ENTREVISTA

Vera Iaconelli: “Empurrar a experiência para debaixo do tapete pode adoecer”

A psicanalista fala sobre os sentimentos que impactam os imigrantes que estão deixando Portugal, e como elaborar o recomeço

Setembro 2, 2026

Vera Iaconelli. Crédito: Divulgação
Vera Iaconelli. Crédito: Renato Parada

Se você passou alguns anos no exterior e não atingiu o objetivo inicial, a questão é: você sai do mesmo jeito que entrou? A pergunta é feita pela psicanalista paulistana, escritora e doutora em Psicologia Vera Iaconelli, 61 anos, diretora e fundadora do Instituto Gerar de Psicanálise. Ela responde que desistir de projetos não precisa ser visto como uma derrota e aponta os desafios envolvidos nos recomeços: “Nomear os afetos, falar sobre eles e elaborar os acontecimentos é o que protege o psiquismo”.

Essas questões vêm à tona na medida em que novas legislações restringem a permanência de imigrantes em Portugal e milhares de brasileiros convivem com uma verdadeira gangorra de sentimentos contraditórios. Tanto para os que já tiveram de deixar o país quanto os que ainda vivem em cidades lusas e receiam receber a notificação da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), ou mesmo os que decidiram sair por iniciativa própria, empurrar essa experiência para debaixo do tapete pode causar adoecimento emocional, segundo a especialista.

Na psicanálise, o mesmo fenômeno atinge as pessoas de formas diferentes. A resposta a esse sofrimento depende do repertório de cada um: quem costuma responder com depressão, violência ou somatização tende a repetir esse padrão. Mas há pessoas que reagem avaliando que, se você aprendeu coisas, conheceu pessoas, abriu a cabeça e viu o Brasil sob outra perspectiva, então não foi um fracasso. Foi o tempo de uma experiência que cumpriu sua função.

Vera será palestrante na Feira Literária Internacional de Óbidos (Folio), em outubro, para falar de seu livro Análise, lançado recentemente no país. “A linguagem é o único recurso que temos para processar tudo. É isso que nos impede de adoecer no corpo, inclusive”, diz.

Como distinguir fracasso de transformação?

O fracasso é uma experiência cujo saldo final é puramente negativo. Às vezes, a pessoa se separa após 30 anos e diz que o casamento fracassou. Não fracassou. Tudo o que aconteceu com começo, meio e fim pode ter sido um enorme sucesso enquanto durou. O mesmo vale para a pessoa que passou dois anos no exterior e não atingiu o objetivo inicial. A questão é: você sai do mesmo jeito que entrou?

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A sra. tem visto, na clínica, pessoas que estão voltando por vontade própria?

Sim, voltando porque a experiência é violenta, porque os filhos sofrem bullying na escola, por falarem sem o sotaque português. Coisas que elas não estão acostumadas a viver. Ninguém migra sem ter um sonho, um projeto. Ao escapar de uma realidade dura, se almeja um mundo melhor. Nos lugares onde pousa por mais ou menos tempo, o imigrante sente afetos.

Para um trabalhador qualificado, a exemplo de muitos brasileiros imigrantes, como é encarar o endurecimento das leis e o preconceito?

Para o trabalhador qualificado que precisa voltar, o sentimento é de frustração, já que ele tinha margem de escolha. Poderia ter ficado no Brasil. Mas a frustração de ter que voltar é proporcional à idealização e ao tamanho da aposta. Muitos vão esperando um upgrade, mas saem de cargos de engenharia aqui para virar garçons lá. Mesmo vivendo em cidades mais seguras, eles logo se sentem cidadãos de segunda classe. O choque é grande para a elite que, por ser branca no Brasil, acha que vai ser recebida como europeia; porém, quando chega lá, se descobre vista apenas como latina. Muitos acabam voltando pela violência desse preconceito diário ou pelo sofrimento dos filhos nas escolas. Há também os casos dos que estão sendo notificados a deixar Portugal, mas agora vão tentar a vida em outro país, como a Espanha.

