta no Museu CR7, no Funchal, na Ilha da Madeira. São 1,87 metro de altura, 120 quilos e 300 horas de trabalho. Para que a estátua se mantenha livre da ação do tempo, ele usa um tipo específico de verniz e faz a manutenção da peça de tempos em tempos.
“Eu pensava: ‘Isso precisa dar certo’. Se desse errado, tanto ele quanto eu seríamos motivo de gozação em escala mundial.” Mas não só funcionou como, dois anos depois, ele criou outra, do tenista Roger Federer, medindo 1,85 metro e pesando 100 quilos. Desde 2021, Cardoso tem uma loja no centro histórico de Friburgo, cidade medieval a menos de meia hora de Berna, onde as prateleiras exibem uma variedade de tabletes, bombons e figuras criativas, como a escultura de São Nicolau, feita com cerca de 150 quilos de chocolate. Todos os produtos são feitos com cacau brasileiro e outros da América Latina, vale ressaltar.
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Nas proximidades da cidade, fica o ateliê do chocolatier, que a EntreRios visitou. O local funciona como um laboratório onde Cardoso começa a trabalhar por volta das 7h e segue até às 16h, em meio a máquinas, moldes de silicone e esculturas em diferentes etapas de produção. Empreender como imigrante, entretanto, trouxe inseguranças antes de se transformar em confiança. “Quando abres um negócio aqui com um nome estrangeiro, tens sempre a dúvida: ‘Será que vão aceitar?’ Sempre me disseram que a sorte foi já ser conhecido como ‘o Jorge Cardoso que fez o Cristiano Ronaldo’”.

A tentação de retornar para Portugal existiu, mas com data marcada. Depois do primeiro título mundial, em 2018, Cardoso chegou a entregar o apartamento e passar uma semana inteira pelas ruas do Porto atrás de um ponto comercial. Mas a conta não fechou. “As rendas eram muito mais caras do que na Suíça.” O mestre chocolateiro retornou, então, para a sua “segunda casa”, e o plano de volta ficou para trás. “Acho que estou no caminho certo, a empresa está a crescer e, de certa forma, consegui manter a ligação com as artes.” E qual foi a principal lição que aprendeu ao longo dos anos dedicados à pastelaria? “Há aqueles que tratam o chocolate por você. Hoje tenho a possibilidade de tratar o chocolate por tu”, afirmou, referindo-se à relação próxima e quase pessoal que construiu com o ingrediente.
Quando o chocolate casou com a arte
Filho de pai cozinheiro e mãe pasteleira, Cardoso cresceu cercado por panelas e receitas, mas, antes de descobrir que faria carreira na gastronomia, escolheu outro caminho: estudou artes gráficas em Portugal. A mudança para os arredores de Friburgo, no oeste da Suíça, alterou seus planos. Sem dominar o idioma, começou trabalhando na jardinagem e, mais tarde, servindo mesas em um restaurante português. Foi nesse ambiente que a paixão pela cozinha falou mais alto.

Havia também um objetivo que o acompanhava desde o início. “Eu disse à minha mãe: ‘Eu não quero ser mais um que vem para cá trabalhar em obras ou ser mecânico’.” A adaptação não foi fácil. Cardoso sentiu na pele o contraste entre o modo de vida da Península Ibérica e a disciplina que marca o cotidiano suíço. “São dois países completamente diferentes. Eu acho que Portugal é como a Itália, a Espanha e mesmo o Brasil. Aproveita-se o dia, há muita alegria. A Suíça costuma ser um quadrado que está fechado e temos que seguir as regras”. Depois da formação em pastelaria, ele encontrou no chocolate e na arte associada a ele o caminho para desenvolver o seu talento.
Do cacau ao samba
Apesar de ainda não ter visitado o Brasil, Cardoso mantém uma relação próxima com o país. Além de utilizar o cacau brasileiro em suas receitas, já recebeu convites do colega e também chocolatier Abner Ivan para conhecer São Paulo. Enquanto a viagem não acontece, já criou uma ligação com a cultura “brazuca”. Na cidade de Lausanne, participa de um bloco de carnaval chamado Prisioneiros do Samba. “Estou a aprender a tocar tamborim”.
renata@revistaentrerios.pt