Velho mundo, novo mundo
Como diferenças culturais entre Brasil e Portugal afetam até mensagens e cumprimentos cotidianos
- Lisboa
Julho 2, 2025
Lisboa, um número telefônico, Whatsapp, uma mensagem enviada. Uma semana depois e nada de resposta. Uma semana era o tempo de uma carta ir e voltar pelo correio. Será que escrevi algo inapropriado, preso às armadilhas de uma língua que é a mesma, mas, às vezes, não é?
Aflito, mostrei a mensagem a um amigo português, o José Manuel Diogo, que morou no Brasil e conhecia os meandros das duas culturas. O Diogo pegou o telemóvel, balançou a cabeça e sorriu:
— Eh, pá, não me venhas cá com essa pressa do Novo Mundo. Estás no Velho Mundo, pá!
No Velho Mundo, há dez anos, o Whatsapp era uma abstração, ao contrário do Novo Mundo, um amigo íntimo, tratado no diminutivo por Zap, com cada brasileiro preso a pelo menos dez grupos entre trabalho, família, a velha guarda da escola, e a galera da pelada e do boteco.
— Melhor enviares um SMS — sugeriu o Diogo.
Um SMS? Para o ouvido brasileiro, o SMS era um meio de comunicação paleolítico, como o pombo-correio ou enfiar uma mensagem numa garrafa e atirar ao Tejo. Pior de tudo, foi tiro e queda: SMS enviado e, um minuto depois, o bip anunciava a resposta.
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E até hoje o SMS continua vivinho da Silva entre os portugueses.
“Dar um bom dia ou boa tarde a um português é ter a certeza se o estranho já almoçou ou não, o que exige dons de clarividência”.
Foi a minha primeira experiência com os mistérios do tempo em Portugal. O tempo, uma grandeza física dividido em horas, minutos e segundos, mas que neste cantinho do Velho Mundo tem suas próprias leis.
Um exemplo é o trivial cumprimento de bom-dia, boa-tarde. No Brasil, antes do meio-dia, é bom-dia, depois das doze, boa-tarde, simples assim. Mas aqui, não, a divisão entre bom dia e tarde dispensa o relógio, aliás, respeita outro relógio, o biológico:
— Boa tarde, o senhor poderia me dizer…
— Boa tarde, não, pá, é bom dia, que ainda não almocei.
Ou seja, dar um bom-dia ou boa-tarde a um português é ter a certeza se o estranho à sua frente já almoçou ou não, o que exige dons de clarividência ou o instinto de um perdigueiro, farejando resquícios de odores de sardinha no ar. O que pode levar a diálogos estranhos:
— O senhor já almoçou?
— Sim, carapaus à espanhola, vinho, baba-de-camelo de sobremesa.
— Sendo assim, boa tarde, o senhor poderia me dizer…
Em nome da boa convivência social, portanto, deveria ser obrigatório às pessoas em Portugal deixarem pistas claras se já almoçaram: farelos de queijo na lapela, uma nódoa de cozido na manga ou andar pela rua palitando os dentes.
Ainda assim, deve existir uma maneira mais fácil de cumprimentar um português. Na próxima vez que encontrar o Diogo vou perguntar como se faz, mas temo ouvir a resposta de sempre:
— Eh, pá, lá vens tu com essas coisas do Novo Mundo…
Esta coluna é parte da segunda edição da revista EntreRios, distribuída nas principais bancas de Portugal. Você também pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler a publicação completa.