Vera Iaconelli. Crédito: Divulgação
Vera Iaconelli. Crédito: Renato Parada

A realidade desmonta uma narrativa que construímos sobre nós mesmos?

Abrir mão de um sonho pode ser a opção escolhida, mas, ainda assim, pode significar lidar com muitos lutos do lugar de onde a pessoa está saindo e da experiência dela ali. Nossa autoimagem é espelhada no olhar do outro. Quando a realidade traz um retorno violento, de invisibilidade ou crítica, somos obrigados a duvidar de quem somos e a repensar nossa identidade.

Por que, atualmente, recomeçar a vida, em qualquer situação, parece difícil?

Sair da casa dos pais e se colocar profissionalmente tem sido cada vez mais difícil nessa fase do capitalismo; há um limite material real para os jovens. As gerações mais novas não têm um mercado de trabalho tão robusto como as anteriores. Por outro lado, nossa tendência psíquica é a manutenção das coisas: o psiquismo gosta de repetição e automação. Cada recomeço gera estresse, gastode libido, medo do fracasso e falta de garantias. É por isso que tanta gente se mantém no mesmo emprego, casamento ou amizades ruins. Recomeçar exige uma aposta e uma trabalheira enorme, sem nenhuma certeza de retorno.

Como mudar de país e manter a saúde mental?

Sofrimento e estresse fazem parte de estar vivo, são da ordem da saúde e da vida como ela é. O adoecimento mental é de outra ordem: ele surge quando esse sofrimento não é elaborado. Ninguém adoece só porque está sofrendo. Afinal, perder o emprego, envelhecer ou terminar um namoro são dores normais da existência. O que realmente adoece é o isolamento social, a solidão, um estresse contínuo sem intervalos de prazer e a falta de reconhecimento social da sua dor. Portanto, mudar de país novamente trará sofrimento, mas isso só se tornará um adoecimento se o sujeito não encontrar espaços de acolhimento e palavras para nomear e elaborar o que sente.

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O que a sra. recomenda para quem está voltando?

Recomendo a elaboração do processo. O psiquismo funciona assim: nós temos uma vivência e um aparelho de linguagem que precisa elaborá-la. Seja o nascimento de um filho, um casamento, uma migração ou um trabalho, a linguagem é o único recurso que temos para processar tudo. É isso que nos impede de adoecer no corpo, inclusive. Nomear os afetos, falar sobre eles e elaborar os acontecimentos é o que protege o psiquismo do adoecimento. Saúde mental passa por aí, não por medicação. Para lidar com os dilemas humanos, precisamos usar recursos humanos — que, neste caso, é a elaboração simbólica da experiência.

A sra. lançou seu último livro, Análise, em Portugal. Como foi a experiência?

Foi ótima, maravilhosa! O livro foi super bem-recebido. Agora, fui convidada para falar dele na Feira Literária Internacional de Óbidos (Folio), de 16 a 18 de outubro. É uma honra voltar logo após o lançamento.

Sobre o que é o livro?

Ele é diferente dos meus anteriores, que eram mais acadêmicos. Nesse, eu conto o meu processo analítico pessoal, minha história familiar e minha experiência no divã como paciente, misturados a alguns ensaios. Não é uma história fácil. Foi difícil e bem penoso, mas também muito elaborativo. Escrever me ajudou a processar muitas questões da minha própria análise. Tenho ouvido muito dos leitores que o livro os ajuda a falar das próprias questões e a começar ou retomar a terapia. Esse tem sido o feedback mais constante. Vou voltar a Portugal nesta Feira. Fiz a minha segunda lua de mel lá e foi maravilhoso. Porto, Lamego, Guimarães, Braga. Acho o povo super simpático, o clima é uma delícia e a comida é inacreditavelmente gostosa. É muito bom ser turista em Portugal.