Inovação

Unicorn Factory aposta no Brasil como ponte para expansão global de startups

Segundo o diretor executivo, Gil Azevedo, a instituição também tem investido muito para aproximar empreendedores portugueses do ambiente de inovação brasileiro

Julho 9, 2026

Segundo Gil Azevedo, Brasil tem importância estratégica para a internacionalização de empresas. Crédito: Renan Araujo

“A conexão com o Brasil é uma ponte única entre dois locais estratégicos e muito significativos: a América Latina e a Europa”. A frase de Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory resume o espírito de colaboração da instituição, criada pela Câmara Municipal de Lisboa em 2022 para desenvolver startups e projetos de tecnologia na cidade, e o público brasileiro, cada vez mais representativo em Portugal. O grande objetivo do projeto é produzir novos unicórnios, ou seja, empresas que alcancem valor de mercado de mais de um bilhão de dólares.

Ao longo dos anos, a Unicorn Factory já recebeu empreendedores com startups consagradas que queriam expandir seus negócios para Portugal (a Quinto Andar, unicórnio brasileiro, já teve sede por lá) até brasileiros que já viviam em Portugal e decidiram empreender diretamente na Europa, outro público muito comum no cenário da inovação.

Em 2024, a instituição lançou um programa exclusivo para empresas brasileiras de tecnologia que puderam participar de um projeto de scaling up, visando a atuação e a expansão na Europa. O próprio Gil Azevedo já atuou no Brasil entre 2008 e 2011 em uma empresa de telecomunicações.

Para Gil, a proximidade faz com que o Brasil seja um destino óbvio para a expansão das startups, que, segundo ele, precisam pensar em expandir suas soluções em escala global. Por conta disso, também se procura incentivar a criação de soluções voltadas para os imigrantes em geral.

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A instituição também tem feito um trabalho intenso para se aproximar de outras organizações brasileiras ligadas à inovação para permitir essa abertura às empresas portuguesas.

O Unicorn Factory chega ao seu quarto ano como um dos grandes transformadores de Lisboa como potencializadora de iniciativas de inovação, o que coincidiu com a chegada do Web Summit à cidade, em 2016, e com o seu crescimento ao longo dos anos. “Tudo isso teve um impacto positivo para a cidade, porque acaba por atrair mais investimentos, criar novos empregos, reter jovens e criar uma comunidade internacional muito mais dinâmica”, ressalta.

Ao longo desse período, já passaram pelo hub de inovação 17 unicórnios de todo o mundo, mais de 80 scale-ups (empresas com crescimento superior a 20% ao ano) e foram criadas mais de 17 mil novas vagas de trabalho, além de um impacto estimado de 600 milhões de euros. A expectativa é que para os próximos anos, o local possa ter seu próprio unicórnio.

Confira abaixo a entrevista completa com o executivo:

Como fazer com que as startups criem soluções práticas para o dia a dia das pessoas e que tragam impactos positivos para as cidades?

Para além de apoiar os empreendedores a fazerem seus projetos crescer e se tornar internacionais, também buscamos encontrar soluções que possam ser implementadas na cidade com impacto. Temos alguns programas que possuem esse foco. Um deles é o Lisboa Innovation for All, voltado para ligar as inovações das startups a um impacto nos residentes de Lisboa.

Criamos as categorias de saúde, educação e integração de imigrantes e abrimos candidaturas para que as startups pudessem demonstrar o impacto e apresentar soluções tangíveis aos residentes. Recebemos mais de 400 candidaturas e escolhemos três projetos para cada uma das três categorias e, depois, elegemos um vencedor.

Que soluções são essas?

Entre as soluções havia uma para dar acesso a pediatras para todos os residentes que são pais em Lisboa. A ferramenta permitia falar com um médico em tempo real, 24 horas por dia, para não precisar se deslocar ao hospital se houver algum problema. Ela acaba por ter um impacto muito positivo, já que ajuda as pessoas e retira a pressão do sistema de saúde, as filas de espera e melhora para quem de fato precisa de um médico.

Na área de integração de imigrantes há uma que desenvolve uma solução para equiparar as experiências profissionais de qualquer pessoa, de qualquer país, para que se possam ser reconhecidos em outra nação, como um português no Brasil ou um brasileiro em Portugal. Já uma terceira solução cria comunidades entre pessoas que chegam à cidade e não conhecem ninguém e aqueles que possuem necessidades e precisam de ajuda. A ideia é que eles possam coajudar uns aos outros e resolver desafios e problemas de suas vidas.

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Várias dessas soluções estão sendo testadas em conjunto com a cidade e muitas delas se traduzem em benefícios para os residentes. Essa será uma iniciativa regular de identificar startups que queiram oferecer suas soluções no dia a dia para o bem-estar dos residentes da cidade de Lisboa.

Qual a relação da Unicorn Factory com o Brasil e com as startups e empreendedores brasileiros?

A comunidade brasileira é muito relevante para nós. Em nossos diferentes projetos sempre temos bons exemplos do Brasil. Por exemplo, na nossa rede com cinco diferentes hubs de inovação, o primeiro deles, na área de videogames, foi criado por conta de uma ligação nossa com um founder brasileiro Jeferson Valadares, que já teve sua startup com a gente. Todo o desenvolvimento e o conceito desse hub foi desenvolvido em conjunto com ele.

No Programa de incubação, temos visto ainda várias startups e seus fundadores a fazer essa expansão para a Europa utilizando Portugal como a porta de entrada, porque acabamos por ser um ponto de expansão muito mais acolhedor e mais fácil para os brasileiros. No programa de scale-up também temos algumas startups brasileiras que têm aproveitado para se expandir internacionalmente. Já tivemos aqui um unicórnio brasileiro, a Quinto Andar.

Vemos de fato muitos projetos de brasileiros que já tiveram uma experiência de sucesso em relação à sua startup e que se mudaram para Portugal para lançar sua empresa aqui e expandir para a Europa. Mas também temos vários brasileiros que já vivem aqui e nos encontram para buscar uma ajuda nesse percurso inicial.

Portugal também tem procurado se expandir para o Brasil?

Também há movimentos no outro sentido, ou seja, de empreendedores portugueses e europeus que querem expandir suas soluções para o Brasil. Nós podemos fazer isso por meio do trabalho em conjunto com várias organizações do país, como o Instituto Caldeira em Porto Alegre, o Maravalley e o Investe Rio em Rio de Janeiro, o Cubo em São Paulo. É uma ponte que temos vindo a apostar muito e acreditamos que possamos ter uma grande colaboração.

Também temos ampliado essa colaboração com o Brasil com o Web Summit Rio. Em 2026, essa foi nossa terceira participação e a cada ano temos mais startups que querem estudar a expansão para o mercado brasileiro e para aproveitar as oportunidades oferecidas pelo país. Também já levamos uma delegação ao South Summit em Porto Alegre, discutimos parcerias com o Sebrae e estamos sempre a discutir mais colaborações permanentes para criar novas pontes de apoio. Creio que o Brasil também possui essa abertura para entender como a inovação pode ajudar o país a crescer, a se desenvolver e a ser mais competitivo na escala global.

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Qual a importância da questão da imigração e da influência dos estrangeiros para o cenário da inovação em Lisboa?

Há uma grande diferença entre ter uma comunidade local pequena direcionada a empreendedores locais e de ser uma comunidade aberto que de fato promove a expansão internacional. Na nossa rede de mentores, por exemplo, mais da metade deles são de outras nacionalidades. Eles vêm trazer experiências e realidades distintas de outros mercados. Se essas conexões não existissem, teríamos muitas dificuldades para explorar.

Além disso, quando um empreendedor inicia sua startup, seu objetivo é se tornar global e ganhar escala. Organizações de inovação se tiverem um foco meramente local, não estão a dar resposta àquilo que é a necessidade das startups. E, portanto, quanto mais internacional for uma comunidade de inovação, mais oportunidades serão criadas.

Por que escalar para o Brasil?

A Europa inteira é equivalente ao Brasil em tamanho e para nós termos a capacidade de ampliar a escala do negócio temos que ser capazes de criar mercados únicos, que sejam de fácil expansão. E isso nos leva ao caso concreto de Portugal e Brasil. É uma ponte única que se pode fazer entre duas geografias muito interessantes e significativas, a Europa e a América Latina.

renan@revistaentrerios.pt

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